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ER GRENLANDSBANEN ET GODT PROSJEKT?

In document KONSEKVENSUTREDNING FASE 1 (sider 82-0)

Se és fogo, como passa brandamente? Se és neve, como queima com porfia? [Gregório de Matos]

Em todos os contos integrantes do nosso corpus, existem símbolos, a maioria ligados ao universo feminino, que perpassam a espera; como exemplo, podemos citar alguns já identificados nas análises anteriores: vestidos, cartas, saia, capulana, espelho, entre outros. A única exceção à existência desses símbolos é a narrativa em questão; mas, ainda assim, observamos elementos simbólicos que se não podem ser diretamente vinculados à espera, são importantes para a configuração da relação amorosa existente. Estamos falando da água e do fogo, relacionados, respectivamente, à protagonista e à figura masculina.

Na ausência do amado, a personagem é um elemento frio, sem brilho, cuja vida só a(s)cende na presença dele, apresentado sob o signo da luz, do fogo. Ela diz, anulando-se: “Porque eu não sou por mim. Existo reflectida, ardível em paixão. Como a lua: o que brilho é por luz de outro. A luz desse amante, luz dançando na água.” (COUTO, 2009b, p. 53). Contrapondo as imagens da água a de outros elementos, Bachelard nos diz:

As "imagens" de que a água é o pretexto ou a matéria não têm nem a constância nem a solidez das imagens fornecidas pela terra, pelos cristais,

142 pelos metais e pelas gemas. Não têm a vida vigorosa das imagens do fogo. As águas não constróem "mentiras verdadeiras". [...] Tais imagens, ainda que naturais, não nos cativam. Não despertam em nós uma emoção profunda, como o fazem certas imagens, embora igualmente comuns, do fogo e da terra. Como são fugidias, transmitem apenas uma impressão fugidia. [...] A imaginação material da água está sempre em perigo, corre o risco de apagar-se quando intervém as imaginações materiais da terra e do fogo (BACHELARD, 1998, p. 21-22).

As significações da água apontam para o seu grande poder simbólico. Chevalier e Gheerbrant (2012), por exemplo, reduzem para três temas dominantes a sua simbologia: “fonte de vida, meio de purificação, centro de regenerescência. Esses três temas se encontram nas mais antigas tradições e formam as mais variadas combinações.” (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2012, p. 15). No entanto, no conto em análise e similar às considerações de Bachelard expostas acima, a água, associada à imagem da personagem feminina, aparece como elemento instável, fluido, com tendência à dissolução (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2012). Aliás, é importante ressaltar que as imagens relacionadas a ela são todas ligadas ao apagamento, à fragilidade, à dissolução: a água que escorre, a lua sem brilho, a poeira, as cinzas. Já a imagem dele é associada sempre ao brilho, ao fogo: o cigarro aceso, a luz que dança na água. Dialogando com as considerações de Bachelard na obra A água e os sonhos, a água é um elemento mais feminino do que o fogo, mais transitório. Ele afirma que o ser voltado para água está sempre em vertigem,

[...] morre a cada minuto, alguma coisa de sua substância desmorona constantemente. A morte cotidiana não é a morte exuberante do fogo que perfura o céu com suas flechas; a morte cotidiana é a morte da água. A água corre sempre, a água cai sempre, acaba sempre em sua morte horizontal (BACHELARD, 1998, p. 7).

Essas palavras de Bachelard ganham vida, no conto, através da imagem da personagem debruçada na varanda, tonta, acometida pela vertigem e confessando: “Sabem o que descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me entorno e ainda morro vazia” (COUTO, 2009b, p. 53). E, também, recordando o momento da separação, quando anuncia que o seu peito, de tanta dor, “era um rio lavado, escoado no estuário do choro” (COUTO, 2009b, p. 53).

Já no que concerne à personagem masculina, devemos lembrar que o fogo que produz brilho e chama também pode destruir. Na simbologia deste elemento apresentada por Chevalier e Gheerbrant (2012), vemos que, na maior parte das culturas, ele agrega

143 aspectos tanto positivos quantos negativos; ao mesmo instante que tem poder de purificação, também tem de destruição. Na doutrina hindu, que, para os autores citados, incorpora grande parte dos aspectos simbólicos referentes ao elemento em questão, há o fogo “terrestre, intermediário e celeste, i.e, o fogo comum, o raio e o Sol. Além disso, existem dois fogos: o da penetração ou absorção (Vaishvanara), e o da destruição (outro aspecto de Agni)” (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2012, p. 440, grifo do autor). Mais à frente, temos que:

Assim como o Sol, pelos seus raios, o fogo simboliza por suas chamas a ação fecundante, purificadora e iluminadora. Mas ele apresenta também um aspecto negativo: obscurece e sufoca, por causa da fumaça; queima, devora e destrói: o fogo das paixões, do castigo e da guerra (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2012, p. 443, grifo do autor).

Lexikon, no outro dicionário de símbolos que usamos como referência, também discorre sobre tal aspecto negativo, ao comentar que “o fogo também está estreitamente ligado ao complexo de significados simbólicos da destruição, da guerra, do Mal, do diabólico, do Inferno ou da ira de Deus” (LEXIKON, 1997, p. 100).

Evidências dessa simbologia destruidora do fogo acontecem com a personagem, que sucumbe e se anula diante da presença masculina. Na verdade, o que ela apresenta, no início da narrativa, como o ideal de uma relação entre um homem e uma mulher é o contrário do que, de fato, alcança; inclusive, a própria associação aos elementos que estamos discutindo se apresenta totalmente inversa: ela diz que, ao contrário da maioria das mulheres, não quer que seu homem seja sol, mas nuvem, que deseja que ele “exista em marés, no ciclo das águas e do vento” (COUTO, 2009b, p. 51), ou seja, em seu ideal, a figura masculina está associada não ao elemento do fogo, mas aos da água e do vento, desfazendo aquelas simbologias estanques e demasiadamente ocidentais da imagem do homem sempre associada ao poder do fogo e a da mulher à fragilidade da água, embora sejam estas que o conto, através da realidade amorosa apresentada, reafirme.

De toda forma, quer seja associada à água, à luz, ao fogo, à fumaça, ao vento, a relação amorosa entre a personagem e o amado nunca é representada por elementos sólidos, como aqueles ligados, por exemplo, a terra. Dos elementos ar, fogo, água e terra, este é o único que não apresenta correspondente no conto, inclusive, como vimos, o próprio espaço da espera, a varanda, se encontra suspenso, nas alturas. O amor, portanto, aparece como um sentimento frágil, fugidio, efêmero. Desde o primeiro momento, apesar

144 da consumação desse amor, o amado transparece um ar distante e frio. A imagem do cigarro e suas cinzas é o exemplo mais bem acabado, na narrativa, disso, pois, como comentamos anteriormente, assim como ele nunca levava o cigarro à boca, deixando o fumo escapar entre os dedos sem tragar, só pelo prazer de ver as cinzas se espalhando no chão, a mesma indiferença parecia dispensar à mulher; tanto que ela sentia como a “cinza de um cigarro nunca fumado” (COUTO, 2009b, p. 53).

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