4. Materials and methods
4.3. Kinetic resolutions
4.3.1 Transesterification of 1-((1H-indol-4-yl)oxy)-3-chloropropan-2-ol (5)
O passado reconstruído não é refúgio, mas uma fonte, uma fonte, um manancial de razões para lutar. A memória deixa de ter um caráter de restauração e passa a ser memória geradora de futuro (BOSI, 2002, p. 66).
[...] quando falo de Tradição não me refiro a algo congelado, estático, que aponta apenas a anterioridade ou antiguidade, mas aos princípios míticos inaugurais constitutivos e condutores de identidade, de memória, capazes de transmitir de geração à geração continuidade essencial e, ao mesmo tempo, reelaborar-se nas diversas circunstâncias históricas, incorporando informações estéticas que permitem renovar a experiência, fortalecendo seus próprios valores. (SANTOS p. 134)
161
As comunidades tradicionais, e aqui se enquadra o Quilombo Mesquita, que tem características de comunidade tradicional, usam esse caminho da busca na memória dos saberes tradicionais para a sua sobrevivência ao longo do tempo. A memória não é só um fenômeno de interiorização individual, ela é, também e, sobretudo, um fenômeno coletivo. Sendo a memória uma construção social, a memória é em parte, modelada pela família e pelos grupos sociais. Halbwachs(2006)
A memória é fundamental, posto que organiza a identidade pessoal e coletiva; ordena a percepção de si e de seu mundo; constrói e instaura o sentimento de pertença ao lugar e à coletividade e informa o código simbólico de referência do espaço social e físico. E assim, espaço de encontro e reencontro, componente essencial de registro das marcas de um tempo que compõe o real vivido e estabelece a comunicação entre momentos diversos e contínuos( Gusmão,1995 p. 119).
A autora (2002) continua afirmando que a manipulação do que se valoriza se “lembra” ou se “esquece” projeta do presente para o futuro a identidade do grupo. Não é incomum um grupo quilombola “esquecer” ou não pronunciar nada a respeito sobre o tempo de cativeiro ancestral, com a finalidade de aniquilamento de um estigma na memória. Assim, os mitos de origem de muitas destas comunidades remetem-se ao momento em que o acesso à terra é adquirido, em consequência é atribuído aos ancestrais desta época um caráter heróico. A descendência da família, por sua vez, enfatiza a ligação a estes “heróis fundadores” - sem referências aos seus antecessores nem ao passado anterior à aquisição de um território. Tal fato e tais personagens são associados à liberdade e à dignidade - elementos fundamentais para estas comunidades na atualidade.
O contrário também ocorre: reativam-se determinados “esquecimentos” frente a novas situações que valorizem determinado fato antes rejeitado. É comum a muitas comunidades quilombolas, com a finalidade de uma reafirmação étnica, a valorização de determinados acontecimentos antes “esquecidos”, depois da existência de políticas públicas especiais para estes grupos. Contudo estas reativações são processos paulatinos, que impõe desafios a serem enfrentados pelas atuais gerações destas comunidades, e nem sempre são bem quistas ou ocorrem em sua totalidade. Posto que muitas vezes é exigido o rompimento com o mito de origem e toda a dinâmica da vida comunitária estabelecido por este. (Gusmão,1995 p. 121)
162
Segundo história oral relatadas no Relatório de Delimitação feito pelo INCRA(2011) um morador de 82 anos (RTDI, 2011), um dos mais velhos ainda vivos em Mesquita, remete-se ao passado cativo:
Aqui no começo não tinha dono, eles eram refugiados e fizeram aquelas colônias, não era refugiado, era tocado, porque depois que foram libertados ninguém quis mais ser escravo aí tocaram pra cá. Aqui não tinha dono era tudo índio. Era índio que morava. Aí o povo dos engenhos [os negros] que era tirador de ouro foi libertado aí veio para cá. Aí pegou e arremataram essa região. (SLC)
A memória, como propriedade de conservar certas informações, reenvia - nos em primeiro lugar para um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, que ele representa como passadas. (Le Goff 1994)
No entanto a memória do negro no Brasil passou por várias distorções ao longo da história, em consequência do racismo. Sobre esse tema Nascimento (1980, p, 247), afirma que a sociedade brasileira dominante inventou formas ordenadas de destruição e negação da memória dos afro-brasileiros. “nunca em nosso sistema educativo se ensinou qualquer disciplina que revelasse algum apreço ou respeito às culturas, artes, línguas e religiões de origem africana.”
A memória dos “antigos” remete a um tempo onde na Fazenda Mesquita se reuniam os negros locais. Essa linha étnica “lá só mora preto” ainda é comum em Luziânia (a atual denominação da cidade de Santa Luzia). Para os “de fora” esse agrupamento representava união. Mas no interior da comunidade as condições dos indivíduos e suas relações de sintonia eram diferenciadas entre si. As uniões aconteciam por trabalho, casamento, trocas e outras tantas forma de inclusão comunitária. Este é um dado histórico, em Mesquita só se aceitava negros até a segunda metade do século XX - representando também uma forma de conservação da terra entre este segmento étnico:
Não podia entrar outra Nação, branco aí com os pretos, né?[...] Aqui era tudo preto. Depois é que foi entrando... Agora tá preto e branco ( C P B - Relato ao INCRA).
Antigamente aqui só era negro reforçado. Não se via miudinho. Era negão forte, nega seiúda. Quando se via um branco era passageiro. (B A P B para o Correio)
A Comunidade vivencia essa negação hoje quando grupos de interesse no território do Quilombo Mesquita usam de membros da Comunidade para denegrir e relativizar o cultura daquele povo.
163
A construção da memória é um processo dinâmico e flutuante, e é formada com a interação de diferentes sujeitos, o conceito de memória de Maurice Halbwachs (1980) , diz que as lembranças são frutos de uma atividade de reconstrução do vivido.
A memória seria o encontro de muitos caminhos, construído por identificações e diferenças, passagens subjetivas e sociais, a memória é um processo continuado de reconstrução e aprendizado. Sendo o grupo social a base da memória (Chauí, 1992), cada geração carrega consigo a memória dos acontecimentos vividos, que permanecem como pontos de demarcação em sua história, retendo imagens e idéias, valores e afetos vinculados a lembranças individuais e coletivas. Assim, a relação que se estabelece com determinada tradição não é a recuperação de traços essenciais de uma cultura coerente e contínua.
Essa categoria que, expressa-se na relação entre os significados e a ação dos sujeitos (Velho, 2001) , permite rearticular um campo de significações em que se podem compreender as relações dos sujeitos com sua história, relações entre presente e passado. Pinto (2001, p.297) traz uma importante contribuição, afirmando que
“a memória recupera a história vivida, história como experiência humana de uma temporalidade, e opõe-se à história como campo de produção de conhecimento, espaço de problematização e de crítica. Na operação histórica, o passado é tornado exclusivamente racional, destituído da aura de culto, metamorfoseado em conhecimentos, em representação, em reflexão; na constituição da memória, ao contrário, é possível reincorporar a ele, passado, um grau de sacro, de mito”. (Pinto 2001)
Memória é também um conjunto de funções cerebrais que permitem ao homem guardar as mensagens, observando a constante possibilidade de seleção dos conteúdos antes de serem buscados. As memórias, mesclas de sentimentos e emoções que diversificadas brotam e tomam a cena pública, procuram ser reconhecidas, terem visibilidade e articulação. Em geral, ocupam um lugar que a racionalidade e a história não exprimem, “atualizando no presente vivências remotas (revisitadas, silenciadas, recalcadas ou esquecidas) que se projetam em relação ao futuro” (Seixas, 2001, p.98) .
Para Ferreira (2004, p.98), memória é um elemento constitutivo do sentimento de identidade, tanto coletivo quanto individual, como fruto de um trabalho de construção constantemente negociada e representação de um fenômeno social.
164
Velho (2001, p.11) reforça afirmando que “não existe vida social sem memória, a própria possibilidade de interação depende de experiências e expectativas culturalmente compartilhadas”. Para ele, não se trata de um único relato ou história, mas uma composição de discursos e representações das sociedades complexas, com versões que expressam a heterogeneidade dos atores. Por isto, é nesta relação entre a rede de significados e a dimensão da ação dos atores sociais que deve ser caracterizada a importância das memórias (VELHO, 2001, p.11).
A memória oral como condição promotora de pertencimento, e, ainda, como possibilidade de reelaboração de culturas, que se sentem ameaçadas pela sobreposição de outras. A busca pelo reconhecimento das tradições locais de grupos minoritários passa pela necessidade de encontrarem referências de identidade local, que possam dar suporte à sabedoria extraída de suas vivências (Pollak, 1995). E, ainda, a possibilidade de ampliação dos canais de comunicação entre os participantes mais antigos com os mais jovens moradores pode significar uma estratégia de integração e de construção de cidadania. A cidadania é aqui assumida como algo que se constrói permanentemente, constituindo-se ao dar significado ao pertencimento do indivíduo a uma sociedade, em cada fase histórica (Loureiro et al, 2005).
Figura 17 Vó Antonia - Quilombola falecida em 2012
No Quilombo Mesquita, vive-se a expectativa e a luta cidadã pelo território, essa luta ocorre pela sobrevivência dos vínculos familiares e históricos, a memória da comunidade se divide entre “o que era” e “o que está sendo agora”, (uso aqui o conceito de Bosi, 1994, p.7, afirma que memória é um processo permanente de construção e reconstrução ). as dificuldades e tristezas vividas hoje pela Comunidade na busca da sua afirmação territorial e étnica são consideradas por eles como passageiras até que tudo volte ao normal (ao que era).
165
A questão analisada por essa tese, de um modo um tanto diferente, se propõe a abordar os saberes tradicionais do grupo sem apelar nem para a folclorização que trata os conhecimentos como mito ou como apologia, nem recorrer ao fatalismo que vê nos saberes apenas uma opção de reconstrução do passado.
Na prática dos fazeres e saberes, o que se busca não é um fazer que vem do passado somente, nem apenas a forma como esse saber é vivido na comunidade, mas também entender as formas pelas quais esses saberes se relacionam com tema ambiental e como são vivenciados como processo de pedagogização ambiental .
Foi através do foco na história e na territorialidade do Quilombo Mesquita que surgiram algumas informações importantes para o estudo e que não seriam percebidas em outra forma de análise que não a sucessão dos acontecimentos dentro de um território.
A comunidade do Quilombo Mesquita cita continuamente três momentos históricos: o tempo dos mais antigos e o mito de origem; o tempo do Aleixo e os dias presentes ou das novas gerações. Usam também o parentesco e a genealogia como uma maneira de pensar e apreender o tempo, um “tempo genealógico”.
A época da fundação do quilombo é personificada nos mais antigos da comunidade, que pertencem a um tempo histórico- mítico ( a linguagem histórica é racional, já a linguagem mítica é simbólica), representam as três famílias principais de Mesquita. São as três ex-escravas e sua sucessão direta e também os negros vindos das minas de Goiás, são aqueles que em condições adversas, enfrentaram as dificuldades e empreenderam com sucesso a autonomia econômica e social da comunidade em relação à sociedade envolvente.
O tempo dos fundadores recordado pelos mais velhos remete ao período de escravidão, porém de forma difusa e genérica, sendo mesmo valorizada em seu discurso a liberdade e autonomia dos negros de Mesquita. Gomes (2007) fala que o passado é representado em múltiplas linguagens com múltiplos sentidos e que a linguagem histórica, mais racional e conceitual, é uma tentativa de reposição dos fatos históricos nos seus diversos contextos temporais. O mito como estória, narração popular coletiva, por sua vez é mensageiro de sentidos esquecidos pela História, entendida como narração de acontecimentos
166
passados. No entanto, o tempo histórico e o tempo mítico podem entrecruzar-se num mesmo tempo: o tempo do sentido.
Entre os mais antigos e as novas gerações encontra-se o “tempo do Aleixo” que caracteriza-se pelo apogeu político, econômico e social do Quilombo de Mesquita, quando, através da agricultura, criação de gado e produção de produtos tradicionais, a comunidade de Mesquita tornou-se autônoma em seu mais auto grau, capitalizando para si, principalmente na figura do patriarca Aleixo Pereira Braga, melhorias estruturais como a vinda para a comunidade de professores de fora e construção de escolas e até mesmo possuindo certa influência política frente as instâncias decisórias e jurisdicionais da região.
O terceiro período histórico relevante para os mesquitenses diz respeito aos dias atuais, que são resultado da decadência advinda depois do tempo do Aleixo e principalmente pós-construção de Brasília. Este tempo representa a “fraqueza” econômica, a baixa auto-estima e a desagregação social da comunidade, causadas pela invisibilidade e marginalidade as quais o grupo foi submetido, através das novas regras, posturas e códigos impostos pela chegada dos novos atores sociais na região e o estabelecimento das relações capitalistas na produção e no próprio modo de viver dos mesquitenses. Lembrando que a história dos tempos atuais possui desdobramento no sentido em que a comunidade vem se organizando para reverter a atual situação de decadência e dependência e ressurgir para os novos direitos adquiridos.
167
As gerações intermediárias entre o tempo dos heróis fundadores, o tempo do Aleixo e o tempo atual são relegadas como coadjuvantes habitando um “limbo estrutural”.
E interessante ressaltar outro aspecto da memória coletiva dos mesquitenses: nos relatos dos mais antigos a época da escravidão é omitida ou vagamente citada, sabem que são descendentes de escravos ou ex-escravos, porém tratam do assunto de forma velada. Nesta construção da memória ocorre o mesmo mecanismo seletivo inerente à memória genealógica ou do parentesco, ou seja, converte-se ou reconstrói-se o passado nos termos dos valores e necessidades ideológicas do presente. O que se tem como passado deve ser apresentado em público de forma adequada, se algo não interessa ser lembrado deve permanecer oculto no passado. O período da escravidão remete a uma época de total sujeição e dependência dos contingentes negros e por conseqüência dos antepassados da comunidade de Mesquita, e, dessa forma e de acordo com os princípios ideológicos dos mesquitenses (que, obviamente, não valorizam tal tipo de situação colonial), não representa uma época confortável de ser lembrada. Assim, o discurso dos anciãos valoriza e realça a liberdade e autonomia do povoado de Mesquita em oposição ao subjugo do período escravocrata.
Em oposição ao “esquecimento” da época da escravidão os mesquitenses exibem com orgulho seus símbolos de nobreza, tais como fotos com personagens importantes na política local e nacional, bem como objetos que não remetem ao tempo da escravidão como tachos de cobre, facas e arreios decorados.