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TRASEALTERNATIV R3 Hovedtrekk og bakgrunn

In document LARVIK SANDEFJORD (sider 78-87)

Virkning og konfliktvurdering

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Segunda Navegação

Tendo chegado à afirmação de que o Bem é a causa essencial de todas as coisas, Sócrates começa por explicar como se lançou em sua busca, visto que não teve a alegria de ter um mestre que lhe instruísse sobre essa “causa e o seu modo de atuação” (λλc)έ χos seus discípulos, diz que optou por uma segunda via, e trata de lhes narrar as diversas tentativas em buscá-la (99d).

Sócrates apresenta uma analogia:

[...] Depois disto, uma vez desiludido da observação dos seres, achei por bem acautelar-me, não viesse a acontecer-me a mim o mesmo que àqueles que contemplam o Sol em momentos de eclipse: é sabido que alguns chegam a perder a vista, se não é através da água ou de qualquer outro meio que observam a sua imagem. (Fédon 99de)

Da mesma forma que aqueles que observam o Sol em momentos de eclipse correm o risco de ficarem cegos, isso se não o fizerem por meio da água ou por outro meio, assim pode acontecer com quem observa as coisas, tentando tocá-las com seus sentidos. Assim, o mestre achou por bem recorrer aos argumentos para através deles inquirir a verdade dos seres. Daí percebemos que a analogia estabelece uma comparação, do Sol com os seres, que não podem ser observados diretamente porque causam um certo “tipo de cegueira” (de espírito)134, e da água

como refletor para observação do Sol, ou um outro meio, com o “refugiar-se nos argumentos” (λλe)έ

Quanto à expressão grega “segunda navegação”, entendida como pedir auxílio aos remos, na ausência dos ventos, significa um certo abandono da observação das realidades sensíveis para recorrer a uma outra via, e essa é o refugiar-se nos argumentos, ou seja, o método dialético, caracterizado como método de perguntas e respostas. Platão aponta no diálogo o abandono da observação das realidades sensíveis para nelas encontrar a causa das coisas, apontando o método de perguntas e respostas como a via mais segura.

Esse abandono, tanto da busca da causa das coisas nas realidades sensíveis, como também da observação dos fatos, se deve a que a sensibilidade não é uma fonte segura para o conhecimento. Entretanto, o Bem não podendo ser investigado de forma direta, conforme foi constatado com a analogia do efeito da observação do Sol de forma direta, este requer um refletor, para que tais efeitos não causem danos, como também necessita de uma metodologia de investigação e essa é a investigação por meio dos argumentos.

134 χ “cegueira do espírito” a que Sὰcrates se refere seria a incapacidade de poder enxergar o ser

Desse modo, findamos o capítulo no qual apresentamos os argumentos que no Fédon Platão levanta ao considerar o corpo um obstáculo para a alma. Os argumentos versam a relação dual sensível/inteligível, cujo cunho principal está em considerar que o sensível não é uma fonte totalmente segura de conhecimento, por ser mutável, sendo somente aquilo que é idêntico a si mesmo, capaz de conferir algum grau de pura confiabilidade. Contudo, mesmo que o corpo, como um sensível, não seja totalmente seguro, dele se tem necessidade, como o próprio Sócrates afirma que “uma coisa é a verdadeira causa e outra aquilo sem o que a causa jamais poderia ser causa” (99a).

CAPÍTULO III

CORPO COMO AUXÍLIO PARA A ALMA

Platão, no Fédon, em meio aos argumentos que apresentam os perigos que são impostos à alma através da sua relação com o corpo, em momentos distintos (74c, 75a, 75b, 75e e 75e-76a, 99a) reconhece que ele é auxílio, sendo por seu intermédio que a alma pode conhecer, mesmo que por vezes lhe ponha obstáculos. Os pontos levantados por Platão que o fazem considerar o corpo como um auxílio para alma são praticamente os mesmos que considera para falar do entrave que por vezes o corpo a impõe, mas mesmo correndo o perigo essa é a maneira dela se efetivar em sua atividade suprema, o pensar. Novamente a aísthesis é o elemento sobre o qual o filósofo se debruça para justificar a funcionalidade do corpo, mas sempre alertando sobre seu caráter de instabilidade. Sem dúvida o filósofo entende que uma vez tendo sido estabelecido o composto, a alma precisa do corpo para estar no mundo e ser causa da vida do homem135.

Se alguém dissesse que sem ossos e músculos e tudo o mais que tenho no corpo eu não seria capaz de pôr em prática nenhuma resolução, só falaria verdade. Uma coisa é a verdadeira causa e outra aquilo sem o que a causa jamais poderia ser causa (99a).

Verificar o papel do corpo para a alma no Fédon não é uma tarefa simples, devido à força dos argumentos que o filósofo utiliza para alertar sobre a errância da

135 A alma é causa da vida do homem tanto porque é o princípio que vivifica o corpo, como também

aísthesis e dos perigos que existem quando, aqueles que se dedicam à filosofia,

empreendem o caminho de comércio com o corpo, como também a exposição dos elementos que reconhecem o corpo como auxílio não são tão explícitos quanto são os que alertam o homem sobre os obstáculos que impõe. Dizemos isso baseados, primeiramente, numa análise filológica: enquanto Platão usa um termo específico para identificar o sentido de desconfiança para com o corpo (empódion/obstáculo) não usa um adjetivo que identifique-o como auxílio, utilizando-se, desse modo, apenas a preposição ek, que significa “por”, “através” e ainda “a partir de”136. Cabe-

nos recordar novamente que é preciso sempre ler o Fédon considerando o fato de que é um discurso feito num contexto de morte137, cujo pano de fundo é provar que a alma, nesse episódio, não perece junto ao corpo, permanecendo incorrupta, por ser imortal. Para isso, Platão empreende um discurso preocupado em elevar a importância da alma, por persistir após a morte e que possui uma efetividade epistêmica, e ao fazer isso põe em xeque a efemeridade do corpo (corruptível) e a sua errância epistêmica, mas sem deixar de reconhecer que enquanto nele está, dele precisa.

É de grande importância considerar que Platão, no Fédon, tem claramente a noção de que há dois momentos distintos da vida, ou duas noções de vida para o homem, um no qual corpo está unido à alma e o outro no qual a alma está sozinha, dele separada. No segundo, a alma terá o contato pleno com o conhecimento, mas no primeiro esse processo só acontece com a mediação do corpo, pois a alma está sob a sua custódia. Mesmo sabendo que vista, ouvido, etc e os dados colhidos pelos

136

“ α ” – “ἢor meio dos sentidos”έ ιηc, tradução nossa.

137 O tema da morte no Fédon exige provas de que nossa alma é imperecível e imortal, para que o

filósofo que esteja no ponto de morrer se encoraje e acredite que depois lhe aguarda um destino cujo conhecimento pleno lhe será garantido. Desse modo, seu ingresso (ou re-ingresso) no corpo acaba sendo visto como uma provação dessa visão privilegiada, que a alma tem quando dele está separada, sendo a morte uma libertação e não um mal.

sentidos possam induzi-la ao erro, é deles que a alma vai precisar para conhecer. Para entendermos como Platão salva o papel do corpo no diálogo, é necessário versarmos sobre o processo de cognição que o filósofo chama de reminiscência. Nosso caminho nesse capítulo será o de analisar os argumentos que no Fédon podem explicar a participação do corpo no processo de cognição. Perpassaremos os argumentos das Formas, da reminiscência e da participação que redimem o papel da sensibilidade, que nos primeiros passos do diálogo, foi considerada um obstáculo ao conhecimento, protagonizado pela alma.

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