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Fase 3: Den eldste middelalderske aktiviteten: ca. 1050–1150

6.2.2 Trebrolegging SA6952

da alta nobreza preferia, mas que a recusa de Castela inviabilizara recla- mando-a como sua, a conquista e, sobretudo, a manutenção de Ceuta depressa puseram a nu algumas deficiências estruturais do Reino, que have- riam de ser responsáveis, em última análise, pela ocupação territorial restrita que marcou todo o processo expansionista português em Marrocos ao longo do período em estudo. Com efeito, a falta de meios materiais e, sobretudo, humanos que alguns haviam invocado logo após a conquista da

cidade como argumento para a abandonar7, e que resultara não só da crise

económica e financeira que se fez sentir ao longo dos últimos anos do reinado de D. João I, mas também da confusa situação política vivida em Castela que provocava alguns receios de ruptura das pazes, cedo inviabilizou o projecto de conquista territorial preconizado para Marrocos, confirmado pelo anúncio feito por D. João I à guarnição de Ceuta, em 1415, de que voltaria no ano seguinte para então proceder à conquista do reino merínida8.

Estes factores, que desde muito cedo condicionaram de forma significa- tiva o aprofundar da política intervencionista portuguesa em Marrocos, viriam a ser agravados com o desastre de Tânger e o consequente aprisiona- mento de D. Fernando, em 1437, acontecimento que, se por um lado serviu para acentuar a noção da incapacidade portuguesa de construção de um império continental em Marrocos, por outro, acabou por fazer com que a Coroa, por acção do Regente D. Pedro, tivesse passado então a «patrocinar preferencialmente a expansão comercial e a colonização dos espaços vazios,

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6 Idem, Ibidem, cap. VI, 22.

7 Os seus defensores alertavam ainda o monarca para o perigo do rompimento das pazes com Castela, onde o partido favorável à ruptura com Portugal começava a deter um maior protagonismo político, o que a acontecer obrigaria a uma incorporação maciça de todos os seus efectivos militares, daí decorrendo, naturalmente, a obrigatoriedade de abandonar a praça por falta de efectivos que a defendessem. Cf. ZURARA, Crónica da Tomada de Ceuta…, cit., cap. LRVIII, p. 260.

8 Cf. Gomes Eanes de ZURARA, Crónica do Conde Dom Pedro de Menezes, publ. por José Adriano de Freitas CARVALHO, Porto, Comissão Organizadora do Congresso Internacional Bartolomeu Dias, 1988, Livro I, cap. IX, pp. 240 e 241.

e a dominar as redes marítimas, partilhando dos seus proventos pelo viés

das alfândegas e dos monopólios realengos»9. Desse novo enquadramento

político resultou que se tivesse começado a delinear uma estratégia político- -militar que se foi firmando com o correr dos anos, e que consistiu em conquistar as principais praças-fortes ao longo do litoral norte de Marrocos, por forma a controlar mais eficazmente a navegação do Estreito de Gibraltar

e a atenuar os efeitos do corso muçulmano10, deixando para mais tarde a

ideia inicial de conquista do reino de Fez.

Em virtude das condicionantes que acabamos de apontar Ceuta man- teve-se até à conquista de Alcácer-Ceguer, em 1458, como um espinho cra- vado na imensidão dos domínios muçulmanos, funcionando desde o início, sobretudo, como base militar para o controlo da navegação da zona, aí esta- cionando uma pequena força naval, criada por D. João I logo após a sua

conquista11. Constituída inicialmente por duas galés, capitaneadas pelo

irmão do almirante Lançarote Peçanha, logo D. Pedro de Menezes se apres- sou a dotá-la de vários outros navios, sobretudo fustas, caravelas, barcas e barinéis, sendo que uns foram construídos localmente e outros resultaram

dos sucessivos apresamentos verificados ao longo dos anos12, iniciando-se,

assim, um processo que, no essencial, se repetiu nas outras fortalezas, onde as forças navais assumiram um papel decisivo na sua defesa.

Por outro lado, importa referir que é um traço comum à generalidade das praças a presença de um número significativo de navios de particulares, muitos deles pertencentes aos capitães das fortalezas, que, em conjunto com os da Coroa, participavam nas diferentes operações militares, quer se tratasse de acções de apoio às praças em caso de cerco quer ainda na luta contra os corsários, ou, e mais importante, quando integravam as peque- nas esquadras que, através de ataques anfíbios fulminantes, salteavam e saqueavam as povoações costeiras, contribuindo para a instalação de um clima de grande instabilidade no seio das populações vizinhas e a conse- quente afirmação do poderio militar português na região.

A essas frotas estacionadas nas fortalezas estava igualmente cometido um papel importante enquanto elemento de transporte das tropas de infan- taria, tanto nas operações militares de maior envergadura – basta recordar,

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9 In Luís Filipe dos Reis THOMAZ, A Evolução da Política Expansionista Portuguesa…, cit., p. 99.

10 Sobre o assunto veja-se o trabalho de Maria Augusta Lima Cruz FAGUNDES, «Documen- tos Inéditos para a História dos Portugueses em Azamor», in Arquivos do Centro Cultural Português, vol. II, Paris, F. C. G., 1970.

11 Essa força era constituída por duas galés capitaneadas por miçe Itam (Miceytom), irmão do almirante miçe Lançarote Paçanha. Cf. ZURARA, Crónica da Tomada de Ceuta…, cit., cap. C, p. 264; e Chronica do Conde D. Pedro de Menezes…, cit., parte I, cap. XXXI, pp. 309 e 310. 12 Várias são as referências que nos surgem de navios construídos localmente e bem assim de inúmeros apresamentos verificados logo nos primeiros anos. Idem, Ibidem, parte I, caps. XXI, XXII,XXIIIeXLV; parte II, cap. LV.

por exemplo, o primeiro assédio à praça de Tânger, em que uma parte signi- ficativa do exército foi transportado de Ceuta por mar –, como nas entradas em território mouro, sobretudo nas praticadas a distância considerável, em que para poupar as tropas apeadas, e para que o ataque se desenrolasse com maior rapidez e eficácia, estas eram deixadas em local próximo do alvo a atacar, recolhendo-se aos navios depois de terminada a operação13.

A acção dessas frotas era complementada pela presença de uma armada que, enviada anualmente do Reino por D. Henrique a partir de 1416, tinha a

sua base em Ceuta14. Destinava-se não só a apoiar os «Lugares d’Além», mas

também a fazer guerra de corso aos navios muçulmanos e a lançar ataques sobre as costas de Granada e da Berberia, numa acção que se revestia de grande importância, quer em termos militares quer económicos, em virtude dos saques e apresamentos efectuados, que muito contribuíam para o finan- ciamento das expedições. Para além do Infante, também D. Pedro possuía ao

seu serviço uma frota de navios corsários a actuar no Mar das Éguas15,

contribuindo para enraizar no seio da nobreza e dos homens de armas e do mar portugueses uma prática que, transferida para o Índico, viria a trans- formar-se durante a primeira década de Quinhentos num dos principais sustentáculos económicos do esforço de guerra português.

Mais tarde, já em pleno século XVI, essa armada anual foi substituída por

uma pequena frota permanente, formada por caravelas, a quem cumpria combater o corso berberesco, particularmente activo a partir das suas bases de Salé, Tetuão, ou Larache, por exemplo, e apoiar as praças portuguesas

cada vez mais pressionadas pelas forças muçulmanas16.