A busca por um redimensionamento nos rumos do Ensino de Arte no Brasil passa por uma luta que afeta diretamente a formação dos professores de Arte e pela reivindicação da garantia de que todos aqueles que estejam à frente do componente curricular Arte tenham formação específi ca nesta área do conhecimento. Essa luta não desmerece os educadores que não possuem graduação em Arte, especialmente aqueles que atuam em regiões onde o Estado brasileiro não forma profi ssionais para atuar neste campo do saber, como é o caso do Seridó norteriograndense. Ao contrário disso, é preciso reconhecer a realidade como ela se apresenta e pensar, juntamente com aqueles que já fazem a educação, nas possibilidades de mudanças e avanços do campo. É importante saber o que já é feito, como é feito, para quê é feito e quem faz o Ensino de Arte, para que se possa apreender as boas práticas já existentes na localidade e, por outro lado, poder avançar, seja na direção de garantir a formação específi ca em Arte ou no sentido de bem qualifi car o trabalho que é realizado pelo educador em sala de aula.
83
Para quem ainda não tem formação específi ca, mas que já faz um bom trabalho, e posso assegurar que vi excelentes práticas sendo realizadas no Seridó, o curso de Artes Visuais servirá para dar maior segurança e ampliar ainda mais as possibilidades de atuação desses profi ssionais em suas regências de classe. Além do mais, um curso desta natureza servirá para consolidar o livre debate e depurar a crítica sobre a produção cultural que é engendrada e socializada no contexto local.
A garantia de cursos de atualização constante deve ser assegurada ao profi ssional da Arte, assim como deve ser assegurada aos outros profi ssionais das diversas áreas do conhecimento. Com a garantia desses cursos de aperfeiçoamento é que se consegue a renovação dos conteúdos, atendendo melhor as expectativas dos educadores e dos educandos, além de tornar as metodologias de ensino mais atrativas. O material didático merece cuidado para que seja favorável ao processo de ensino e de aprendizagem, sem desmerecer a avaliação. É importante que a avaliação não seja realizada apenas para melhorar os ranques educacionais, mas funcione como diagnóstico, evidenciando os acertos e, especialmente, as falhas, para poderem ser refl etidas e corrigidas.
Garantir que todos os professores de Arte que atuam nas escolas tenham formação específi ca vai ao encontro da melhoria da qualidade de educação e da valorização dos profi ssionais da educação, como previsto no Art. 2º, do PNE - Lei nº 13.005/2014. A meta quinze (15) desta Lei deixa claro que a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios, em regime de colaboração, devem garantir uma política nacional de formação dos profi ssionais de educação, assegurando que todos os educadores da educação básica possuam formação específi ca de nível superior, obtida em curso de licenciatura na área de conhecimento em que atuam. Penso com Lessard e Tardif (LESSARD & TARDIF, 2008, p. 260) que tudo isso passa por um processo de reestruturação das escolas, que tem como um de seus componentes essenciais o estímulo à formação inicial e continuada, justamente por ser um caminho para a profi ssionalização do ensino.
É mais fácil para o educador atualizado, refl exivo e crítico propor práticas criativas aos educandos na sua atuação docente, pois uma postura de constante busca do educador pode gerar uma profunda consciência profi ssional, o que contribui para adequar as propostas pedagógicas ao desenvolvimento individual do educando. Convêm novamente reconvocar Rosa Iavelberg à discussão, pois a estudiosa acredita que para o educador
em exercício, o aprender com satisfação e orgulho de seu papel de estudante em formação permanente está ligado à consciência que adquire sobre as transformações constantes que ocorrem no conjunto de conhecimentos necessários para seu desempenho profi ssional. Não se trata de um ideário moral, mas ético, de conduta respeitosa, que, ao mesmo tempo, é acompanhada de
84
um sentido de identifi cação e entusiasmo que se experimenta na profi ssão, ao promover a educação de crianças, jovens e adultos. O professor exerce, de fato, sua profi ssão quando pode participar como alguém que permanentemente cresce em sua ação profi ssional e colabora com ela (IAVELBERG, 2003, p. 62).
A experiência com o belo muda com o passar do tempo, assim como muda também a relação de educadores e educandos com os diversos conteúdos da arte e seu ensino. As implicações da dimensão sensível também são interessantes que as abordagens se transformem na escola, sendo revisadas e atualizadas pelo imaginário de cada um. Isso contribui para melhor aguçar os sentidos do apreciador/produtor cultural, de modo que esses possam contemplar com sensibilidade a produção artística contemporânea e a arte de novo gênero como a relacional, a colaborativa, a performática e a intervencional. No entendimento de Rosa Iavelberg o conhecimento vive em constante transformação e a formação do educador também deve seguir essa lógica. Como bem exemplifi ca a pesquisadora:
saímos do desenho clássico – com regras preestabelecidas de beleza, harmonia e proporções, formas ideais – para adentrarmos ao desenho contemporâneo, com suas intenções de estranhamento, que se aprimora no fazer e admite a inclusão do erro ou da aproximação como parte da criação (IAVELBERG, 2003, p. 78).
Os tempos são outros, seja na vida em sociedade ou no contexto escolar e a realidade cotidiana dos educadores nos mostra que não é mais possível aprender e ensinar arte como se fazia no passado. Faz-se necessário “a renovação da educação como espaço público”, defende Nóvoa, afi rmando que este debate não pode ser mais adiado. O mestre português acredita que “as soluções do passado não respondem mais às questões do presente” (NÓVOA, 2013, p. 225).
No entendimento de Maurice Tardif é interessante insistir em determinados pontos para tangenciar as estruturas organizacionais em que os educadores atuam, como o modo de organizar o trabalho, o controle e o planejamento realizado, entre outros pontos. Ele percebe e salienta a importância de considerar aspectos das constantes interações que acontecem cotidianamente “no seio do processo concreto do trabalho, entre o trabalhador, seu produto, seus objetivos, seus recursos, seus saberes e os resultados do trabalho” (TARDIF, 2013, p. 49). A respeito do trabalho e do ensino, veja o que diz Tardif e Lessard:
trabalhar é agir num determinado contexto em função de um objetivo, atuando sobre um material qualquer para transformá- lo através do uso de utensílios e técnicas. No mesmo sentido, ensinar é agir na classe e na escola em função da aprendizagem e da socialização dos alunos, atuando sobre sua capacidade de aprender, para educá-los e instruí-los com a ajuda de programas, métodos, livros, exercícios, normas, etc. (TARDIF & LESSARD, 2013, p. 49).
85
A estudiosa Rosa Iavelberg vai além com suas refl exões ao discorrer sobre o ensino da apreciação e produção artística. É ela quem pontua:
ensinar a apreciar trabalhos artísticos requer a compreensão das transformações que ocorrem nas possibilidades de apreciar ao longo do desenvolvimento dos alunos, assim como ensinar a fazer trabalhos artísticos requer o conhecimento sobre a gênese da arte na criança e no jovem (IAVELBERG, 2003, p. 99).
O Ensino de Arte exige novos rumos das práticas pedagógicas e das buscas formativas nesta atualidade, para que se consiga uma melhor base formativa que possa reverberar em propostas de trabalho mais conscientes para o educador e atraentes para os educandos. O momento é de encontro com a Arte, mas também com a política e a ética, tentando conseguir avanços na proposição de boas práticas educativas, que primem pela autonomia crítica e a liberdade imaginativa de todos os envolvidos no processo.