• No results found

Começaremos as nossas considerações fazendo uma comparação entre as ocorrências de estrangeirismos franceses nas duas fases analisadas. O que se observa de mais relevante é a queda significativa no número de ocorrrências. Aceitamos a queda como dado de análise, mas gostaríamos de acrescentar que as decisões metodológicas podem ter relações causais com o evento.

Através da observação dos oito estrangeirismos e fazendo uma somatória de suas repetições, de suas utilizações em mais de um jornal e em mais de um exemplar, chegamos a um total de trinta e cinco ocorrências. Essas ocorrências encontram-se assim distribuídas nos jornais:

A Gazeta (13), Bello Horizonte 2 (9), Folha Pequena (8), O Confederal (4), A Flamulla (1). A

divisão por jornais nos confirma, mais uma vez, o jornal A Gazeta como o maior concessor de estrangeirismos franceses.

No que diz respeito aos contextos de utilização, podemos tentar estabelecer um padrão divindindo os estrangeirismos franceses entre os que ocorreram em anúncios e os que foram utilizados em textos em geral. Das trinta e cinco ocorrências, dezesseis delas, ou seja, quase a metade, foram encontradas em anúncios dos seguintes produtos e serviços: alfaiatarias, salões de cabeleireiro, casas de moda, relojoarias e achados e perdidos.

As outras dezenove ocorrências foram encontradas nos seguintes contextos: textos para chamar a atenção do público para obras de artistas; notas para chamar atenção de atitudes indevidas, como as de policiais, por exemplo; notas sobre melhoramentos em Belo Horizonte, como um centro de atração popular; um texto sobre a época em que Belo Horizonte tinha uma vida mais agitada; textos sobre a chegada e a partida de pessoas importantes da capital, como o Presidente do Estado, um embaixador e uma ilustre personalidade; dois telegramas vindos do Rio de Janeiro que informavam sobre o andamento e o término de grèves. E, por fim, textos sobre acontecimentos na cidade, uma narrativa poética, textos sobre a causa operária e um texto que discorria sobre o casamento e suas consequências.

No que concerne à forma com que os elementos estrangeiros foram grafados, o que se percebe, mais uma vez, é a falta de padronização. Foi muito comum encontrar casos em que o mesmo estrangeirismo foi encontrado ora com itálico ora sem marcas. A falta de padronização, no entanto, foi bem menor do que na primeira fase, pois aqui metade dos estrangeirismos seguiu

158 um padrão. São eles: atelier, gare, grève e paletot. O estrangeirismo gare foi marcado em todas as ocorrências com itálico enquanto paletot não apresentou nenhuma marca. O estrangeirismo

atelier também apareceu marcado em todas as ocorrências, mas essas marcas variaram de jornal

para jornal ou até mesmo dentro do mesmo jornal. Por sua vez, grève apareceu sem marcas em todos os casos, mas houve uma divergência de um jornal para o outro na escolha entre o acento agudo e o grave na sua grafia.

No que se refere à semântica, o que se percebe é que nenhum dos estrangeirismos inovou em relação aos sentidos disponíveis na língua francesa. Metade deles possuía vários sentidos nessa língua e foram utilizados com apenas um deles em português. São eles: atelier, chic, coupé e grève. Outros três estrangeirismos gare, paletot e pince-nez possuíam apenas um sentido na língua francesa e esse foi empregado nos exemplos que coletamos. O estrangeirismo toilette nos surpreendeu nessa segunda fase, pois ele foi utilizado com dois sentidos.

Outros aspectos da análise que se mostraram diferentes dos relacionados na primeira fase foram os campos lexicais. Temos como coincidência apenas vestuário e estrangeirismo não

classificado. Os dez sentidos encontrados nos estrangeirismos franceses da segunda fase ficaram

assim distribuídos entre os campos: vestuário (2); adorno/ornamento pessoal (2); local de trabalho (1); luxo/requinte (1); meios de circulação, de transporte e seus equipamentos (1); espaço público (1); estrangeirismo não classificado (1) e necessidade humana (1). O estrangeirismo toilette foi classificado em campos lexicais diferentes, uma vez que possuía sentidos diferentes e o estrangeirismo pince-nez, por ser um tipo de óculos, foi classificado como pertencente ao campo lexical de necessidade humana, mas também como um objeto relacionado a adorno/ ornamento pessoal.

Quanto à morfologia, mais uma vez temos a predominância dos substantivos. Dos oito estrangeirismos, apenas um, chic, funcionou como adjetivo. Assim como ocorreu na primeira fase, não temos elementos e nem exemplos suficientes para tecer considerações a respeito da flexão de número.

No tocante à possibilidade dos estrangeirismos franceses terem correspondentes em português (apesar de acreditarmos que do ponto de vista do uso não existem correspondentes exatos) quatro deles apresentaram essa condição. Para substituir atelier, chic, grève, toilette (no sentido de vestimenta) foram-nos sugeridas as formas portuguesas oficina, elegante/catita, fazer

159 forma aportuguesada. Para os restantes coupé, gare, pince-nez e toilette (no sentido de se arrumar, se embelezar), não havia unidades lexicais capazes de substituí-los.

Tendo como base os dados sobre a possibilidade ou não da existência de correspondentes em português e a observação do comportamento dos estrangeirismos franceses, tecemos algumas considerações a respeito das razões que explicam o seu empréstimo. Para os que possuíam correspondentes em português, atelier, chic, gréve e toilette, percebemos que o seu uso era uma tentativa de associação com ideias de prestigio e de modernidade e uma forma de fazer referência direta à cultura francesa. Coupé, paletot e pince-nez foram usados, pois designavam objetos novos que trouxeram consigo o nome francês. Outros estrangeirismos como gare e toilette (no sentido de se arrumar) configuravam-se como conceitos novos que também trouxeram o seu nome francês.

Para finalizar, observamos que todos os estrangeirismos franceses utilizados naquele contexto permaneceram na língua. A maioria se aportuguesou graficamente, exceto gare, e alguns deles ainda continuam atualmente sendo usados com a grafia francesa: atelier e toilette. Outros, apesar de pertecerem ao idioma, não são mais tão usados, como é o caso de pince-nez.

RELATERTE DOKUMENTER