Um terceiro estudo sobre Teixeira e Sousa é o da introdução de Domício Proença Filho para reedição da obra em 1997, pela Artium, em uma série que tem a seguinte proposta:
A série Confluências objetiva trazer a público obras relevantes da literatura brasileira que, por qualquer razão, tenham sido marginalizadas, esquecidas ou divulgadas sem o vigor exigido por suas qualidades literárias intrínsecas ou por sua significação histórica literária. Acolhe também textos inéditos de alguma forma renovadores.
Conforme informação da editora, O Filho do Pescador foi escolhido em função da eterna discussão sobre ser ou não nosso primeiro romance, portanto, pela significação histórico literária. A tiragem foi de 1.000 exemplares.
Domício Proença, na orelha do livro, instiga o leitor de hoje para que leia a obra que traz “... amor romântico, marcada de morte, rapto, sexo, mistério, adultério e um quase incesto” e ainda diz que “guardadas as devidas proporções, [ela] não está longe de certas telenovelas de tantos êxitos nos tempos atuais”. Logo se vê que o crítico tenta, como Ferreira, chamar a atenção para os elementos que podem atrair o leitor de hoje.
O crítico apresenta um estudo bem didático sobre o autor e sua obra, dividindo-o em quatro partes. Num primeiro momento, enfoca ‘O autor, sua vida, seus textos’, com informações baseados na leitura de Veríssimo; em seguida, ‘A obra, a crítica e a história literária’, apresentando um rastreamento de sua recepção junto à crítica; na seqüência, ‘O texto do romance’, que é a mais interessante, por fazer uma análise dos elementos que estruturam o texto; e, por fim, um breve posicionamento quanto ao ‘romance no processo literário’.
Nesta terceira parte, após considerar o ‘diálogo’ com todas as críticas levantadas por ele, o autor opta por fazer uma leitura dos elementos estruturadores da narrativa que, ao seu ver, configuram o estilo adotado na composição da obra. A posição de Proença é a de considerar O Filho do
Pescador, como “um dos primeiros textos em prosa de uma comunidade cuja
identidade cultural começa a construir-se”, o que o isenta de uma análise que exija densidade e complexidade, como queriam muitos críticos em suas leituras.
Sendo assim, um dos primeiros pontos analisados por ele é o da linguagem que expressa o gosto do público, uma vez que Teixeira e Sousa escreveu para o leitor comum, apreciador de verdadeiras tramas folhetinescas. Em função disso, o crítico classifica a obra como romance de enredo, pois a trama será mobilizadora do interesse do leitor.
Chama a atenção ainda para alguns traços significativos da narrativa, que talvez compensem as falhas estruturais de um bom romance. Primeiro, o modo como Teixeira e Sousa inicia o romance, escrevendo para uma suposta leitora que lhe teria pedido um romance moral. Ou seja, o narrador situará
o leitor, orientando-o na leitura, ao mesmo tempo em que justifica os seus posicionamentos críticos ao longo do texto. Afinal, estará dando “ensinamentos”. Esta é uma das maiores questões a ser analisada na obra, posto que há uma
confusão entre narrador/autor, que faz com que o leitor acabe “ouvindo” uma
história, de alguém que faz as vezes de interlocutor, ao lado de Emília, a suposta leitora e autora da carta, o que gera uma fusão entre ficção e realidade. Em segundo, o fato de que esta postura leva o autor a um exercício de metalinguagem. Proença chega a dizer que o autor antecipa Machado de Assis, “guardadas as devidas proporções quanto à profundidade dos comentários e sem o caráter linear” (1997, p.32).
Outros aspectos também são mencionados, como o de levar o
leitor a reler o capítulo anterior que, vale dizer, muito será usado nos romances
brasileiros, além do caráter da ação, que é iniciada no meio dos acontecimentos, exigindo o recurso do flashback para contextualizar o leitor dos fatos, o que evidencia um trato com o tempo da narrativa, entre idas e vindas nos capítulos. Ainda, a presença da mulher dominadora, sedutora, cruel e modelo de beleza européia, na figura de Laura, é apontada pelo crítico como pioneira na narrativa romântica. Afinal, ela será o vício em antítese à virtude do jovem pescador, numa narrativa recheada de personagens “abstratas’, como havia dito Ferreira em sua leitura. Entre as personagens, há também o escravo, ao lado de outros tipos que desfilam em meio aos acontecimentos.
Quanto ao espaço, Proença garante que ele é construído com um ‘realismo de detalhe’, prejudicado pelo tom folhetinesco da adjetivação. Não
se pode negar, porém, a presença da paisagem brasileira. Ao final, da mesma forma que Ferreira, conclui que o modelo de Teixeira e Sousa “é o romance de capa e espada, uma modalidade de folhetim, carregada de sentimentalismo romântico, mas a que não falta uma preocupação ‘realista’, destacada a presença viva do Rio de Janeiro da época, inclusive com suas festas e modinhas” (1997, p.37).
O interessante desta análise é que o crítico aceita a idéia de que o romance, mesmo representando uma subliteratura, “eivado de imperfeições, por força dos padrões fixados tradicionalmente para o texto de ficção...”, é de leitura válida:
... no momento em que a própria arte literária se vê questionada em seu conceito tradicional, e quando o desenvolvimento da comunicação de massa e, em especial da mídia eletrônica, abre outros e amplos espaços, essa forma simplificada de narrar ganha um público jamais imaginado quando se converte em folhetim eletrônico, notadamente nas telenovelas brasileiras. (1997, p.39)