A história dos Buendías está alicerçada na saída de um casal de primos, Úrsula e José Arcadio Buendía, do vilarejo de Rioacha. O motivo do êxodo é que, para defender a honra, José Arcadio mata um jovem, Prudencio Aguilar, e depois passa a ser perseguido pelo fantasma da vítima. A mulher, Úrsula, também é afetada por esse assombramento. O assassínio é o gatilho para uma série de acontecimentos trágicos,353 cujo conjunto irá responder pelo título do romance.
A formação do novo território (Macondo) é o eixo organizador, o ponto referencial de toda a narrativa e está evidente em expressões como: “antes de la fundación”, “culminó con la fundación”, “desde la época de la fundación”, “desde los tiempos de la fundación”.354 Considerando-se a ordem cronológica dos fatos relatados, Cien años de soledad guarda em sua semente a ideia de uma “violência fundadora”,
352 “O bafo de morte pelas ruas era insuportável. Os caminhões do exército não tinham conseguido
recolher os promontórios de corpos nas calçadas e os soldados tinham que enfrentar-se a grupos desesperados para identificar seus mortos. Numa das ruínas do que havia sido o centro comercial, a pestilência era irrespirável, a ponto de muitas famílias se verem obrigadas a desistir de sua busca. [...] Três dias depois, as cinzas ainda exalavam a pestilência dos corpos sem dono, apodrecidos nos
escombros ou empilhados nas calçadas.” (GARCÉA MÁRQUEZ, 2009, p. 292).
353Neste estudo, tomo o conceito de „trágico‟ no sentido daquilo que é da ordem do inescapável, do
inevitável, assim como ilustra Víctor García de la Concha em um dos textos de apresentação da edição
comemorativa pelos 40 anos do principal romance: “En la novela comprobaremos que cada paso que
da cada uno de los miembros de la saga de los Buendía, tratando de salir de sí mismo, lo conduce fatalmente, por destino trágico, a la soledad.” (CONCHA, 2007, lxxi). “No romance comprovaremos que cada passo que dá cada um dos membros da saga dos Buendía tratando de sair de si mesmo o
conduz fatalmente, por destino trágico, à solidão.”
354 “antes da fundação”, “resultou na fundação”, “desde a época da fundação”, “desde os tempos da
173 como é pensado por René Girard no livro A violência e o sagrado, no que diz respeito aos principais eventos relacionados ao processo civilizatório.
O autor francês recorre a temas como o sacrifício, a crise sacrificial, a gênese dos mitos e dos rituais, o incesto, e outros, para explicar essa “violência fundadora” na teoria do sagrado. Segundo ele, em sociedades desguarnecidas de sistema judiciário há uma propensão para que a violência se alastre sem controle, devido ao ciclo interminável da vingança. Por isso os ritos sacrificiais se converteriam numa ação preventiva contra essa força que ameaça dissolver as relações sociais. Em minha dissertação de mestrado esclareço essa proposição de Girard:
A tese girardiana de que a violência seria um componente natural das sociedades humanas a ser exorcizado incessantemente pelo sacrifício de vítimas expiatórias é o ponto de partida para a compreensão do modo como o homem, em sua organização social, tentou/tenta apaziguar a „violência essencial‟, muitas vezes lançando mão da própria violência, enquanto instrumento, só que de uma maneira ritualizada. (FONSECA, 2010, p. 136-137).
Isso pressupõe que, em determinadas circunstâncias, para nos precavermos contra um desregramento total, ou contra uma matança que se acha em vias de se disseminar, recorremos à “vítima sacrificial”, por meio da qual o mal termina por ser expurgado do grupo ou da comunidade.
É relevante notar que para Edgar Morin o homicídio em certo sentido adquire um caráter de rito sacrificial, já que “é a satisfação de um desejo de matar que nada pôde suster. Mas isto é apenas a face negativa. A face positiva é a volúpia, o desprezo, o sadismo, o encarniçamento, o ódio, que traduzem uma libertação anárquica, mas verdadeira, das „pulsações‟ da individualidade em detrimento dos interesses da espécie.” (MORIN, 1970, p. 64). Por essa perspectiva o assassinato, guardadas as diferenças em relação à morte sacrificial, consiste no instrumento regulador de uma violência generalizada.
No romance alguns personagens desempenham essa função de “vítima sacrificial”. Prudencio Aguilar pode ser tomado como o maior exemplo. O antigo companheiro de José Arcadio Buendía nas rinhas de galo355 é aquele que, ao colocar em
355 Ressalte-se que, pela brutalidade envolvida, as brigas de galo podem ser tomadas como um mecanismo
canalizador dessa violência que ameaça a comunidade. Assim como em todo tipo de disputa e luta, a força e a masculinidade dos homens parecem ser postas simbolicamente à prova nessas rinhas. Paradoxalmente, uma das condições para a instauração e a harmonia do novo espaço consagrado
174 xeque a virilidade do outro, irá provocar a violência primordial. Após sair perdedor numa das competições, Prudencio afronta o adversário: “Ŕ Te felicito Ŕ gritó Ŕ. A ver si por fin ese gallo le hace el favor a tu mujer.” (CAS, [s/d], p. 11).356 A ofensa lhe custa a vida: “No tuvo tiempo de defenderse. La lanza de José Arcadio Buendía, arrojada con la fuerza de un toro y con la misma dirección certera con que el primer Aureliano Buendía exterminó a los tigres de la región, le atravesó la garganta.” (CAS, [s/d], p. 11).357
Direta ou indiretamente, tal morte (o assassinato em si) constituirá o ponto de origem da violência, e a causa do problema criado (a assombração levada a cabo pelo morto), o que exige uma resposta (a migração de José Arcadio e a criação de um espaço consagrado).
É preciso lembrar que
[...] para el hombre moderno los muertos no están jamás en su sitio, siguen obsesionando al inconsciente de sus sobrevivientes que tratan de olvidarlos, y el rechazo del diálogo hace a los difuntos más crueles, y sobre todo más presentes.” (THOMAS, 1983, p. 8, grifos do autor).358
Essa citação de Thomas nos faz pensar na forma obcecada com que Prudencio Aguilar assombra José Arcadio e Úrsula:
Lo atormentaba la inmensa desolación con que el muerto lo había mirado desde la lluvia, la honda nostalgia con que añoraba a los vivos, la ansiedad con que registraba la casa buscando agua para mojar su tapón de esparto. “Debe estar sufriendo mucho Ŕ le decía a Úrsula Ŕ. Se ve que está muy solo.” Ella estaba tan conmovida que la próxima vez que vio al muerto destapando las ollas de la hornilla comprendió lo que buscaba, y desde entonces le puso tazones de agua por toda la casa. Una noche en que lo encontró lavándose las heridas en su propio cuarto, José Arcadio Buendía no pudo resistir más. Ŕ Está bien, Prudencio Ŕ le dijo Ŕ. Nos iremos de este pueblo, lo más lejos que podamos, y no regresaremos jamás. Ahora vete tranquilo. (CAS, [s/d], p. 11).359
(Macondo) é, entre outras coisas, a proibição das brigas de galo, atividade que voltará a ser praticada quando a desordem tiver se instalado no povoado.
356“Ŕ Você está de parabéns Ŕ gritou. Ŕ Vamos ver se afinal esse galo resolve o caso da sua mulher”
(CAS, 1996, p. 26).
357“Não teve tempo de defender-se. A lança de José Arcadio Buendía, atirada com a força de um touro e
com a mesma mira certa com que o primeiro Aureliano Buendía exterminou os tigres da região, atravessou-lhe a garganta.” (CAS, 1996, p. 26-27).
358“[...] para o homem moderno os mortos não estão jamais no lugar, seguem obsedando o inconsciente
de seus sobreviventes que tratam de esquecê-los, e a negação do diálogo torna os defuntos mais cruéis,
e sobretudo mais presentes.”
359“Atormentava-o a enorme desolação com que o morto o havia olhado da chuva, a profunda nostalgia
com que se lembrava dos vivos, a ansiedade com que revistava a casa procurando água para molhar a
175 Até por se tratar de um assassinato relacionado a uma questão de honra, a culpa e o remorso recaem não só sobre o autor do crime, mas sobre o casal, que decide ir embora da terra natal por não suportar, na consciência, o peso de um morto: “El asunto fue clasificado como un duelo de honor, pero a ambos [marido y mujer] les quedó un malestar en la conciencia.” (CAS, [s/d], p. 11).360 Após buscar José Arcadio nos “abigarrados mapas de la muerte”, Prudencio Aguilar termina perdoando o maior inimigo:
Era Prudencio Aguilar. Cuando por fin lo identificó, asombrado de que también envejecieran los muertos, José Arcadio Buendía se sintió sacudido por la nostalgia. “Prudencio ŔexclamóŔ, ¡cómo has venido a parar tan lejos!” Después de muchos años de muerte, era tan intensa la añoranza de los vivos, tan apremiante la necesidad de compañía, tan aterradora la proximidad de la otra muerte que existía dentro de la muerte, que Prudencio Aguilar había terminado por querer al peor de sus enemigos. (CAS, [s/d], p. 34).361
Curiosamente o próprio Prudencio Aguilar será aquele que fornecerá conforto e cuidados à já perturbada alma do decrépito e solitário José Arcadio Buendía:
Pero en realidad, la única persona con quien él podía tener contacto desde hacía mucho tiempo, era Prudencio Aguilar. Ya casi pulverizado por la profunda decrepitud de la muerte, Prudencio Aguilar iba dos veces al día a conversar con él. Hablaban de gallos. Se prometían establecer un criadero de animales magníficos, no tanto por disfrutar de unas victorias que entonces no les harían falta, sino por tener algo con qué distraerse en los tediosos domingos de la muerte. Era Prudencio Aguilar quien lo limpiaba, le daba de comer y le llevaba noticias espléndidas de un desconocido que se llamaba Aureliano y que era coronel en la guerra. (CAS, [s/d], p. 59).362
estava tão comovida que, na vez seguinte que viu o morto destampando as panelas do fogão, entendeu o que procurava, e desde então colocou para ele bacias de água por toda casa. Numa noite em que o encontrou lavando as feridas no seu próprio quarto, José Arcadio Buendía não pôde aguentar mais. Ŕ Está bem, Prudencio. Ŕ disse-lhe. Ŕ Nós vamos embora deste povoado para o mais longe possível e
não voltaremos nunca mais. Agora vá sossegado.” (CAS, 1996, p. 27-28).
360 “O caso foi classificado como um duelo de honra, mas em ambos [marido e mulher] ficou uma
dorzinha de consciência.” (CAS, 1996, p. 27).
361“disparatados mapas da morte”; “Era Prudencio Aguilar. Quando por fim o identificou, assombrado de
que também os mortos envelhecessem, José Arcadio Buendía sentiu-se abalado pela nostalgia.
„Prudencio‟, disse, „como é que você veio aqui tão longe!‟ Após muitos anos de morte, era tão imensa
a saudade dos vivos, tão premente a necessidade de companhia, tão aterradora a proximidade da outra morte que existia dentro da morte, que Prudêncio Aguilar tinha acabado por amar o pior dos seus
inimigos.” (CAS, 1996, p. 78-79).
362“Mas na realidade, a única pessoa com quem ele podia ter contato, há muito tempo já, era Prudencio
Aguilar. Já quase pulverizado pela profunda decrepitude da morte, Prudencio Aguilar vinha duas vezes por dia conversar com ele. Falavam de galos. Prometiam fazer uma criação de animais magníficos, não tanto para desfrutar umas vitórias que no momento já não lhes fariam falta, mas para ter alguma coisa com que se distrair nos tediosos domingos da morte. Era Prudencio Aguilar quem o limpava, quem lhe dava de comer e quem lhe levava notícias esplêndidas de um desconhecido que se
176 Fica evidente que o morto no fim das contas foi quem possibilitou certa reconciliação de José Arcadio com a paz interior. O fantasma foi até mesmo o responsável por fazer com que o patriarca dos Buendías finalmente cruzasse o limiar que separa a vida da morte. “[...] Prudencio Aguilar le tocó el hombro en un cuarto intermedio, y él se quedó allí para siempre, creyendo que era el cuarto real.” (CAS, [s/d], p. 59).363
Essa passagem do livro também pode ser interpretada seguindo o percurso assinalado em “Los muertos que no mueren en Pedro Páramo y en Cien años de soledad”. Ao tomar como ponto de partida o motivo expiatório na literatura latino- americana, Stefano Brugnolo e Laura Luche defendem que as duas obras são marcadas pela presença de mortos-vivos e vivos-mortos que representam “una situación de suspensión entre una vida y una muerte entendidas metafóricamente, es decir, entre un pasado que no pasa y un futuro que aún no adviene, entre tradición y modernidad.” (BRUGNOLO; LUCHE, 2010, p. 125).364 Desse modo, transitando entre duas condições, os personagens não concluem a trajetória. Ora vivem como fantasmas inconsoláveis (como Prudencio Aguilar e o próprio José Arcadio), ora procedem como se já estivessem mortos em vida, como Amaranta e Fernanda del Carpio.
Amaranta é aquela que doentiamente não consegue deixar de desejar a morte da irmã adotiva, Rebeca. Já Fernanda, com toda a criação austera e fúnebre que teve, transporta para a habitação dos Buendías a carregada atmosfera da casa de nascença.
Poco a poco, el esplendor funerario de la antigua y helada mansión se fue trasladando a la luminosa casa de los Buendía. Ŕ Ya nos han mandado todo el cementerio familiar Ŕ comentó Aureliano Segundo en cierta ocasión Ŕ. Sólo faltan los sauces y las losas sepulcrales. (CAS, [s/d], p. 89).365
Obsessões e repetições que levam a um estado de evasão da realidade são dois lados de um mesmo aspecto recorrente no livro Cien años de soledad. Isso é perceptível no hábito de o coronel Aureliano Buendía fazer e derreter peixinhos de ouro, ou no de Amaranta em pregar e despregar botões, ou na constância com que Úrsula
363“[...] Prudencio Aguilar tocou-lhe o ombro num quarto intermediário, e ele ficou ali para sempre,
pensando que era o quarto real.” (CAS, 1996, p. 137-138).
364“uma situação de suspensão entre uma vida e uma morte entendidas metaforicamente, isto é, entre um
passado que não passa e um futuro que ainda não advém, entre tradição e modernidade.”
365“Pouco a pouco, o esplendor funerário da antiga e gelada mansão se foi transladando para a luminosa
casa dos Buendía. „Já nos mandaram todo o cemitério familiar‟, comentou Aureliano Segundo em
177 remói lembranças da família e manda executar reformas arquitetônicas na casa dos Buendías. Os peixes de ouro do coronel Aureliano Buendía (vistos de lado) não deixam de remeter ao símbolo do infinito (a lemniscata Ŕ ∞), sugerindo, desse modo, morte e ressurreição, configuradas no ato de fundir, moldar e tornar a liquefazer pelo calor o ouro, para novamente modelar peixes. Nesse sentido a persistente ourivesaria é a metáfora para o interminável ciclo de vida, morte e renascimento. Com a prática aurífice, forma-se uma “circularidad infeliz” que indica “la sensación de fracaso con respecto al tiempo histórico lineal de la modernidad” (BRUGNOLO; LUCHE, 2010, p. 143).366 Como explicam os autores:
Tanto más infeliz es la circularidad que caracteriza el tiempo purgatorial de la novela en cuanto ésta refleja el perverso actuar de los Buendía, la ley general de la familia que es el origen de su fracaso, o sea ese construir continuamente para destruir que marca a todas las generaciones. (BRUGNOLO; LUCHE, 2010, p. 143).367
Observe-se que, a despeito de espelhar o movimento cíclico dos anos (como aliás era a concepção do tempo durante a Antiguidade greco-latina), Cien anos de soledad carrega o tempo progressivo da história. Mario Vargas Llosa, em texto que compõe a edição comemorativa da Real Academia Espanhola de Cien años de Soledad, defende que o livro do escritor colombiano contém, entre vários aspectos, um caráter de crônica histórica e social:
Como la familia Buendía sintetiza y refleja a Macondo, Macondo sintetiza y refleja (al tiempo que niega) a la realidad real: su historia condensa la historia humana, los estadios por los que atraviesa corresponden, en sus grandes lineamientos, a los de cualquier sociedad, y en sus detalles, a los de cualquier sociedad subdesarrollada, aunque más específicamente a las latinoamericanas.” (VARGAS LLOSA, 2007, p. xxx).368
Deslindar esse novelo que envolve amores, ódios, perdas, homicídios, morticínios, alegrias e tristezas requer tomar Cien años de soledad como uma
366 “circularidade infeliz”; “a sensação de fracasso com relação ao tempo histórico linear da
modernidade”.
367 “Tanto mais infeliz é a circularidade que caracteriza o tempo de purgação da novela, quanto esta
reflete o perverso atuar dos Buendía, a lei geral da família que é a origem de seu fracasso, ou seja,
esse construir continuamente para destruir que marca todas as gerações.”
368“Como a família Buendía sintetiza e reflete Macondo, Macondo sintetiza e reflete (ao mesmo tempo
em que nega) a realidade real: sua história condensa a história humana, os estágios por que atravessa correspondem, em seus grandes lineamentos, aos de qualquer sociedade, e, em seus detalhes, a qualquer sociedade subdesenvolvida, ainda mais especificamente às latino-americanas.”
178 verdadeira epopeia que retrata muito mais que a vida, mas sobretudo gerações e gerações de morte.