As constatações sobre o caos em que se encontram as regiões urbanas do país, nas mais diversas áreas, são flagrantes e não são diferentes em relação à mobilidade das pessoas e bens, intrínseca e imprescindível à existência de uma cidade. Para milhões de indivíduos que diariamente enfrentam grandes desafios ao tentarem exercer o básico direito de ir e vir, essa realidade é perversa, com consequências nefastas a comprometerem a qualidade de suas vidas.
O paradoxo entre os desafios e as oportunidades incutido às diversas questões da sociedade moderna, também se coloca na seara da mobilidade urbana e traz à tona uma reflexão a respeito das diretrizes com as quais, autoridades e sociedade, necessitam se contemporizar, afinal, o desenvolvimento urbano acontece inexoravelmente e, infelizmente, de maneira não muito planejada, ao mesmo tempo em que, o espaço físico e os recursos naturais, limitados e cada vez mais escassos, lançam severas advertências à humanidade.
Apesar dos esforços alçados pelos governantes, constituídos em todas as esferas do poder público, na busca de soluções para a difícil equação, na qual a expansão desordenada das áreas urbanas, somada ao crescente apelo ao consumo de veículos motorizados individuais e elevados ao expoente da precariedade dos transportes públicos, os resultados têm se mostrado ineficazes e paliativos.
Os altos custos inerentes a esse contexto são debitados de todos, mas principalmente daqueles, cuja necessidade, os coloca em um cenário de poucas alternativas para continuarem vivendo nas cidades.
Aos cofres públicos, recaem os custos pertinentes às obras viárias com pretexto de amenizar os congestionamentos, ficam também o ônus provocado pelos acidentes de trânsito e os altos custos para a manutenção viária. Ao setor privado sobram os custos com perdas e a baixa competitividade, à sociedade como um todo, restam as mazelas dos prejuízos à saúde física e mental, além do ônus econômico e a perda crescente da qualidade de vida, já que o meio ambiente sofre degradações continuadamente.
De acordo com Alouche (2008), “o trânsito, o congestionamento e a ineficiência das cidades é uma doença que se não for tratada com firmeza e rapidamente, se tornará um câncer irreversível”.
A maioria dos especialistas afirma que, a solução para a situação caótica da mobilidade nas cidades, passa pela efetiva reestruturação do transporte público, transformando-o no que se pode chamar de, elemento estrurador e integador das possibilidades e necessidades dos deslocamentos urbanos.
Entretanto, a realidade presente aponta para o caminho inverso dessa teoria, isto porque, o transporte público vem perdendo demanda nos últimos anos, face ao aumento da circulação de automóveis e motocicletas.
Como já relatado nesse estudo, o modo operado por ônibus é o maior provedor de transporte público para a grande maioria das cidades brasileiras, cerca de 90% da demanda. Contudo, o transporte coletivo rodoviário apresenta desvantagens tais como: ter que compartilhar as vias congestionadas, já que as faixas exclusivas são privilégio de poucas cidades, causar poluição ambiental e sonora, além de consumir mais energia e contribuir para o desgaste dos pavimentos, gerando custos ao município e à sociedade.
Nas regiões metropolitanas, o transporte ferroviário de alta demanda possibilita a milhares de cidadãos uma opção de transporte mais seguro e pontual em relação ao modo rodoviário. Entretanto, por operarem em vias troncais, a maioria dos usuários depende também de outros modos de transporte para poderem completar suas viagens, o que acaba redundando na utilização do modo rodoviário.
O Brasil, apesar de já ter tido uma grande frota de bondes circulando em algumas cidades em décadas passadas, assistiu à completa desmobilização de sua frota a partir do final dos anos 1950, quando a indústria automobilística começou a produzir os primeiros automóveis no país e as ruas foram gradativamente tomadas pela vedete da época, o carro.
Desde então, a maioria das diretrizes relativas às políticas de mobilidade urbana desenvolvidas no país, foram focadas prioritariamente na ampliação e adequação viária para comportar e facilitar o tráfego dos veículos automotores, especialmente os de uso particular, que vem crescendo de forma exponencial.
Algumas tentativas para a implantação da nova geração dos bondes, denominados por aqui de VLT – Veículo Leve sobre Trilhos foram frustradas, como o caso do Rio de Janeiro na década de 1980 e Campinas, interior de São Paulo, no início dos anos 1990. Fatores como a falta de planejamento e o oportunismo político foram apontados como principais causas do insucesso, essencialmente no caso de Campinas, abordado por esse estudo.
Contudo, em decorrência do bom desempenho que o VLT tem atingido em outros países, alguns governantes brasileiros da atualidade, embalados pelos eventos esportivos que seriam sediados pelo Brasil, buscaram essa opção como parte da solução para os entraves da mobilidade em cidades sob suas tutelas. Assim, alguns projetos e até implementações do VLT, já são realidades no país, conforme demonstrado por essa pesquisa, apesar das controvérsias embasadas principalmente nos altos custos de implantação e operação do sistema e na tese de
que as cidades médias brasileiras não possuem demanda suficiente para custear sua operação e manutenção.
Os casos pesquisados para a elaboração desse estudo demonstram que, o VLT quando inserido em uma política urbana unificada e elaborada de forma bem planejada com objetivos claros de se criar benefícios à sociedade, têm obtido êxito. Entretanto, também demonstram que, a implantação de um sistema VLT não é solução ideal para todas as cidades de grande e médio portes e mesmo onde ele seja indicado, não há como prescindir da sua integração com os demais modos que operam.
É de se esperar que a implantação de um sistema de transporte urbano ainda não consolidado no país, mesmo com histórico de êxito em outras nações, gere opiniões diversas, especialmente por parte dos especialistas no assunto. Não se podem ignorar fatores culturais e socioeconômicos, dentre outros, que tornam peculiar a realidade de cada povo, de cada nação.
Investimentos públicos bem direcionados e parcerias com o setor privado devidamente estruturadas são caminhos a seguir, além de uma busca pela mudança do comportamento de parte da população, para que haja a diminuição do tráfego de veículos particulares pelas vias. Contudo, nesse aspecto cabe citar que, o transporte público que se dispõem, não oferece incentivo a essa mudança, isto porque, não consegue prover eficientemente as necessidades de deslocamentos da população, assim, o círculo vicioso da precariedade se alimenta.
O VLT, ao que se conclui, não surge como uma solução miraculosa para esse embate, mas, indubitavelmente é uma opção a ser considerada que pode ter sua viabilidade constatada ou não, mediante uma análise criteriosa sobre os vários aspectos inerentes à implantação de um sistema de transporte urbano sobre trilhos. Os aspectos mais importantes são: existência de demanda, capacidade de investimentos, retorno financeiro, condições de integração com os demais modos, traçados de vias que contemplem os pontos de maior adensamento e o envolvimento da população para que ela o adote, para que seja contagiada pela possibilidade de um transporte com diferenciais.
Os desafios mais proeminentes à implementação de um sistema VLT no Brasil, conforme afirma Alouche (2008), estão relacionados aos altos investimentos. Entretanto, de maneira mais sistêmica, o que se constata através dessa pesquisa, é que há outros aspectos que se colocam desafiadores, como; a necessidade de políticas urbanas que possibilitem a integração dos diversos segmentos que as compõem, além de planejamentos competentes e decisões políticas que convirjam para os interesses da maioria da população.
Um país em desenvolvimento oferece muitas oportunidades, justamente porque está em desenvolvimento e muito ainda há por se fazer, portanto, implantar ou remodelar sistemas de
transporte público nas grandes e médias cidades brasileiras, mais do que urgente e necessário, é foco de oportunidades. Se forem bem aproveitadas, muitos serão os beneficiados pelos resultados alcançados, nada menos que milhões de pessoas que diariamente se aventuram a se deslocarem por meio do transporte público por todo o país.
Considera-se como limitações desse trabalho, a ausência de dados mais específicos referentes aos projetos em andamento no Brasil, que poderiam ser obtidos através de entrevistas com alguns gestores que estejam envolvidos nesses projetos, ou mesmo pelo acesso a documentos e informações mais detalhadas sobre os mesmos. Embora tenha havido a tentativa de se conseguir dados mais substanciais, especificamente sobre o projeto da Baixada Santista, através de uma consulta à EMTU, empresa estatal responsável pela implantação, o material disponibilizado não contemplou a expectativa.
Em relação às experiências internacionais sobre a implantação de sistemas VLT, a dificuldade foi a de se obter fontes que possibilitassem análises mais específicas sobre algum projeto, portanto, limitou-se a consulta a alguns artigos acadêmicos e relatórios disponibilizados por órgãos gestores dos sistemas de transportes de alguns países, como França, Austrália e Irlanda.
Sugere-se para próximas pesquisas ao tema, uma busca mais direcionada aos órgãos gestores de projetos e implantações, tanto no âmbito nacional quanto no internacional, dessa maneira, acredita-se que a pesquisa poderá obter dados mais consistentes.
Enfim, apesar das dificuldades e limites encontrados na pesquisa, entende-se que os objetivos por ela elaborados foram atingidos de maneira satisfatória. Há que se dizer que a ferramenta utilizada, ou seja, o método Delphi, já bastante consagrado, foi muito importante e atendeu plenamente com os resultados oferecidos.