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Comum às perspectivas clínicas acima apresentadas é a posição de que existem múltiplas narrativas possíveis e é precisamente esse potencial reconstrutivo que é a essência da transformação humana na terapia (ANGUS; MCLEOD, 2004). As experiências podem ser significadas em diferentes histórias e apontam para a natureza multifacetada da identidade. Segundo Straub (2009), por exemplo, o passado é instável, mutável e indeterminado: “o passado pode, por um bom motivo, ser ‘reescrito’ à luz de novas experiências no presente...” (p.85).

A respeito das autobiografias, Bruner (2004) comenta que nenhuma autobiografia é completa, apenas dada por encerrada. Além disso, este resultado é

apenas uma versão possível, um modo de alcançar coerência, existindo uma infinidade de outros modos possíveis. Não há, portanto, um passado verdadeiro fielmente representado pela linguagem, mas as autobiografias, do ponto de vista da Psicologia Narrativa, funcionam mais como produção de sentido sobre si mesmo. Porém, mesmo podendo ser contadas de variadas formas, Bruner (2004) acredita que quase todas as histórias de vida apresentam pontos de virada (turning points), quando circunstâncias nos convidam a mudar nossos velhos modos de viver.

Como afirma Crossley (2000), “quando um sentido é interrompido por traumas, a importância da narrativa novamente entra em vigor, como uma tentativa individual de reconfigurar um sentido de ordem, de significado e identidade coerente” (p. 528). As pessoas procuram dar uma estrutrura à sua experiência, precisam que os eventos façam sentido, e fazem isso através da narrativa. Por esse motivo, Sarbin (1986) entende a narrativa como o princípio organizador da ação humana: “os seres humanos pensam, percebem, imaginam e fazem escolhas morais de acordo com estruturas narrativas” (p. 8).

Como modo de pensamento oposto ao raciocínio lógico ou “paradigmático”, a interpretação narrativa envolve uma canonicidade implícita (BRUNER, 1990, 2001). O que é canônico, comum e aceito culturalmente é autoexplicativo. Somente quando há uma ruptura das expectativas canônicas, um afastamento do padrão, é que surge a necessidade de narrar. As narrativas são criadas e negociadas culturalmente para explicar o que fica sem sentido quando crenças são violadas, cumprindo, assim, um papel na organização da experiência. Quando algum evento disruptivo ou evento traumático quebra o sentido canônico, essa lógica dos eventos da vida, tentamos reconstruí-lo através do uso de narrativas. Tais eventos são circunstâncias excepcionais ou inesperadas que podem significativamente desestabilizar nossa percepção de quem somos e do mundo em que vivemos. Podem referir-se a problemas pessoais, familiares, financeiros ou de saúde que se desviem de uma rotina esperada.

A construção de narrativas faz com que esses eventos sejam incorporados à história de vida da pessoa como um todo, fazendo com que esta se apresente como um enredo coerente e não histórias separadas. Murray (2008) sinaliza também que esta necessidade de reestabelecer a ordem é característica da cultura ocidental, marcada pela ordem e racionalidade. Nesse sentido, Becker (1999) afirma que cada cultura particular tem um modelo próprio do que seria um curso de vida normal. Portanto, o estudo de narrativas pessoais fala também de estratégias culturais de enfrentamento. A autora

estuda, sob uma perspectiva antropológica, a forma como pessoas criam sentido depois de eventos caóticos, e afirma que as narrativas são performáticas, dão poder, representam ação e agência.

Becker (1999) traz o conceito de rompimento (disruption), que diz respeito a um período de limbo e reorganização de vida onde o sujeito tenta manter a continuidade de sua vida através da interpretação dos eventos disruptivos, para que estes sejam entendidos como parte de um todo. Tais eventos referem-se à súbita ocorrência de uma situação inesperada que coloque em xeque a visão que a pessoa tem de si e a coerência de sua história de vida, como por exemplo, a demissão de um emprego onde se trabalhou durante anos, a morte de alguém bastante próximo, a descoberta de uma doença grave, a impossibilidade de realizar uma atividade que marca a identidade do indivíduo, como a tetraplegia para um jogador de futebol ou bailarina.

Os eventos traumáticos quebram a linearidade, a coerência e o enredo esperado para uma vida “normal”. Estas experiências que não estão de acordo com o que é canônico, não são integradas à trama narrativa do sujeito. O indivíduo não consegue atribuir sentido à experiência traumática porque esta não cabe na história já formada sobre si mesmo, não é coerente com a narrativa que o sujeito já construiu. Um estado psicopatológico ocorre quando o indivíduo não consegue se desvencilhar destes “protótipos narrativos” (GONÇALVES, 1998) rígidos e invariantes para dar lugar a novas narrativas mais fluidas, que tenham espaço para uma maior pluralidade de significados e abarquem uma multiplicidade de aspectos do self. A identidade deve ser uma estrutura unificada e integrada, que apesar de experiências contraditórias, permanece uma unidade. As diferenças são, então, integradas através da narrativa, que por sua capacidade de gerar novos sentidos, permite que o evento traumático seja costurado ao enredo da vida (STRAUB, 2009).

Calligaris (2008) acredita que “o caráter traumático de um acontecimento não depende de alguma qualidade específica da experiência vivida, mas é um efeito de como, mais tarde, essa experiência pode ou não integrar uma história que faça sentido para o sujeito” (p. 137). Portanto, para evitar que um evento seja significado como traumático, ou para que o trauma seja superado, é necessária a construção de uma nova narrativa, integrando os elementos do inesperado evento disruptivo na história de vida como um todo. O evento traumático, a princípio, quebra as expectativas da pessoa sobre sua vida, podendo gerar falta de sentido e paralização frente às novas circunstâncias. É preciso reescrever sua história, dando a ela novos contornos.

Segundo Crossley (2000), a reconfiguração narrativa consiste em um processo pelo qual o individuo se esforça para reestabelecer certo grau de segurança ontológica e um novo senso de sentido, ordem e conexão com sua vida após a ocorrência de tais eventos traumáticos. A autora estudou as narrativas de pessoas com doenças crônicas, e mostra que esses eventos são percebidos como transformando completamente a pessoa, que precisa, então, compor outras formas de contar a história que não estavam em foco anteriormente, para assim manter seu senso de coerência, unidade, sentido e identidade (CROSSLEY, 2000). A autora, teórica da Psicologia Narrativa, assim como Sarbin (1986), acredita que a vida humana tem em si uma estrutura narrativa. A necessidade de se construir narrativas para fazer inteligível a realidade, principalmente após a ocorrência de um evento traumático, nos remete à importância da terapia:

Em geral, o objetivo da terapia é, por meio da cooperação, criar novas possibilidades de autodeterminação e recuperar ou expandir as antigas. Narrar focalizando a questão da identidade pode e deveria, portanto, ser útil para estabilizar e expandir o potencial subjetivo para a ação, particularmente, mas não exclusivamente, em contextos psicoterápicos (STRAUB, 2009, p.83 e 84).

Para Pennebaker (1999), a psicoterapia refere-se a um processo onde histórias são organizadas de forma a explicar eventos causadores de sofrimento. O ato de construir histórias é um processo humano natural que ajuda o indivíduo a entender suas experiências e a ele mesmo, através da integração de pensamentos e emoções. Este processo daria ao indivíduo um senso de controle e entendimento sobre sua vida. Construir histórias facilita um senso de resolução que afasta pensamentos negativos que, sem fechamento (Gestalt), continuariam rondando a consciência do indivíduo. Uma das hipóteses de Pennebaker é que dar coerência narrativa a um evento traumático funcionaria “completando uma tarefa”, tirando o foco do que ainda parece “pendente”. Quando um sentido é dado a um evento, ele é mais facilmente esquecido.

Gergen e Gergen (2010) apontam, ainda, que a ideia de que as histórias são o meio pelo qual as pessoas tornam o mundo e a si mesmas inteligíveis é central para muitas perspectivas. A narrativa torna os eventos coerentes e interdependentes, dando sentido a acontecimentos que permaneceriam fragmentados e sem sentido se não fossem ligados por uma estrutura narrativa. Esta canonicidade implícita da narrativa e sua capacidade de organizar a experiência, assim como a capacidade narrativa de construir

significado e seu papel na construção da individualidade, já explicitados anteriormente, nos levam a pensar sobre a relação entre narrativa e transformação na psicoterapia.

Neste capítulo, apontamos de onde partimos e quais são as ideias que norteiam esta pesquisa. Apresentamos o início da mudança paradigmática que lançou a linguagem como constitutiva do mundo e possibilitou que a narrativa fosse vista como o “princípio organizador da ação humana” (SARBIN, 1986). Este giro narrativo logo influenciou as práticas psicoterápicas, tendo uma especial relevância ao se tratar de pessoas que vivenciaram experiências traumáticas, já que mais que em qualquer outro caso, o trauma quebra a linearidade narrativa, que precisa ser restaurada para que a pessoa siga em frente com sua vida. Após a apresentação do embasamento teórico que justifica a utilidade de se levar os estudos narrativos para a clínica, apresentaremos, a seguir, o método utilizado para, a partir das ideias já explicitadas, explorar o objetivo geral da pesquisa, que consiste em: construir conhecimento acerca da função das narrativas na transformação da pessoa em terapia, investigando como o ato de contar histórias pode ser terapêutico para pessoas que vivenciaram eventos traumáticos.

3 MÉTODO