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Ao transitar no circuito de jovens participantes da CUFA Lagamar, da ZEIS do Lagamar e da Associação Comunitária do Lagamar foi possível perceber algumas tendências e limitações que permearam de sentidos o distanciamento percebido entre essas organizações locais. O distanciamento, não somente de comunicação entre as entidades, se manifestou de forma materializada no espaço.

Como vimos no Capítulo 2, o canal que caracteriza o mapa do Lagamar é componente vivo na história do lugar em razão das memórias de ocupações, remoções, alagamentos e tantos outros acontecimentos recorrentes nas narrativas de antigos moradores.

Adentrando o Lagamar, visitantes “de fora” poderiam supor que a travessia do canal significa um risco se levados em conta, além das tábuas quebradas, as bicicletas e principalmente as motos de entregadores (como os que transportam

botijões de gás) que quando passam, geralmente sem diminuir a velocidade, obrigam os pedestres a encostar nas correntes para dar passagem às bicicletas e motocicletas carregadas, as vezes com dois botijões, tomando quase todo o espaço da ponte. Apesar de perigosa por conta da estrutura já deteriorada da ponte de madeira, a passagem de motoqueiros é corriqueira, muitos fazem a travessia para diminuir a rota e fugir do transito, mesmo correndo risco de assaltos.

Pessoas “de fora” não são aconselhadas a fazer a travessia sozinhas. Em todas as vezes que fiz a travessia durante o período desta pesquisa, a fiz acompanhada por recomendação dos próprios jovens, os quais se ofereciam para me buscar no ponto do ônibus. Em uma das vezes que fui fazer uma visita à CUFA, em razão de um imprevisto com o estagiário da Fundação Marcos de Bruin que costumava me acompanhar, fiquei esperando o Rozinaldo (da CUFA) na Fundação, que fica na margem oposta. Na ocasião pensei em ir sozinha, mas esse era um daqueles dias em que as viaturas da Polícia estavam circulando muito pela rua do canal e fiquei receosa, além disso alguns funcionários da Fundação me aconselharam a ligar para a CUFA e pedir que alguém fosse me buscar. Assim o fiz. No fim desse mesmo dia comentei a situação com o Del e ele disse “você num é doida”, querendo dizer que eu tinha feito bem em não ir sozinha.

Os riscos da travessia para alguém como eu acontecia por não ser moradora, por não ser um rosto muito familiar em todos os lugares, e por essa razão estar sujeita a algum tipo de violência como os assaltos. Para o jovem morador local o risco em fazer a travessia estava por ser associado a conhecidos, familiares ou vizinhos envolvidos em rixas locais.

Para muitos jovens do lugar, a travessia do canal representa mais do que alguns metros de caminhada sobre as precárias pontes de madeira com tábuas quebradas.No cotidiano, alguns impedimentos da travessia parecem ter sido naturalizados. Projetos sociais voltados para jovens desenvolvidos em instituições de uma margem do canal nem chegam a divulgar suas atividades do “outro lado” com a justificativa de que o “pessoal de lá não passa pra cá”. Até mesmo projetos governamentais como Adolescente Cidadão e Projovem Adolescente possuem a prática de ofertar duas turmas na região do Lagamar, uma em cada margem do canal. Observa-se, portanto, uma institucionalização dos territórios inimigos. Como bem afirma Geertz, para que as idéias produzam efeitos sociais poderosos

“alguém deve reverenciá-las, celebrá-las, impô-las. Elas têm que ser institucionalizadas para poderem ter não apenas uma existência intelectual na sociedade, mas também, por assim dizer, uma existência material” (GEERTZ, 2008, p.137)

O entendimento das limitações dos jovens em transitar pelo lugar é generalizado, compreendido como constitutivo da realidade social local. No período da pesquisa monográfica em 2007, o reconhecimento de diversos territórios do Lagamar – Favelinha, Barreirinha, Peste e Piloto – parecia delimitar os conflitos existentes entre os jovens “marcados”.

“Os conflitos se evidenciam na impossibilidade de trânsito de jovens em território 'inimigo'. Vários fatores, porém, podem fazer do jovem um 'inimigo‟. Os conflitos atuais, que justificam a impossibilidade da passagem das fronteiras entre esses territórios, são resultados de um acúmulo de antigos conflitos, os quais teriam deixado na memória mortes a serem vingadas.” (AVELAR, 2007, p.39)

Na volta ao campo em 2011, apesar de não ter como foco os conflitos entre os jovens dos diversos territórios reconhecidos, procurei perceber as possíveis mudanças, mas logo identifiquei que a atuação do trabalho social continuava de certa forma limitada pelos territórios da violência.

Algumas afirmações sobre as disputas entre Barreirinha e Favelinha, por exemplo, como “coisa de antigamente”, não me pareciam coerentes com as afirmações de que “nem todo mundo passa pra lá”, por isso passei a questionar alguns jovens sobre a permanência das rixas entre jovens de territórios opostos. As mudanças das manifestações das rixas surgiram em algumas narrativas como expressões do agravamento da violência, como na fala a seguir:

Antigamente tinha muito os negócio de gangue, o pessoal do lado de lá do Lagamar com o lado de cá, e quase todo dia também ficavam trocando tiro. Era 50, 60 tiros em um minuto, o pessoal trocando tiro de lá pra cá, só que as vezes nem matava muita gente, mata uns dois. Era mais parte de gangue, de tiro, pra se amostrar, isso e aquilo outro, facada, muita gente de enxame. E hoje, hoje não, o cara sai daqui da casa dele, vai la no final da Aerolândia e mata, aí o cara que ta lá vem aqui, entra lá e mata um, dois, três e assim vai. Por isso que falam que hoje ta mais perigoso. Ta mesmo, antigamente era mais o enxame. Hoje eles tão matando, invade sua casa, pronto e acabou-se, esse que é o conhecido Lagamar. (Adriano, 20 anos)

Em conversas informais coloquei as rixas em questão algumas vezes. Diante do meu questionamento, Manoel afirmou que “tem morte que é por conta do

tráfico72, mas tem muita morte de rixa antiga” e Narcélio depois de afirmar certa vez

que “acalmou as rixas entre os dois lados” disse: “tem muita gente que ainda não passa, a gente, eu e Rozinaldo, por exemplo, nós não temos esse problema, a gente anda em todo canto aqui”.

Portanto, foi possível observar que a travessia continua a ser elemento de risco e de provocação de conflitos, por isso ela é evitada mesmo por aqueles que não possuem ligação direta com as ameaças e ciclos de mortes. Interessante ressaltar que educadores e jovens reconhecidos como “lideranças”, atuantes no social possuem credenciais para fazer a travessia sem causar problemas. Pessoas como Narcélio, Rozinaldo, Del, Manoel, Vinicius, Neidinha, Jaqueline, possuem transito livre nas duas margens da ponte, são rostos conhecidos dos dois lados e em breves caminhadas em qualquer uma das duas margens passam cumprimentando as pessoas que os conhecem pelo nome, perguntam pelos projetos e pedem informações e orientações sobre problemas pessoais.

5.1.1Desafiando as “marcas”

A existência de territórios inimigos no Lagamar é reconhecida de tal forma que se apresenta diante de muitos moradores como uma imposição. Marcas da violência nas trajetórias de vida delineiam os espaços demarcados. Adriano, integrante da Associação, chegou a afirmar suas restrições em transitar na região do Piloto, nas proximidades da Associação:

“eu sou amigo de todo mundo, só que agora eu já não tenho muita relação como antigamente. A gente sempre ia pra pizzaria, ia comer o pastelzinho lá no Piloto, mas tá muito perigoso. Tô evitando de andar né, (...)Pra evitar justamente andar por aqui [nas proximidades do piloto]. Eu não queria isso não, mas infelizmente eu não vou arriscar, que eu conheço todo mundo daqui todo mundo dali, mas vai que eu sou confundido, que nem um amigo meu que foi confundido, não mexia nem com uma mosca, foi passando de bicicleta e levou três tiros no pulmão e morreu confundido com outra pessoa, ai a

72A influência dos traficantes nos ciclos de vingança, reconhecimento de territórios e rixas locais se mostrou nessa segunda experiência de campo como um elemento mais evidente. Além das cobranças por dívidas e disputas entre as bocas de fumo, alguns traficantes foram mencionados em narrativas como espécies de gerenciadores da violência local. Em uma das vezes que fui a campo de carro perguntei como estavam os assaltos e um dos jovens comentou: “essa curva que tu passou agora sempre costuma ter assalto, mas num vai ter mais não, porque fulano foi solto hoje e ele num deixa o pessoal ficar assaltando aí não”, outro jovem que estava presente completou, “O fulano é traficante, mas é gente boa”.

gente procura , eu e meus amigos de lá procura evitar de estar saindo pra cá” (Adriano, 20 anos)

A noção de perigo e o medo de ser vítima da violência que alimenta os ciclos de vingança locais impeliram Adriano a abdicar de ciclos de amizade e de momentos de lazer na região considerada “de risco”.

O receio e o reconhecimento dos perigos de aventurar-se nas travessias dos territórios proibidos surgiram de forma emblemática em uma narrativa em particular, como veremos a seguir.

Como protagonistas da travessia estão os jovens da turma do Projeto Projovem Adolescente em funcionamento na Associação Comunitária do Lagamar no ano de 2011 até o início de 2012. Grande parte dos jovens dessa turma eram moradores da região do Lagamar conhecida como “Piloto”, que fica nas imediações da Rua do Piloto, a qual por sua vez situa-se próxima à Associação. Segundo eles, por conta das “rixas antigas”, os jovens moradores do “Piloto” são marcados pra morrer pelos jovens do “outro lado”, da “Favelinha”. A Favelinha fica na margem oposta do Canal, do bairro São João do Tauape e na vizinhança dos seus becos fica de um lado a CUFA e do outro um prédio da Prefeitura onde funcionava o antigo Centro Comunitário, que passou a ser chamado de Centro Social Urbano Julio Ventura e hoje abriga o CRAS – Centro de Referencia em Assistência Social da Prefeitura de Fortaleza, o qual coordena o funcionamento do Projeto Projovem Adolescente. Manoel, da Associação, foi por alguns meses educador da turma de 25 jovens do Projovem Adolescente que funcionou na Associação, e dele registrei a seguinte narrativa:

“todo mundo sabe aqui que existem essas divisões de territórios no Lagamar e nós aqui já enfrentamos isso também. Em uma das atividades eu levei os meninos pro outro lado. Fomos quase todo mundo. Atravessamos a ponte morrendo de medo né, mas fomos. Claro que no dia eu conversei com eles, disse pra eles irem mais arrumados, de calça, nada de bermuda ou boné pra não chamar atenção. E a gente foi. Quando eu passei pela Favelinha foram logo chegando perto, perguntando o que é que o pessoal do outro lado tava fazendo lá e eu tentei responder com tranquilidade e disse que era uma atividade do CRAS, que era um pessoal de um projeto. Todo mundo se comportou bem, não falaram nada, só eu falei. Nós passamos e voltamos com tranqüilidade, mas foi muito tenso. Também foi só essa vez”. (Manoel, 29 anos).

A representação empreendida pelo grupo para obter êxito na ariscada travessia envolveu uma série de elementos. A vestimenta “arrumada” utilizada

excepcionalmente naquele dia por eles, o comportamento “com tranquilidade”, para “não chamar atenção”, a orientação de “não falar nada”, tudo constituiu a composição da atuação cênica voltada para evitar o confronto com os moradores da

Favelinha.

Sobre a necessidade dos indivíduos em regular a impressão que os outros formulam sobre ele, Goffman empreende uma análise da “representação”, no sentido teatral do termo, considerando o indivíduo como um “ator” diante das outras pessoas. Para ele “quando o indivíduo se apresenta diante dos outros, seu desempenho tenderá a incorporar e exemplificar os valores oficialmente reconhecidos pela sociedade” (GOFFMAN, 2009, p.41). Para possuir sucesso em seu desempenho, o indivíduo acessa um repertório de sinais e dele é exigida uma “coerência expressiva” (Ibidem, p.58), já que “a impressão de realidade criada por uma representação é uma coisa delicada, frágil, que pode ser quebrada por minúsculos contratempos” (Ibidem, p.58).

A preocupação em evitar um comportamento de confronto na ocasião da travessia acima narrada se baseava no reconhecimento dos riscos de desencadear uma represália sem precedentes pela invasão do “território proibido”. Desta forma o comprometimento de todos, a disciplina e coerência diante da postura adotada com o fim de evitar conflitos, certamente resultou em uma representação convincente, nos termos de Goffman.

O episódio da travessia tornou evidente a forte limitação das ações do trabalho

social diante das imposições da violência e do reconhecimento de territórios

proibidos. Além da limitação territorial em transitar pelos equipamentos e instituições existentes no Lagamar, outras incompatibilidades, no entanto, se mostraram como elementos distanciadores dos três espaços de atuação “social” pesquisados.

Como veremos a seguir, as avaliações feitas pelos interlocutores da pesquisa em relação ao trabalho desenvolvido por eles e pelos “outros” apontou interessantes chaves de compreensão para a razão da inexistência de um trabalho conjunto entre as instituições voltado para os jovens do Lagamar.