Com base nas análises desenvolvidas, pode-se caracterizar o
ethos dos enunciadores e a imagem dos adolescentes que a obra
apresenta. Constata-se que a imagem de adolescente que está pre- sente no texto não se aproxima da imagem propalada pelo senso comum sobre a adolescência (que enfatiza o aspecto de revolta e de rebeldia desses jovens) e mantém pontos em comum com o que diz o discurso da Psicologia sobre essa fase.
Segundo trabalhos inscritos no quadro da Psicologia do Desen- volvimento ( Jersild, 1964), o adolescente insere-se em um período da vida marcado pela busca de identidade ou de uma personalidade própria, processo resultante de sua maturação biológica, social, moral, intelectual, vocacional e emocional. Estudos dessa corrente teórica também mencionam a angústia e a insegurança que caracte- rizam os sentimentos adolescentes, resultantes desse processo de construção identitária, agregados também ao ganho de autonomia e responsabilidade inerentes a essa fase.
O adolescente, tal como se pode verificar na obra em análise, não é um rebelde sem causa, um indivíduo que quebra padrões de comportamento e cria suas próprias normas. Ele não se utiliza de uma linguagem considerada tabu, nem foge às regras, sejam elas sociais ou linguísticas.
O modo de enunciar dos enunciadores, isto é, a linguagem que empregam os aproxima da projeção de público a que a obra se des- tina. Muito embora seja recorrente o uso de gírias e expressões típi cas dos jovens, observou-se que as “transgressões” linguísticas são limitadas. Palavras-tabu não são recorrentes, nem há a quebra dos padrões da norma culta da língua, ainda que a linguagem seja marcada pela informalidade. Essas observações corroboram a imagem de adolescente que, apesar de se mostrar com dúvidas e aflições, não é um transgressor ou reformador de normas sociais e dos costumes.
A presença dos marcadores discursivos na obra permitiu identi- ficar a cena de enunciação que contribui para a construção de deter- minada imagem dos enunciadores ou dos fiadores desse discurso sobre a adolescência. As ocorrências dos marcadores discursivos interacionais, que indicam uma relação mais direta entre os interlo- cutores, ou seja, pelos quais os interlocutores se dirigem um ao outro de maneira mais próxima ou íntima, representam, linguisti- camente, uma cena de interação próxima entre os enunciadores, mais propriamente um diálogo, o que imprime ao texto um tom mais informal, próprio desse tipo de interação. Estabelece-se uma conversação entre os dois enunciadores, que mantêm entre si uma relação de amizade, de troca de experiências como um desa- bafo entre dois jovens amigos. Eles não apresentam um distancia- mento entre si, ou seja, não se manifestam como dois especialistas em adolescência que vão discorrer sobre o assunto com base em seus pontos de vista, mas como dois amigos que pensam a adoles- cência em função de suas vivências e de suas observações coti- dianas, por isso sua enunciação é informal e relata os fatos que marcam a vida dos jovens.
Considerando-se esses dados, o ethos dos enunciadores se dis- tancia dos resultados encontrados por Brunelli (2004). Na obra analisada, não se trata de dois enunciadores confiantes e seguros, certos de suas convicções, autocentrados, mas de dois amigos, de duas pessoas próximas e íntimas o bastante para que dividam entre si relatos de fatos pessoais, numa relação sem assimetria entre eles e entre eles e o público-alvo da obra, os adolescentes.
Essa relação de proximidade entre enunciadores e público a que se destinam os aconselhamentos ou as sugestões pode ser consta tada na análise da modalidade deôntica, especialmente nas formas relativas aos participantes a quem se destinam os deveres e obrigações instaurados por essa modalidade. Nessa análise, cons- tatou-se que a autoridade dos enunciadores e o caráter impositivo dos seus enunciados deonticamente modalizados são atenuados, o que indica a relação de proximidade que há entre os enunciadores (e, também, entre eles e o seu público), ou seja, não há uma hierar- quia nítida entre eles, que não se apresentam como detentores de um saber, o que os revestiria de um poder sobre os demais.
Os enunciadores também não assinalam que a resolução das angústias, dúvidas e inseguranças dos adolescentes seja garantida pela crença na capacidade, no potencial deles em solucioná-las, dado, inclusive, o emprego pouco frequente dos modais faculta- tivos, o que nitidamente diferencia essa obra do discurso de autoa- juda para adultos, no qual esses modais são primordiais, dada a tese da crença nas habilidades do interlocutor para que este realize seus sonhos, desejos ou planos.
Por outro lado, a modalização epistêmica é recorrente na obra, muito embora ela se apresente muito mais em exemplos de possí- veis situações em que os jovens se encontram do que nas suas teses sobre o que caracteriza a adolescência e sobre os comportamentos dos jovens. Considerando só esse dado, não se pode afirmar, por conseguinte, que a incerteza seja mesmo um traço peculiar desses enunciadores, em contraste com o homem seguro e confiante obser vado no discurso de autoajuda analisado por Brunelli (2004).
O traço que pode ratificar a postura menos dogmática e/ou doutrinária dos enunciadores e, assim, diferenciar esses discursos, é a presença de evidenciais, em particular daqueles que indicam o falante como fonte da informação e da avaliação de um determi- nado enunciado. Esses evidenciais marcam a dúvida e/ou incerteza dos enunciadores e, por serem marcas evidentes de subjetividade, tornam o discurso menos impessoal, aproximando os interlocu- tores de seus leitores, o público adolescente.