O HU não é como aqui que tem quatro paredes34, lá é um oceano em que a
gente ficava andando e esbarrava em alguma coisa que desenvolvia em um atendimento.
Como possibilidade de apresentação do Plantão Psicológico no HU recorre-se a uma comparação com conhecido: as quatro paredes de uma sala que definem um setting, um enquadre para o atendimento psicológico na clínica tradicional aprendida na graduação. Contudo, após a experiência, recorre-se a uma metáfora para o re-conhecido: o oceano, imenso, sem linhas que delimite começo e fim das possibilidades no plantão. Sem contornos que lhe digam quem é, transita “por uma região de fronteira, vê-se lançado ao inesperado de ser cuidador de si. A experiência do plantão é radicalmente pessoal, em grande medida intransferível e dificilmente comunicável” (MORATO, 2009).
O fato de não existir um espaço físico que circunscreva um pedido por atendimento psicológico convoca para um modo diferente de estar disponível para o encontro com o outro e consigo mesmo, um modo que se desvela ao longo da experiência como uma mudança de perspectiva: do atendimento psicológico à atenção psicológica.
Tem coisas que são diferentes lá. Como a coisa da gente ir até o cliente ao invés de ser o contrário, que é a gente ir atrás e às vezes ouvir umas: “Não quero falar”, “Estou com dor de barriga não quero falar com você”, “To esperando meu remédio não quero falar com você”. Levar um “fora” mesmo, igual “xavecar”, você vai mais talvez não seja... Você olha no olho, mas pode ser que foi engano. Aí chegou até a pessoa e tem que perceber que às vezes não é nada ou a pessoa não quer falar, ou só te olhou porque você estava parado ou andando devagar... E aí... Tem que ir embora.
Eu ganhava o troféu paciência de ficar até o fim e tal, e porque é uma coisa outra, outra ideia, bem a coisa do que surgiu ali. Está conversando, tem o que falar, sim, mas acabou. E a coisa de não ter sala também ajuda porque
chegar e ir embora é muito mais fácil do que...
Ter que cumprir os 50 minutos...
Lá não tem, até porque é o ritmo de lá é diferente, a transição é muito maior e de repente nem é a gente que acaba o atendimento é o médico que chama ou leva o paciente para fazer um exame, a enfermeira chama para colher sei lá o que, e a pessoa está ali há 3 horas esperando para isso. Aí acaba. Então tem que estar pronto também para essas quebras.
34 O grupo reflexivo aconteceu em uma das salas da clínica escola do IPUSP, onde normalmente os alunos têm suas primeiras experiências de atendimento clínico.
Em meio ao oceano-hospital, o plantão é cais inventado: lugar de chegada e partida que se realiza pelos contornos do encontro, pelas trocas que ele abriga, pelo tempo que for preciso. Outro espaço e outro tempo para se deslocar implicam também outro modo de abordar e oferecer cuidado e uma atitude por desvelar-se.
“Ter que” permanecer em um atendimento por “cinquenta minutos” diz da reprodução
mecanizada de uma técnica pré-concebida e que na experiência de quem está no plantão no hospital não faz sentido pelo contexto como ocorre. O tempo para acontecer o encontro é revelado pelo próprio encontro, a necessidade de continuar ou não é percebida e decidida por ambos, cliente e plantonista. Desse modo, ao ser abordado, o cliente pode dizer que no momento não quer falar por inúmeros motivos, muitas vezes, tomado pelo incomodo da dor, da doença, a dificuldade de respirar, a sensação de fraqueza, do medo da morte.
Além disso, cabe salientar que a presença do psicólogo, oferecendo-se como possibilidade de cuidado ao paciente ele mesmo, é uma situação inusitada do contexto do hospital geral. A representação tradicional da figura do psicólogo ainda está muito ligada aos atendimentos na clínica privada em psicoterapia, ou à saúde mental pelo estigma da loucura no senso comum, ou ainda à ideia do psicológico/mental como oposição ao corpo físico.
No hospital, a figura do psicólogo pode ainda, ser relacionada à Psicologia Hospitalar que atua pela passagem pelos leitos ou respondendo a pedido por atendimento psicológico que normalmente é feito através de encaminhamento do médico. Caracterizada pela reprodução do modelo de atuação do médico ou do enfermeiro, geralmente limita-se a situações de internação ou permanência mais prolongada de hospitalização.
O plantão é fato inesperado acontecendo pelos diferentes espaços do hospital. Nas primeiras experiências de plantão, emerge como questão a dificuldade em abordar o outro. Na fala do aluno, ela aparece como “levar um fora” quando o cliente diz “Não quero falar”, “Estou com dor de barriga não quero falar com você”, “Tô esperando meu remédio; não quero falar com você”. A sensação é vivida como sendo muito pessoal, sentida por eles intimamente como uma recusa à disponibilidade que o plantonista iniciante experimenta em suas primeiras e corajosas abordagens.
A imagem do “fora” e o “com você” nas referências às possíveis falas de clientes abordados, parecem carregar o peso de algo sentido como direcionado à pessoa do plantonista e não como possível expressão da situação daquele que fala. Assim, chama a atenção para a experiência extremamente íntima na qual se lançam. Parece dizer de uma insegurança no vacilante caminhar de primeiras vezes, ainda preso a uma construção referencial baseada na
existência de um modo correto e adequado de fazer relacionado a padrões e normas. Porém, esta construção não oferece sustentação para o trânsito pela experiência do plantão. Como transitar, então, por tão espinhosos “nãos” e tão pessoal transformação e seguir em busca de cais?