É característico da época em que vivemos o rompimento com a maneira de ler e explicar o mundo que adota como referência o conceito de totalidade, de Verdade. Assim, a unidade, a constância, a regularidade, próprias de conceitos voltados à universalização, cedem espaço à diversidade, à descontinuidade, à fragmentação, à multiplicidade e ao efêmero.
A universalidade se concretiza quando, a arte, apesar de ser única e pertencer a um determinado espaço/tempo é reapropriada, reinterpretada em outros espaços/tempos, por outros indivíduos que atribuem novos valores e sentidos àquilo que já existia. Por essa característica, a obra de arte carrega a possibilidade de ser absorvida em outros tempos, tornando-se eterna e universal.
Os elementos universalizantes da tradição são vitais para qualquer cultura, contudo, não devem ser interpretados no seu impulso meramente conservador e anacrônico, mas justamente ao contrário, de seu ponto de vista transformador, quando a partir da reorganização, articula os elementos já existentes a novas formas de associação.
Deve-se ter certo cuidado ao vincular a universalização, em especial quando o assunto é arte, ao sentido de ser acessível à coletividade; isso não garante que a universalização escape à banalização.
Apesar de a obra de arte ter crescente o processo de coletivização, a identificação cega do indivíduo com o coletivo compromete sua capacidade de autodeterminação. O homem atual encontra enorme dificuldade para expressar-se com autenticidade e manter sua singularidade, o que reflete uma maneira de pensar e de se comportar unidimensional.
A respeito do tema, o pensamento de Martins (1998, p.38) revela o que acontece no âmbito social quando a globalização se impõe.
Em nossa contemporaneidade recente, o arrefecimento social da pretensão à Verdade, a falência dos totalitarismos, o descrédito relativo dos universais, instauraram, no lugar das relações universal- particular/parte-todo, relações do tipo local-global, onde o global, não se impondo mais como a verdade do particular, dissemina-se em rede, influenciando localmente os diversos particulares. As tentativas de globalização configuram-se neste novo quadro como tentativas do imperialismo em uma versão contemporânea. Não mais autoritário, propriamente dito, mas inserido e legitimado na democracia; não mais em nome de alguma bandeira, no entanto apresentando-se como único tempo e espaço reais, viáveis. Não mais o universal, pois que a globalização não pretende ser a verdade dos particulares locais - mas apenas a “necessidade” dos locais -, e não exatamente de todos (embora queira ser legitimada pela maioria, visando o consenso e a disseminação de sua ideologia pela sedução) mas de modo a que simplesmente dêem lucro. Não mais a parte e o todo, pois que o global imposto pela globalização se dá por rede, visando atingir ao maior número possível de localidades indiferenciadamente.
A intenção do universal era a de impor-se sobre os particulares, ainda que o fosse contra eles (já que era o universal que sabia a verdade do particular, e não o próprio particular); a intenção da globalização é de impor-se ao particular, apresentando-se como inevitável, procurando convencê-lo disto, seduzi-lo. Ao invés de extirpar ou exterminar a diferença, a globalização pretende excluí-la, pô-la fora do mundo (mas não ao ponto de que ela deixe de permitir e nutrir e propiciar fundos para a própria globalização, posto que sem miséria não há riqueza, sem exclusão não há inclusão, etc.)”. E mais adiante: “não há uma imposição natural do global sobre o local; ao contrário: certo, todo global influencia os locais, mas deles é constituído. Sendo a singularidade uma realidade constitutiva dos indivíduos e das sociedades, o global será sempre o reflexo destas diversas singularidades locais”.
Não é difícil perceber que o objetivo da globalização, na tentativa de alcançar o imperialismo, é a universalização, pois, dessa forma, atingiria todos os seres humanos. Essa perspectiva de unificar o mundo representa a supressão da alteridade.
Cria-se, como conseqüência, uma dependência na ordem social que acentua a subordinação às leis de mercado, que tem por resultado a exploração dos recursos tanto materiais como mentais com seus limites enraizados na progressiva escravização do ser humano.
Particularmente, cada cultura busca universalizar-se no diálogo com outras culturas para ampliar seus horizontes, contudo, é inconcebível uma cultura universal; isso seria um desastre, pois a identidade só se marca com a diferença.
Para Habermas, o ideal está na possibilidade de desenvolver saberes racionalmente aceitos que atendam a diversidade das culturas existentes. O consenso, segundo Habermas (1993, p. 94) requer “instituições racionais, de regras e formas de comunicação, que não sobrecarreguem moralmente os cidadãos, e sim, elevem em pequenas doses a virtude de se orientar pelo bem comum”.
Haverá essa possibilidade se o homem, dono de sua própria consciência, não se deixar dominar pelas leis da produção, assim terá dado o salto “ ‘da necessidade à liberdade’6 ”. Esse salto opera de forma inversamente contrária no
universo da alienação em que as relações são pautadas na fragmentação, na unilateralidade e na falta de consciência sobre a própria existência.
Nesse caminho, é inevitável que a produção do saber seja substituída pela produção de simples mercadoria, passível de troca por papel ou metal.
Paz (1991, p. 54) apresenta uma reflexão sobre as relações dos homens com a cultura e o processo histórico consciente. Para ele,
A técnica é internacional. Suas construções, seus procedimentos e seus produtos são os mesmos em toda parte. Ao suprir as particularidades e peculiaridades nacionais e regionais, empobrece o mundo. (...) Ao acabar com a diversidade das sociedade e culturas, acaba com a própria história. A assombrosa variedade das sociedades produz a história: encontros e conjunções de grupos e
culturas diferentes e de técnicas e idéias estranhas. (...) As grandes civilizações foram sínteses de culturas diferentes e contraditórias. (...) a experiência do outro é segredo de mudança. Também da vida. (...) A técnica moderna operou transformações numerosas e profundas, mas todas na mesma direção e com o mesmo sentido: a extirpação do outro. Ao deixar intacta a agressividade dos homens e ao uniformizá-los, fortaleceu as causas que tendem à sua extinção. (...) Ao preservar as diferenças, preservam a fecundidade da história. Contudo, devemos atentar para que o hibridismo, a mestiçagem e as influências não signifiquem a nulidade de uns em função de outros. A idéia de que a coexistência das diferenças é possível e positiva é defendida por Abdala Junior (2002, p. 174) que não hesita em dizer “...todos não deixamos de ser híbridos ou mestiços...” O que não poderia ser diferente devido à nossa natureza. Isso em absoluto se relaciona à falta de tensão, mas à busca de uma realidade ideal, propensa ao desenvolvimento de práticas livres que descartam a passividade e o preconceito e convivam solidariamente com a diferença.
Tais reflexões iluminam os problemas na busca da igualdade entre os homens. Na idéia de Said (2003, p. 32), a liberdade é defendida como “valor intelectual que necessita desesperadamente de reforço e reiteração”. Essa é uma bandeira contra a submissão e a opressão a que são subjugados os mais fracos, especialmente, em tempos globalizados, de valores alterados pelos interesses do poderio econômico, e representa a luta verdadeiramente libertadora, digna de nossa confiança.
2 LITERATURA COMPARADA, INFLUÊNCIAS E RELAÇÕES