Os conteúdos míticos presentes no Culto do Espírito Santo e na Ilha dos Amores, fazem parte, para Agostinho da Silva, do mito do V Império
92, o qual corresponderá à nova idade a viver pela humanidade e que
anteriormente se mencionou. Este é interpretado pelo autor como uma época de reconquista do Paraíso, a qual significará a própria anulação do Paraíso, ao situar-se este doravante na Terra e na pessoa humana: significará a descoberta do divino no mais livre, criativo e imprevisível do humano e que para os Portugueses constituirá anseio último:
“e haverá finalmente no mundo, a não-propriedade, para todos, de qualquer meio de produção ou de transporte. Este é o Paraíso em que pensa e que deseja o povo português e que nós temos obrigação de o ajudar a atingir; se ele é plenamente atingível ou não ignora-o o povo e ignoro-o eu; e não há prova alguma científica de que o seja, como não há prova do contrário; movemo-nos aqui no terreno da Fé” (ob. cit., p. 22).
Lusíadas (Macedo, 1980, p. 15). Por um lado, “a utopia camoniana da Ilha dos Amores representa o triunfal exercício da sexualidade” (ob. cit., p. 21), integrando o “corpo no amor” (ob. cit., p. 41); por outro lado, pretende-se caracterizar a nova era como tempo de síntese “que permitisse reconciliação dos elementos aparentemente contraditórios do homem” (ob. cit., p. 20). Neste contexto e metaforicamente, a viagem inaugural ao Oriente “sugere a função determinante do amor na viagem dos Portugueses para o mundo desconhecido do Oriente”, sendo a realização da própria viagem um prémio amoroso: “e, finalmente, na fusão da mitologia com a História representada na Ilha dos Amores, é a gnose erótica oferecida aos Portugueses como prémio do seu serviço à pátria” (ob. cit., p. 41).
91 “Uniforme, perfeito, em si sustido, / Qual, enfim, o Arquétipo que o criou. / Vendo
Gama este globo, comovido / De espanto e de desejo ali ficou. / Diz-lhe a Deusa: «O transunto, reduzido / Em pequeno volume, aqui te dou / Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas / Por onde vás e irás e o que desejas. // «Vês aqui a grande máquina do Mundo, / Etérea e elemental, que fabricada / Assi foi do Saber, alto e profundo, / Que é sem princípio e meta limitada.” (Camões, Os Lusíadas, Canto X, 1989, pp. 266-7).
92 “É pelo positivo que fizerem que as Igrejas podem contribuir para o triunfo, daquele Império que é do Povo e a que, para o datarem da Bíblia, chamaram Quinto homens de Igreja como Vieira.” (Silva, ob. cit., p. 59).
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Inserindo-se no messianismo humanizado e na dupla qualidade do sonho-realismo, quatro conteúdos principais objectivam a representação dos Portugueses e das suas acções enquanto Portugueses-Futuro: unidade humana, aliança corpo-espírito, ecumenismo, aprendizagem do humano (Quadro 21).
Descoberta da unidade humana
A abertura é atitude fundamental para as acções a empreender pelos Portugueses: “é missão nossa estar abertos ao mundo” (ob. cit., p. 18).
Abrir, rasgar horizontes, revelar novas perspectivas, contribuindo para a expansão do conhecimento humano, são tarefas similares às da época da Aventura Marítima dos Portugueses, mas a orientação a presidir às novas acções deverá ser diferente. Trata-se de mergulhar no espírito da missão antiga para que assim finalmente Portugal se cumpra; fundindo-se ou dissolvendo-se no novo estado de consciência que vai animar o mundo e atrás se referiu.
As viagens marítimas realizaram-se sob o signo da exterioridade, da revelação da unidade física da terra que se veio a objectivar na sua comprovada circularidade; a partir de agora, segundo Agostinho da Silva, deverão os Portugueses inverter a orientação do movimento deslocando-o para o desconhecido da interioridade pessoal e assim descobrirem e revelarem a fundamental unidade humana.
Alimentar o corpo para não morrer o espírito e existir santidade: religião não religiosidade
A espiritualização, essencial à nova descoberta da unidade e interior riqueza do ser humano, situa-se também ela na união do sonho ao realismo. Será preciso o empenhamento activo na satisfação das necessidades humanas, que, sendo reais, são físicas, mentais e espirituais. Significa inverter a perspectiva do Céu após a Terra, do regresso ao Paraíso após a expiação terrestre. É, diríamos, a plena aplicação da filosofia vivida, defendida pelo autor, como se referiu; é a espiritualidade da vida humana religiosa em si mesma se plenamente desabrochada, e não a procura de uma espiritualidade desligada das condições terrenas. Será o sonho interiorizado e activo ou “o domínio do sonho”, e não a cedência ou fuga pelo sonho da religiosidade: “não há religião alguma que possa ser, excepto para raros (...) enquanto o conjunto da humanidade não tiver o
CAPÍTULO 5 - De um século ao outro: dois autores, duas obras 145 suficiente para viver, não puder livremente tomar conhecimento do mundo e não tiver consigo o domínio do sonho” (ob. cit., p. 25).
Ecumenismo não tratados de acomodação entre religiões
A vida, sendo religião em si, comporta a existência de diferentes expressões culturais religiosas, não sendo estas senão um aspecto diferente da mesma actividade unitária do Espírito. Pelos Portugueses do futuro devem ser desencadeadas acções que exprimam essa unidade religiosa da vida, ou “ecumenismo”, e não acções que decorram de formalismos: “Parece disposto o Império português (...) para que demos nós consciência ao mundo de que ecumenismo não consiste no lento negociar de tratados de acomodação entre arqueologias sobreviventes (...) Ecumenismo consiste em ver todas as religiões como os vários aspectos da religião portuguesa, e por Portugal esperemos que humana, da religião do Espírito (...) Religião que não é mais uma entre as outras, mas o aviso de que todas elas são um sinal de Deus” (ob. cit., p. 26).
A conversão individual será a marca fundamental da renovação religiosa a empreender por Portugal – o virar-se cada um para o interior de si próprio para aí encontrar a “sua” própria religião” e dela partir para a aceitação de todas as outras.
Ensinar a ser gente: Portugueses capatazes de humanidade
Educar, enquanto meio para libertar a expressão da criatividade e comunicação própria de cada pessoa, não inviabilizando o projecto que é cada vida humana, é a tarefa mais importante e urgente a realizar para construir o Portugal do futuro: “educar Portugal (...) e educar cada um dos homens que o constituem, pretos, vermelhos, amarelos, é dar os meios de não ser afinal frustrada cada vida que nele nasce e de se fazer que cada uma delas seja, para o resto da humanidade, a luz de entendimento que nenhuma técnica dá, mas que todas elas permitem libertar.” (ob. cit., p. 25). A importância de educar Portugal reside na possibilidade da sua reconstrução, retomando o essencial do projecto interrompido no século XV, reavivando elementos de memória colectiva: “destino algum histórico se pode apontar aos que não tenham noção de suas origens, nada entendam do tempo em que lhes coube existir e não vejam diante de si sorte nenhuma que não seja a de sobreviver (...) ainda que pareça o contrário, pode o povo estar inteiramente à margem da vida económica e da vida cultural da
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nação; as quais, por isso mesmo, só na aparência serão de economia e cultura; ignorância e carências, eis o que haverá.” (ob. cit., p. 39).
Porque educar é tarefa fundamental, os Portugueses devem ser obreiros no desabrochar de um novo modelo de ser humano, ou, como diz Agostinho da Silva, devem ensinar “a ser gente” segundo o amor irrestrito e a liberdade, ou tão só divina liberdade 93:
“Neste tempo em que estamos, outro nome para nós devem tomar a Beleza e o Amor que Deus é, e o nome que devemos fundir numa Trindade agora plenamente vista é o de Liberdade.” (ob. cit., p. 49).
Para esta possibilidade de ser e ensinar a ser gente terão “sobrado” os Portugueses, profecia-funda aspiração do autor que em ardência de conteúdo e estilo afirma:
“o estandarte jaz aí, no chão, e em risco de ser definitivamente despedaçado pelo torpear dos combatentes; tomemo-lo nós e afirmemos a luz, por mais escura que seja a noite; já o fizemos quando navegámos, ainda pequeno Portugal, e trouxemos as bases para as utopias dos pensadores do Renascimento e o surto da ciência moderna (...) Sou destas confianças como lição do passado e destes optimismos com vontade de futuro; sobrámos das catástrofes para sermos o que quisermos quando quisermos: e nada há melhor para ser, depois que acendermos chama em nós, do que espancar com elas as sombras que atemorizam os outros e pelo medo os podem destruir; chegou o tempo de nos prepararmos para as novas viagens, que o soltar das amarras vem aí; e, embora saibamos da eternidade da cruz neste mundo nosso, talvez fosse bom que se substituísse, nas velas que se soltem, pelo liz do Norte dos mapas, do Espírito Santo da Rainha Isabel e da perfeita Trindade” (ob. cit., pp. 77-8).
93 A este novo modelo de humanismo se terá afinal Agostinho da Silva pessoalmente
convertido, fundindo-se em Liberdade e Amor, e assim assumindo a sua fidelidade à cultura portuguesa: “um homem que foi a Liberdade (...) anão foi impunemente que o universitário Agostinho da Silva se interessou pelo mais ‘erótico’ e pouco recomendável, segundo os nosso hipócritas códigos vigentes, autor antigo Catulo. A escrita límpida, o lado de profetismo e misticidade característicos da prosa de Agostinho da Silva, velam um pouco o que não pode deixar de se designar por ‘erótica’ agostiniana” (Lourenço, 1995, pp. 16-18).
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Quadro 21: Portugueses do Futuro e acções
Descoberta da unidade humana
“podemos ser nós os que, tendo realizado a missão de mostrar o mundo inteiro, irão, quando o quisermos, à de mostrar inteiro o homem.” (ob. cit., p. 41).
Alimentar corpo para não morrer espírito e haver santidade
“É religião, portanto, o que Portugal, explicitando-a, tem que dar a si próprio e ao mundo, indo para além de simbolismo e rituais e entendendo que, só cumprindo-se inteiramente o homem, se pode inteiramente cumprir o Espírito; o dever primeiro de quem organiza a nação é o de, para que não morra o espírito, alimentar o corpo; jejuem santamente os santos, mas se forneça, bem nutrido, a Deus o material de que os faz: homens com esperança.” (ob. cit., p. 69)
Vida como religião, ecumenismo português
“O ecumenismo português tem de se afirmar pela igualdade de tratamento teológico e político de todas as religiões que Portugal contém (...) podem todos juntos ensinar a todos, procurando que os outros estejam sempre melhor e sejam sempre melhores e tenham sempre o melhor, o que é a Caridade. Ecumenismo não é contrato, é vida; vida plena e cogulada, como Deus a quer.” (ob. cit., p. 27)
“repete o Espírito que sendo obrigação essencial de cada um converter-se à sua própria religião, numa vontade contínua de aperfeiçoamento seu e dela, nunca será plenamente religioso se não entender cada uma das outras religiões como se sua fosse.” (ob. cit., p. 26)
Portugueses, capatazes da humanidade
“Todos vamos ter que ser professores de todos e cada um dos que sabe um pouco mais ensinará os que sabem um pouco menos” (ob. cit., p. 39).
“não foram [os emigrantes actuais], como deviam, para ensinar a ser gente, para capatazes de humanidade” (ob. cit., p. 28)
“gente de língua portuguesa, e quanto mais carregada a cor maior a possibilidade, é a que, por conduzir pacificamente à vida plena povos dela destituídos, mais pode ser vista como a guia de todos os que procuram construir um mundo novo; urge despertá-la e prepará-la. / Tem de o fazer todo o particular que para tal seja solicitado ou se apresente para onde e quando for útil” (ob. cit., p. 40)
Síntese
Considerado por alguns autores como herdeiro das dimensões messiânicas, utópicas, sensuais e ecuménicas da cultura portuguesa (Quadros, 1992, Lourenço, 1995, Reis, 1997, Real, 1998), Agostinho da Silva expõe na Educação de Portugal um pensamento que abrange
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conteúdos representacionais dos Portugueses e aspectos da sua génese que passamos a resumir.
1. Para Agostinho da Silva as actuais características portuguesas tiveram uma longa sedimentação. Decorrem de um ideário de fraternidade que absorveu o essencial do franciscanismo e que, plenamente assumido pelas classes dirigentes entre os séculos XIII e XV, se constituiu como ideário nacional.
2. Este ideário de fraternidade tem por base a aspiração ao Paraíso mas na Terra e as dificuldades experimentadas no decurso da existência, sendo concretas, tornaram os Portugueses um povo realista, apesar de sonhador, um povo amante da filosofia do vivido.
3. Os acontecimentos históricos e a dimensão simbólica segregaram conteúdos míticos que permitiram a vitalidade da componente sonho- realismo. O culto popular do Espírito Santo, fórmula de uma prática social, política e religiosa a que no passado os Portugueses chegaram, enquadra um modo messiânico de estar na vida que se reforçou com o encontro de outros povos e a descoberta da fundamental unidade humana − fundou [Portugal] uma religião, tornou o mar inteiro − e que deverá prosseguir para “mostrar inteiro o homem”.
4. Os Descobrimentos marítimos, enquanto aventura quimericamente bem sucedida e materializada na Ilha dos Amores, potencializou e continua a impulsionar o aprofundamento da fraternidade humana − projecto futuro (“ensinar a ser gente”) a viver e comunicar ao mundo pelos Portugeses (e demais povos de língua portuguesa) − num tempo que se aproxima prenhe de transformação das estruturas sociais e da relação da pessoa com os outros e consigo mesma − tempo de liberdade, de amor irrestrito e de invenção da vida.
5. A afectividade dos Portugueses em Agostinho da Silva, tendo como fim a aproximação ao divino presente no humano e simbolizado na criança arquetípica (“nas condições actuais vive (...) o resto sobrevive”), toma como principal modelo o Deus-Espírito Santo ou Deus do Amor, caracterizando-se pela criatividade, imprevisibilidade e liberdade, as quais se poderão entender como ideias-força ou themata da identidade na sua representação da identidade portuguesa.
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