2.5 Oppfølging og tiltak
2.5.1 Traumebevisst omsorg
O sujeito afetado pela Síndrome de Cotard parece repetir de uma maneira esquisita, troncha, o terrível voto de Mefistófeles, personagem da obra Fausto (GOETHE, 1832): “Seria melhor que nada existisse porque tudo que existe é digno de ser destruído”.
Tourgueniev, escritor russo (1818-1883) toma para si a autoria do conceito
niilismo12, no sentido literário, pois acredita tê-lo forjado no seu romance Pais e filhos (1862), enquanto de fato já havia sido utilizado por Santo Agostinho e, mais recentemente, na teologia alemã, como pensamento esvaziado, vazio, do desejo de fazer tabula rasa.
Depois de Novalis, Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger, atualmente o termo
niilismo designa toda atitude de negação, de recusa, de revolta. Por sua vez, no
Rascunho G, em Grand Robert (Freud, 1895 [1969] p. 226), o termo designa, sem mais, toda a espécie de negação das religiões, crenças, valores, autoridades estabelecidas. Indica também o vazio que se perfila no horizonte do homem ocidental depois do declínio do Deus da tradição metafísica-teológica cristã, com todas as certezas que esta comportava e, ainda, a conseqüente e dramática problematização da fé no sentido do existir e no valor do agir.
O surgimento das religiões de todos os matizes do fundamentalismo atual neopentecostal, e tão presente nos discursos dos psicóticos, poderia ser tomado como uma vã tentativa das restaurações dos valores considerados superiores à vida, uma resposta ao vazio decorrente da morte de Deus? Ou ao vazio do “empobrecimento pulsional e o respectivo sofrimento”, que Freud designou no
Rascunho G como “hemorragia da libido”, por onde escoa toda a libido represada.
Este escoamento da libido, no melancólico, que repercute em um eu sem possibilidade de investimento objetal, pode ser lido como um desespero niilista, que se encontra nos delírios das negações, no sentido de que nenhuma experiência o afeta suficientemente. O sentimento de tedium vitae, ou o spleen, do poeta e teórico francês Charles Baudelaire (1821-1867), implica que a vida não acena mais, não engana mais com nenhum divertimento; o sujeito se torna como espectador blasé de uma vida sem surpresa. Entretanto, Baudelaire faz disso uma arte, uma inspiração poética, mas não são todos os melancólicos que fazem o atravessamento da tristeza, da melancolia para a poesia. Aristóteles também insinua esta possibilidade no já mencionado Problema XXX13, embora se saiba que esta não é a regra dos afetados sofrentes, desta ferida.
12 A etimologia da palavra nihil, que é literalmente “nada”, não diz praticamente nada sobre o que seja
niilismo na literatura e mesmo na psicopatologia.
Peter Pál Pelbart, em seu texto Travessias do niilismo (2003)14, afirma que o niilismo é sintoma de decadência e aversão pela existência, por outro e, ao mesmo tempo, é expressão de um aumento de força, condição para um novo começo, até mesmo uma promessa.
O doente afetado pelo delírio das negações apresenta a primeira característica que Pelbart aponta. A segunda fica escotomizada pela impossibilidade de recorrência à função paterna e, como conseqüência, a construção da subjetividade manca, as relações libidinais linguageiras empobrecem. A recorrência às frases monotemáticas e litânicas em todos os relatos clínicos de Jules Cotard e mesmo o que sustenta esta pesquisa confirmam esta idéia.
O niilismo começa com um deslocamento do centro da gravidade da vida – o Simbólico amarrado ao Imaginário e ao Real – em direção a uma outra esfera que não ela mesma.
Nietzsche descreve o niilismo na Modernidade: “Desde Copérnico, o homem parece ter caído em um plano inclinado, ele rola cada vez mais velozmente para longe do centro, para onde? Rumo ao nada? Ao lancinante sentimento de desamparo” (PÉLBART, 2003, p. 3). O mesmo autor pontua que o texto em que tal perplexidade encontra sua formulação poética mais acabada e dramática é o conhecido fragmento de 1882, em que o insensato procura Deus com uma lanterna em plena luz da manhã, para depois anunciar que Deus está morto.
O enfermo de Cotard é um inconformado das leis que Copérnico estabelece o seu sofrimento niilista, o seu delírio de negação é como fizesse a pergunta incessante: “Que fizemos nós ao desatar a terra do seu sol? Para onde ela se move agora? Para onde nos movemos? Caímos para frente, em todas as direções, existem em cima e embaixo? Não vago, mas como que através do nada infinito? O doente de Cotard vive uma experiência nitzschiana no sentido de não ter mais onde agarrar-se porque chegou muito perto do real, como Freud bem lembra em Luto e
melancolia (1915) nada mais parece conduzi-lo ou motivá-lo. Como se reproduzisse
a situação copernicana, que também Freud bem lembre no mesmo texto, nada mais parece conduzi-lo ou motivá-lo.
Reproduz a situação copernicana que também Freud lembra como uma das revoluções que precedem a dele, da descoberta do inconsciente, em que passamos de uma experiência extrema da crença, em que orbitávamos em torno de um centro, de um sol, de uma luz, de uma verdade, para o extremo oposto da descrença, em que erramos sem rumo na escuridão. Já não subsistem as coordenadas do alto e do baixo, do sagrado e do profano, do centro, da periferia, nesta topografia aplainada, sem baliza nem referências; o Cotard vaga à deriva.
O afetado pelo delírio das negações parece criticar toda a interpretação moralista do mundo que vigorou por milênios, que o preencheu da finalidade e sentido e bem por isso se presencia o seu desmoronamento. O Cotard enxerga este desmoronamento com uma poderosa lupa.
O Cotard é um sujeito cansado, quando já não encontra apoio nessas crenças, torna-se niilista em um sentido que Nietzsche denomina de passivo, ou seja, aquele que fica paralisado ao perceber o mundo tal como ele é e não “deveria ser”, e que por isso mesmo não faz sentido agir, sofrer, querer, sentir. Em suma: tudo é em vão. Ele sofre de um niilismo passivo, do grande cansaço, em que predomina a sensação de que “tudo é igual, nada vale a pena” – mesmo que alma não seja pequena.15
Também ilustram este quadro o horror e a existência repetitiva e sem sentido, simbolizada pela horripilante imagem do pastor com a cobra negra pendendo na boca, de Zaratustra, ou ainda, a Melancolia de Durer. São cenas que se aproximam da dor e do horror de Cotard.