A forma de habitação está em geral, associada às condições econômicas dos moradores, com a possibilidade de habitar em determinadas áreas da cidade e não em outras, o tamanho da residência, seu tipo de construção, entre outros, são elementos que demonstram
ϳϭ a condição de vida do morador aos demais. Enquanto elemento comunicador – como outros bens simbólicos – a habitação passou por processos que foram alterando o padrão daquilo que se considera “morar bem”.
Caldeira (2000) destaca isso quando analisa as mudanças no processo de segregação
sócio espacial na cidade de São Paulo.31 Segundo ela, o novo padrão de segregação, e de
diferenciação social, é a habitação em enclaves fortificados e em residências que ostentem aparatos de segurança.
Assim, tem-se o que o mercado imobiliário chama de um “um novo conceito em morar”, que possui como elementos principais a seletividade e restrição do espaço, áreas de lazer e tecnologias de segurança e vigilância. Segundo Roberts (2002), esses elementos foram incorporados à habitação como elementos de consumo que não se restringem apenas à relação de compra e venda em seu sentido estritamente econômico, mas também a símbolos de distinção e status associado ao sucesso e ao prestígio social.
Para Roberts (Idem), o apelo publicitário desse tipo de construção que trabalha com aspectos como a exclusividade, por exemplo, além de seu tipo de arquitetura, a escolha dos nomes dos empreendimentos e o grupo inicial ao qual se destinaram e buscaram atingir, construíram esses espaços como símbolos que possuem seu significado associado ao seleto e a uma forma elegante de habitação. Consumir esses espaços é comunicar tanto aos de dentro dos muros que compartilham bens simbólicos semelhante, quanto aos de fora dos muros sua oposição social que carrega consigo relações econômicas e relações simbólicas de consumo.
Os nomes escolhidos para os empreendimentos chamam a atenção por trazerem de alguma forma - algumas mais subjetivas outras mais claras - o caráter exclusivo a que se pretende: Valle do Canaã, Portal dos Nobres, Reserva Esmeralda, que são exemplos de nomes que carregam consigo uma carga simbólica daquilo que é restrito e se destina a um grupo seleto. Além desses nomes, outros chamam a atenção por buscarem sofisticação através de nomes em idiomas diversos: Orizzontidi San Carlo, Garden Park, Green Valley, Village São Carlos são outros exemplos de nomes escolhidos onde se pode observar a intenção em fazer referência a espaços que extrapolam os limites locais, dando caráter mais moderno, sofisticado e internacional aos projetos.
ϳϮ A composição da oferta através da arquitetura dos empreendimentos, dos nomes escolhidos, a elaboração do material publicitário com imagens e slogans, festas de lançamentos, o tipo de construção das portarias de acesso, criam um repertório simbólico que torna o entendimento desses espaços como espaços destinados às pessoas de prestígio e sucesso, ou seja, de espaços construídos e destinados para aqueles que são privilegiados, fazendo com que tanto aqueles que os habitam se sintam assim, quanto àqueles que não tenham acesso compartilhem da mesma percepção.
Os materiais publicitários dos enclaves fortificados residenciais trabalham de maneira bastante intensa essa ideia de lugar reservado a um grupo especial de moradores, pois constroem seu produto em oposição a vida na cidade, de forma tal, que as qualidades presentes nesse espaço são apresentadas como exclusivas, possíveis apenas naquele lugar e destinadas apenas àquelas pessoas.
Assim, se faz um convite para se viver em um novo conceito de morar, repleto de qualidade de vida e contato com a natureza, além de desfrutar de momentos tranquilos juntos a família e a vizinhança e constroem um cenário paradisíaco em meio ao caos urbano, de modo tal que tudo o que se encontra dentro dos limites dos muros se opõe a realidade externa.
Para aqueles que se encontram dentro de seus espaços, os anúncios sugerem caminhadas ao ar livre com segurança em um ambiente limpo e bem cuidado, com áreas de lazer para as crianças que podem brincar com seus colegas, andar de bicicleta pelas ruas e serem “livres” como as crianças eram no passado nas cidades menores, como pode ser visto em alguns materiais publicitários de empreendimentos da cidade de São Carlos e Marília:
Felicidade é morar com a família onde você escolheu.
Imagine a sua casa em localização privilegiada. Perto do principal shopping da região e de tudo o que você e sua família precisam para levar a vida com qualidade e segurança. Agora imagine a sua casa com detalhes exclusivos, como você sempre sonhou. Aqui, você vai criar um novo conceito de viver: segurança de apartamento e conforto de uma residência ampla, com todas as instalações do jeito que você quer.
Morar bem é um ato de sabedoria e só você pode escolher o que é melhor.ϯϮ
ϯϮDĂƚĞƌŝĂůWƵďůŝĐŝƚĄƌŝŽĚŝƐƉŽŶşǀĞůŶŽƐŝƚĞĚĂsĂůŽƌ/ŵŽďŝůŝĄƌŝĂ͕ƌĞƐƉŽŶƐĄǀĞůƉĞůĂĐŽŵĞƌĐŝĂůŝnjĂĕĆŽĚŽ ĞŵƉƌĞĞŶĚŝŵĞŶƚŽ͘ĐĞƐƐĂĚŽϬϰͬϬϯͬϮϬϭϯ͘
ϳϯ
Figura 3 - Publicidade Swiss Park
“Dahma Village I São Carlos: um conceito urbanístico como você nunca viu igual”. Com localização privilegiada e infraestrutura de qualidade.”
Figura 4 - Publicidade Damha Golf
“Esmeralda Residence II - Precioso é viver aqui.
Deixe enraizar sua tranquilidade e colha a felicidade de sua família. Construa uma nova história de vida no bairro mais cobiçado de Marília, curta seus filhos crescendo felizes, rodeados de muito lazer e segurança.
Viva momentos preciosos ao lado das pessoas que você mais ama.O lugar que você tanto sonhou, ao seu alcance, projetado especialmente para viver ótimos momentos.”
“Inspirado nos antigos vilarejos, o Allegra favorece o convívio entre os moradores. São alamedas e praças arborizadas, playground, quadra, piscina (infantil e adulto) e salão de festas harmonicamente distribuídos nos 39mil m2 do terreno. Há opção de casas de 61m2 (dois dormitórios) e 79m2 (três dormitórios, sendo uma suíte).
O empreendimento pode ser definido como uma verdadeira obra de engenharia social, por desenvolver integração e cooperação entre moradores, ao estimular autonomia, a criatividade e a solidariedade da comunidade, que se envolve em ações de administração participativa.”33
ϯϯDĂƚĞƌŝĂŝƐƉƵďůŝĐŝƚĄƌŝŽƐĚŽƐĞŵƉƌĞĞŶĚŝŵĞŶƚŽƐŝŵŽďŝůŝĄƌŝŽƐǀĞŝĐƵůĂĚŽƐƉĞůŽƐŝƚĞĚĂdŽĐĂ/ŵŽďŝůŝĄƌŝĂ͕ ƌĞƐƉŽŶƐĄǀĞůƉĞůĂĐŽŵĞƌĐŝĂůŝnjĂĕĆŽ͘ĐĞƐƐĂĚŽĚŝĂϬϰͬϬϯͬϭϯ͘
ϳϰ Estes anúncios trabalham, de maneira geral, com três focos: a segurança e a liberdade proporcionada por ela, o caráter exclusivo e privilegiado do espaço de moradia e a qualidade de vida possível através do contato com a natureza e integração entre os vizinhos.
Em seus materiais são sempre reforçados os aspectos de grande empreendimento, já que seus projetos visam abarcar qualidades que são, segundo eles, impossíveis de se encontrar no espaço da cidade.
Grande parte da publicidade desses empreendimentos tem grande apelo para a qualidade de vida das crianças nesses espaços. Referências a segurança dos filhos, possível nas ruas dos empreendimentos, a existência de equipamentos de lazer e o convívio com outras crianças são recorrentes. A presença de um padrão de família jovem com um ou dois filhos está presente em grande parte das ilustrações desses materiais.
Figura 5 - Publicidade Reserva Esmeralda
ϳϱ
ϳϲ
ϳϳ Outro público também trabalhado por esse segmento são os idosos, e para eles são ofertados o convívio entre vizinhos, o convívio harmonioso entre conhecidos e o contato com a natureza. Em todos eles, as imagens buscam ressaltar os aspectos positivos do isolamento, trazem crianças brincando, destacam as áreas de lazer e esporte, retratam famílias unidas e felizes.
A oferta desses empreendimentos imobiliários é a vida tranquila em uma comunidade harmoniosa, que tem em seu quintal o contato com a natureza já não existente na cidade e a presença de equipamentos de lazer e infraestrutura de qualidade. Tudo isso dentro de um espaço seleto e seguro onde o contato só é realizado entre pares, o que forma assim um lugar paradisíaco frente ao caos e aos problemas da cidade, e que reforça seu aspecto simbólico de lugar de prestígio e de diferenciação social, como pode ser observado nas próprias frases dos materiais publicitários dos empreendimentos.
São imagens que buscam retratar a liberdade possível entre os iguais, livre de conflitos, preocupações e imprevistos, recheada de qualidade de vida através do contato com a natureza, com habitação nos melhores bairros e mais belas paisagens da cidade, infraestrutura invejável e, como não poderia deixar de ser, com o acesso permitido apenas para os escolhidos.
Em geral, a composição desses materiais não apresenta grandes variações, sendo eles compostos quase sempre pelos termos: qualidade de vida, exclusividade, segurança, lazer, contato com a natureza, prazer, harmonia, tranquilidade, privilégio, entre outros. Estas são qualidades reforçadas em quase todos os materiais publicitários de empreendimentos imobiliários deste tipo, além de que anúncios de um produto que ofertam é uma forma de habitar a cidade carregada de simbolismos.
O tempo todo se trabalha com a grandeza das imagens que trazem os espaços como amplos, e sugerem a sensação de liberdade e com exclusividade que os torna ainda mais livres, já que não há a multidão e as implicações desta. Desse modo, são valorizados os aspectos mais expressivos da segregação, como os altos muros, a presença dos dispositivos de segurança e a localização mais afastada, quanto os mais subjetivos como os códigos de classificação dos sujeitos e as formas de contato baseados na postura de reserva.
Segundo Caldeira (2000), a presença desses empreendimentos na cidade e a busca tanto pela sua posse material quanto pela posse de seus significados simbólicos são uma
ϳϴ forma ainda mais severa da segregação sócio espacial que tem como princípio a oposição a urbanidade e a heterogeneidade da cidade.
Para Lefebvre (1969), o tipo de projeto urbano lançado pelos enclaves fortificados residenciais, chamados por ele de conjuntos e pavilhões, possui em pensamento urbanístico desurbanizador, pois se propõem como uma contraposição à cidade.
[...] Com efeito, os “suburbanos” os dos “pavilhões” residenciais, não deixam de ser urbanos mesmo que percam a consciência disso e se acreditem próximos da natureza, do sol e do verde. Urbanização desurbanizante e desurbanizada, pode-se dizer para ressaltar o paradoxo. (LEFEBVRE, 1969: 22)
Ainda assim, todos os fatores que colocam os enclaves fortificados residenciais em oposição à cidade mostram-se hoje fortemente incorporados entre aqueles que optaram por esse tipo de moradia. A própria configuração das cidades de Marília e São Carlos, seus projetos urbanos em curso, somado às campanhas publicitárias destes empreendimentos parecem ter sido grandes colaboradores na criação e propagação das ilusões as quais se refere Lefebvre, de maneira tal que os enclaves fortificados residenciais são hoje um objeto de desejo para aqueles que acreditam que “morar bem” é sinônimo de “segurança, exclusividade e privilégio”.
ϳϵ CAPÍTULO 3 - Características do processo de fortificação em Marília e São Carlos:o processo de urbanização e as bases para a construção de cidades apartadas
As cidades de Marília e São Carlos apresentam seu processo de urbanização com alguns aspectos importantes bastante semelhantes no que se refere a sua ligação com a economia cafeeira e a organização espacial em função dessa cultura.
Marília é uma cidade da região oeste do estado de São Paulo que conta hoje com
216.745 habitantes.34 Se fundou como município em 1928 com a aprovação do Projeto de Lei
de criação do município por Bento de Abreu Vidal. Nesse momento já existiam três patrimônios que concentravam os incipientes núcleos urbanos: o patrimônio Alto Cafezal,
Barbosa e Marília.35
Figura 9 - Estação Ferroviária em 1929. Foto: acervo do Centro Histórico de Marília ϯϰĂĚŽƐ/'ϮϬϭϬ͘ ϯϱ ^ĞŐƵŶĚŽ ĂŶĚŽŶĂĚŝ ;ϮϬϬϴͿ Ă ĨŽƌŵĂĕĆŽ ĚĞ Ƶŵ ŶƷĐůĞŽ ƵƌďĂŶŽ ƐĞ ĚĞƵ ĚĞ ĨŽƌŵĂ ůĞŶƚĂ Ğ ƚĂƌĚŝĂŵĞŶƚĞ Ğŵ ĚĞĐŽƌƌġŶĐŝĂ ĚĞƐƐĂ ĄƌĞĂ ƐĞƌ ŽĐƵƉĂĚĂ ƉĞůŽƐ şŶĚŝŽƐ ĐŽƌŽĂĚŽƐ͕ ĐŽŶŚĞĐŝĚŽƐ ƉĞůĂ ĂƵƐġŶĐŝĂ ĚĞ ƌĞĐĞƉƚŝǀŝĚĂĚĞ ĂŽƐ ŶŽǀŽƐŵŽƌĂĚŽƌĞƐĞƉĞůĂůƵƚĂƉŽƌƐƵĂƐƚĞƌƌĂƐ͘ůĠŵĚĞƐƐĞŵŽƚŝǀŽ͕ĂƐƚĞƌƌĂƐĚĂƌĞŐŝĆŽƚŝŶŚĂŵƐŝƚƵĂĕĆŽŝƌƌĞŐƵůĂƌ͕ ŽƋƵĞĚŝĨŝĐƵůƚĂǀĂƐƵĂĐŽŵĞƌĐŝĂůŝnjĂĕĆŽ͘ĞƐƐĞŵŽĚŽĠĞŵϭϴϱϬ͕ĐŽŵĂ>ĞŝĚĞdĞƌƌĂƐƋƵĞĂĄƌĞĂĠƌĞŐƵůĂƌŝnjĂĚĂĞ ƐĞƉŽƐƐŝďŝůŝƚĂĂĞdžƉůŽƌĂĕĆŽĐŽŵĞƌĐŝĂůĚĂƌĞŐŝĆŽ͘
ϴϬ A expansão urbana inicial da cidade esteve vinculada a produção agrícola, tendo como principais culturas o café, o algodão e o amendoim. Esses produtos foram responsáveis pelo desenvolvimento urbano e econômico do município.
Segundo Dal Pozzo (2011), o processo de urbanização de Marília apresenta cinco momentos importantes: o primeiro data de 1928 se refere à junção dos três patrimônios na criação do município. O segundo momento compreende o período de 1928 a 1954 e se caracteriza pela forte atração populacional e pelo início da industrialização local estimulada pela transição da cultura do café - que foi base para o inicial desenvolvimento urbano, estimulando a construção de uma infraestrutura básica e a vinda de tecnologias importantes para a época como a estrada de ferro – para a cultura do algodão que trouxe para o município algumas fábricas de tecidos, fomentando ainda mais a urbanização local.
Figura 10 - Avenida Sampaio Vidal 1950. Foto: acervo Centro Histórico de Marília
O terceiro momento, que compreende o período de 1958 a 1970, ocorre uma mudança no setor produtivo, o qual após uma crise na produção de algodão e nas indústrias têxteis passa a voltar-se para o ramo alimentício. Nesse período ocorre segundo Dal Pozzo (2011), uma forte expansão do espaço urbano fomentada pela especulação imobiliária. Segundo o
ϴϭ autor, até a década de 1970, o tecido urbano se apresentava contínuo e com sua expansão, em decorrência também da atuação do mercado imobiliário, passa a apresentar pontos de descontinuidade. É nesse momento que são criados o conjunto habitacional Nova Marília, que representa de maneira marcante o inicio dessa descontinuidade, pois é implantado em uma área bastante distante do centro urbano.
Outro aspecto da intensificação da segregação sócio espacial, até o final da década de 1970 (sendo 1979 o ano de referência do terceiro período de expansão urbana), pode ser representado pela implantação do primeiro espaço residencial fechado, qual sejam Sítios de Recreio Santa Gertrudes (localizado no quadrante norte da Zona Leste) e a formação de quatro áreas de favelização, no eixo sul de expansão urbana, nas seguintes localidades: Jardim Nacional, Jardim Tófoli, Monte Castelo e Vila Real. No eixo norte de expansão urbana também é formado a primeira área de favelização, que se localiza na Vila Barros. (DAL POZZO, 2011:105)
Segundo Faleiros (1983), a especulação imobiliária em Marília foi intensa, possuindo expressividade maior do que em outras cidades de mesmo porte, que se constata segundo ele, no dado de 1980, onde 51% dos imóveis da cidade estavam ociosos tendo por objetivo sua valorização. Segundo o autor, no mesmo período, esse percentual era de 10 a 20% nas outras cidades de mesmo tamanho. Somado a esses dados a cidade apresentava também uma área sem lotear já declarada urbana nas mesmas dimensões do município. (FALEIROS, 1983: 83)
O processo de segregação sócio espacial desse período se caracterizava pela forte atuação de um mercado imobiliário especulador e pela construção de loteamentos distantes do centro da cidade destinados a classe trabalhadora de menor renda. Desse modo, Marília foi tendo seu espaço urbano organizado socioespacialmente de maneira fragmentada e descontínua.
Carvalho (2007), Delicato (2004) e Dal Pozzo (2011) apontam para a criação do núcleo habitacional Nova Marília como um fato importante no processo de expansão urbana
da cidade caracterizado pela segregação sócio espacial.36 Segundo Carvalho (2007), a criação
deste núcleo urbano esteve relacionada a uma estratégia eleitoral para obtenção de votos, ao
ϯϲ K DĂƉĂ ϯ ĚĂ ƉĄŐŝŶĂ ϭϯϱ Ğŵ ĂŶĞdžŽ ƚƌĂnj ĂƐ ĄƌĞĂƐ ĚĞ ĨĂǀĞůŝnjĂĚĂƐ ĚĂ ĐŝĚĂĚĞ ĚĞ DĂƌşůŝĂ Ğ ĐŽůĂďŽƌĂ ƉĂƌĂ Ă ǀŝƐƵĂůŝnjĂĕĆŽĚĂŽƌŐĂŶŝnjĂĕĆŽĞƐƉĂĐŝĂůĚĂĐŝĚĂĚĞ͘
ϴϮ mesmo tempo em que favoreceu os interesses do mercado imobiliário voltado à valorização imobiliária, sobretudo, das áreas centrais e da Zona Leste da cidade.
[...] Viabilizado pelo poder público, a partir de interesses políticos e imobiliários e, tendo em vista a valorização de áreas da Zona Sul de Marília, ‘Nova Marília’ foi ocupado, inicialmente, por famílias de baixo poder aquisitivo que habitavam o antigo Patrimônio Alto Cafezal, sobretudo, em áreas com grande presença de cortiços no entorno da Igreja Santo Antônio (a noroeste do Centro) e na antiga Zona do Meretrício, tendo em vista a requalificação do perfil socioeconômico desse bairro. (DAL POZZO, 2011: 105)
Um processo semelhante a este, de transferência de moradores de baixos rendimentos para áreas mais distantes, pode ser também observado nesse período no bairro Maria Izabel, localizado na Zona Leste e que atualmente está entre os mais valorizados da cidade. Em 1973, a construção do loteamento Prolongamento Maria Izabel promoveu a transferência dos antigos moradores que em geral, se compunha de trabalhadores, para o bairro Santa Antonieta, localizado na Zona Norte da cidade. Essa transferência se deu pela atuação da especulação imobiliária que promoveu a valorização da área, removendo dali os mais pobres promovendo uma mudança no perfil socioeconômico do bairro.
A partir da implantação do Bairro Tangará, em 1978, o qual se localizou em continuidade espacial com o Bairro Maria Izabel, muitas famílias de mais alto poder aquisitivo, sobretudo, moradores do Bairro Salgado Filho (antiga Vila Barbosa) mudaram-se para este novo loteamento e, somando-se à implantação do primeiro espaço residencial fechado, qual seja Sítios de Santa Gertrudes (aprovado em 1977) reforçou a tendência de caracterizar a Zona Leste como porção do espaço urbano de Marília predominantemente ocupada pelos segmentos sociais de mais alto poder aquisitivo. (DAL POZZO, 2011:106)
Fomentando esse processo, o quarto momento de expansão urbana de Marília, segundo Dal Pozzo (2011), compreende o período que vai da década de 1970 a 1991. Nesse momento tem-se claro os contornos da segregação sócio espacial da cidade e os espaços de diferenciação social. A Zona Sul e a Zona Norte são habitadas por pessoas de baixos rendimentos econômicos, a Zona Leste é habitada pelas pessoas de maior poder aquisitivo e a Zona Oeste se apresenta como área de habitação diversificada.
O tipo de ocupação a cada região, e a fragmentação do tecido urbano se relaciona também ao relevo local, que apresenta escarpas que impedem a comunicação direta entre algumas áreas, assim, além de um projeto urbano desigual e concentrador Marília tem o relevo como importante característica em sua organização urbana.
ϴϯ As áreas próximas às escarpas foram ocupadas primeiramente pela população de baixa renda que não possuíam condições de habitar em áreas legalizadas e com infraestrutura. Desse modo, essas áreas estiveram ligadas ao processo de favelização e as condições de precariedade vivida por essas populações. Já em um segundo momento, essas mesmas áreas passaram a ser vistas como locais com grande potencial econômico, o que levou a sua valorização e ocupação pelos grupos de maior renda. Assim, elas passaram a ser trabalhadas pelo mercado imobiliário como possibilidade de contato com a natureza e o convívio com as mais belas paisagens da cidade que, ao contrário dos espaços ocupados pelos pobres, possuem diversos atrativos e infraestrutura.
ϴϰ Figura 11 - Espaço urbano de Marília 2009. Foto: Lucas Souza
O tipo de consumo do espaço constrói significados e representações sobre ele que se relacionam com as experiências vividas. Carvalho (2007) observou essa construção simbólica com relação às escarpas e vales presentes no relevo de Marília através de uma entrevista realizada com um morador:
Segundo as informações aqui, os moradores que moram aqui para os lados do Aeroporto, que pegam essa baixada do ‘buracão’, não falam ‘buracão’, falam que aqui é o ‘vale’, que ‘mora na beira do vale’, sendo que as pessoas que moram do outro lado, no Jânio Quadros, Vila Nova, Palmital, eles falam ‘buracão’. Eu acho que é um pouco desprezível por parte das pessoas... eu acho que é o mesmo vale de fato. Por que ‘buracão’ para o lado das pessoas pobres e ‘vale’ para as pessoas ricas? 37 (CARVALHO, 2007: 76).
A forma de apropriação realizada no espaço e sua utilização configuram a imagem que tanto os moradores da área quanto os demais habitantes da cidade têm daquele lugar. O tipo de formação do relevo no caso citado na entrevista é o mesmo tanto de um lado onde ele é vivido e chamado como “buracão” quando do outro lado onde ele é um lindo “vale”. As imagens abaixo trazem essas duas percepções, a primeira é a vista do “vale” tida de dentro do Residencial Costa do Ipê que ao fundo tem a bairro Santa Antonieta, no qual o mesmo tipo de relevo é tido como “buracão”. A segunda imagem traz as construções no limite do bairro Santa Antonieta com o “buracão”:
ϴϱ Figura 12 - Composição da vista do "buracão" tida do Bairro Santa Antonieta (parte superior) e da vista do "vale" tida de dentro do Residencial Costa do Ipê (abaixo). Fonte: SCHMIDT, Naiara C. Trabalho de Campo realizado em 2013͘
ϴϲ A exploração pelo mercado imobiliário das diferentes áreas da cidade, assim como o projeto urbano promovido pelo poder público, edifica não apenas áreas da cidade com características físicas e de infraestrutura diferentes, mas também com diferentes percepções e sentimentos que vão da atração ao desprezo.
É nesse atento olhar para o potencial econômico de algumas áreas da cidade que o mercado imobiliário alavanca, segundo Dal Pozzo (2011), no quinto momento de expansão do espaço urbano de Marília, de 2002 a 2008, onde ocorre um acentuado crescimento no número de lançamentos no setor, sendo grande parte deles voltado para os empreendimentos do tipo