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As práticas e rituais de grupo tomam lugar em contextos diferentes. A Devoção da Equipa da MTCDC ocorre todos os dias no gabinete do gestor de projeto, já a Devoção das Crianças realiza-se no recreio das instalações no Centro Mar Thoma da Vila de Jagaddal, nas salas de aula ou mesmo no campo de jogos. Em AV, por exemplo, as classes sobre os ensinamentos de Sri

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Aurobindo ocorriam no pavilhão Savitri Bhavan, cada comunidade adotava práticas muito particulares de comunidade para comunidade. Note-se que aqui comunidade não se refere à totalidade da comunidade de AV, mas aos agregados populacionais e habitacionais que se distribuem por toda a AV, com uma variedade de mais de 100 comunidades. Em Tamera, o local de trabalho, desde as hortas aos gabinetes, era um cenário possível para uma oração ou sintonização antes de iniciar a atividade do dia. Nas diferentes missões dos LD, a oração de grupo ocorre diariamente à mesma hora, normalmente ao fim do dia.

Apesar dos diferentes espaços e formas, há alguma coincidência nas práticas de grupo que se centram na oração e meditação em grupo e em práticas de devoção e estudo. No Centro Mar Thoma, são três os momentos que envolvem a devoção e oração: realizada pela equipa que conduz os PD antes de iniciarem o seu trabalho; realizadas pelas crianças, beneficiárias dos PD, para começar as atividades no Centro; e antes e depois das refeições. A devoção, palavra originária do latim devotiōne, caracteriza-se por um sentimento religioso de dedicação e

veneração, em que as pessoas se dedicam ao culto divino com afeição e afeto (Sousa, 1992). Esta

prática é uma forma que se assemelha à prática do Bhakti Yoga, o caminho da devoção.

O início do dia ou do trabalho são momentos privilegiados para as práticas e rituais de grupo relacionados com a espiritualidade, bem como para os individuais, seja através de um simples momento de paragem, silêncio, de oração ou meditação. Esta é uma prática transversal a todas as organizações, ainda que assuma manifestações muito próprias. Alguns dos participantes explicaram ser importante iniciar o dia, por exemplo, com uma oração porque a capacidade do homem é limitada em comparação com o poder de Deus e que a reunião de pessoas em sintonia permite alcançar grande poder para a execução de PD.

A oração é relatada, ainda, como um meio de conectar com a profunda fonte de amor, que se pode associar a uma divindade ou, simplesmente, à vida. A pessoa ao ligar-se à fonte,

Quadro 4. Distribuição dos temas por subcategorias da categoria Práticas e Rituais de Grupo

Práticas e rituais de grupo MTCDC AV Tamera LD Total

Aulas Espirituais 4 0 0 0 4

Célula Espiritual de Oração 3 0 0 0 3

Devoção da Equipa 3 0 0 0 3

Devoção e oração antes e depois das aulas e refeição 2 0 0 0 2

Devoção em Assembleia das Crianças 5 0 0 0 5

Jejum 1 0 0 0 1

Leitura da Bíblia 2 0 0 0 2

Meditação 0 5 0 0 5

Oração de grupo 5 2 3 4 14

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retirando-se da ação, torna-se mais capaz de rever a sua própria vida e, mais tarde, de a partilhar com outros, como referem dois voluntários de Tamera e dos LD, respetivamente:

“And to me prayer is this connection to the source and when I pray then I connect to this deep source of love, life, Pacha Mama, whatever may be” (E1)

“uma oração que seja ir à fonte e que se alimente de fontes, de leituras, mas também que seja uma oração de rever a vida, de sair da cena e rever a cena depois mais tarde, da cena de ação (...) Mas também depois de ser partilhada, de não ser uma ação solitária” (D1)

No novo modelo do ser humano, Zohar e Marshall (2004) descrevem-no como uma flor de lótus, que abarca o céu e a terra, com três camadas principais: a camada do ego, o meio associativo e o centro6. Este centro está ligado, presumem os mesmos autores, a uma fonte que consideram ter origem na história e na evolução do universo, fisicamente, iniciada no vazio quântico. “Não se pode viver nem compreender o Eu salvo em relação com este centro, que é toda a criação expressa através da realidade física experimentada como Eu.” (Zohar e Marshall, 2004, p. 174) Os mesmos autores defendem que o conhecimento e contacto com este centro e fonte é chave para aumentar e utilizar a inteligência espiritual.

A oração é, também, reconhecida como um meio de encontrar a vontade de Algo que transcende e quando é vivida em grupo pode alcançar um grau de grande coerência sobre o que se quer manifestar. Já Frankl acreditava que a dimensão espiritual do ser humano se manifesta através da intuição e para tal “é necessário que considere algo em si que lhe diz o que fazer, que considere a voz da consciência moral (…) percebida como algo transcendente (…) e capaz de orientá-lo”. (Frankl, 1993, cit. por Coelho Júnior, s.p.)

A meditação realizada antes de se iniciarem atividades no AVAG, em Auroville, como formações, reuniões ou seminários, serve para a pessoa orientar, mental e fisicamente, as suas motivações e prioridades, procurando não o benefício próprio, mas o bem da comunidade. Neste caso, não se recorre a músicas, orações verbalizadas, apenas a alguns minutos de silêncio. Concentração, paz e libertação são também efeitos relatados por quem pratica meditação, especialmente, quando se enfrentam problemas na vida:

“Even I can say in every meeting, seminars or some trainings also, we are trying to coordinate ourselves, so we are taking the initiative to meditation in silence few minutes before starting training or meetings, (…) Not any music, not any prayer. So we are closing our eyes and we are trying release ourselves (…) to coordinate ourselves to mentally, physically and when we are doing something, so we are not looking any profit (...) So it’s for the community, not only for me (…) we are trying release ourselves.” (C1)

“Sometimes in her family she is facing some problems, so the family seat together and meditate together (…) Daily in the morning and in the evening, I am praying to God (…) Me and my family (…) lighting the lamp and praying to God.” (C3)

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No modelo de Lótus do Eu consideram-se três camadas principais que estão associadas aos “três tipos básicos

de inteligência (racional, emocional e espiritual), três tipos de pensamento (serial, associativo e unitivo), três formas básicas de conhecimento (primária, secundária e terciária) e os três níveis do Eu (um centro – transpessoal; um meio – associativo e interpessoal; e uma periferia – o ego pessoal). O Eu espiritualmente inteligente integra os três.” (Zohar e Marshall, 2004, p. 144)

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Sintetizando, segundos os participantes, as práticas e rituais comummente usados ao iniciar-se o dia ou o trabalho são formas de reunir maior poder, quando a pessoa ou grupo de pessoas se conecta e liga à fonte, isto é, a uma divindade, à vida ou a um algo transcendente. Neste ponto de profunda ligação com a fonte, encontra-se a vontade mais profunda que dá sentido às motivações e prioridades na ação do dia-a-dia, permitindo também concentração, paz e libertação perante problemas. Então, a pessoa torna-se mais capaz de rever a sua própria vida e, mais tarde, de a partilhar com outros em ações que realizam a sua vontade mais profunda.

Uma prática particular relacionada com a espiritualidade é a Célula de Oração, que é um espaço para orações, essencialmente, de petição e intercessão, que ocorre todos os sábados de tarde no Centro Mar Thoma com a reunião das crianças mais velhas liderado por um AD. As crianças são convidadas a escrever as suas petições num livro posteriormente lido durante a Célula de Oração.

A leitura da Bíblia, as aulas espirituais são também práticas realizadas no Centro Mar Thoma, onde se estuda e aprofunda a Bíblia e se atualizam os seus ensinamentos e histórias. Estas práticas assemelham-se muito no seu objetivo à formação dos voluntários e cursos dos LD, às classes no Savitri Bhavan, centro dedicado a promover um sentido de vida da Unidade da Humanidade através da educação espiritual baseada nos ensinamentos de Sri Aurobindo e da Alfassa em Auroville. Ou, ainda, às Geistig Hours7 e palestras na Aula, o grande auditório do Centro de Pesquisa para a Paz, ou como no Ashram Político, espaço que oferece a possibilidade de formar os responsáveis e ter reuniões, em Tamera. Estas práticas ajudam as pessoas no seu caminho espiritual através da exploração e aprofundamento do conhecimento, como no caminho do Jnana Yoga.

É importante referir que, segundo os participantes, não se trata de um mero estudo que se baseia na intelectualidade e resume a processos mentais de lógica e memorização. É um estudo que pretende, principalmente, a incorporação interna do objeto observado, seja uma ideia, um tema, uma questão, uma história, uma imagem ou até uma profecia.

“That is really to understand really the idea of a model in every detail. And it is not only about understanding intellectually, we say geistig, because you need to have the experience in your body, you need to have it as a physically, you need to share, (...) and how this feels, (...) it’s the guideline for our personal development, the Geistig hours.” (E2)

As palavras de uma AD em Tamera refletem a importância de tornar o objeto em estudo numa experiência interna que se viva física, emocional, intelectual e espiritualmente de modo a

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“Geistig é uma palavra alemã que abarca em si mesma dois significados, comummente separados pela sociedade secular, que são a intelectualidade e a espiritualidade. Com isto os habitantes de Tamera querem realçar a importância de se estudar as questões fundamentais dos nossos tempos através de uma análise mental, assim como através de uma leitura espiritual.” (Diário de Campo de Tamera, 2011)

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que o desenvolvimento pessoal se realize profundamente, sendo suportado e potenciado pelo grupo.