4. Practical part
4.3 The posters design
4.4.1 Design process and the combination of the elements
Já revisitamos a visão tradicional ou aristotélica da metáfora, como um simples adorno linguístico, próprio da retórica ou da linguagem poética, e discutimos as mudanças pelas quais o estudo da metáfora vem passando desde a metade do último século até a atualidade, ocupando espaços cada vez mais relevantes e se tornando objeto de investigação de muitos teóricos e estudiosos, tanto na Linguística Cognitiva quanto em outros campos do conhecimento, afins ou não.
Também já vimos como Lakoff e Johnson (1980), com Metaphors we live by, publicado em 1980, apresentaram uma proposta baseada em um arcabouço teórico e filosófico de base cognitivista, que, como um reconhecido divisor de águas, tira a metáfora de sua condição de simples figura de linguagem, sem relevância em termos conceituais, para alçá-la à condição de figura do pensamento.
Essa figura, segundo Vereza (2010, p. 204), “[...] é aquela que não só surge no contexto da cognição, mas é em si mesma, responsável por grande parte dessa mesma cognição”. Assim, no tocante a essa nova abordagem da metáfora cujo lócus é o pensamento, Vereza (2010, p. 204) ressalta que
[...] ela não é mais um adorno supérfluo, mas um importante recurso cognitivo usado, não só para se “referir” a algo por meio de outro termo mais indireto, mas, de fato construir esse algo cognitivamente, a partir da interação com outro domínio da experiência. Dessa forma, a metáfora não seria apenas “uma maneira de falar”, mas sim de pensar (ou até mesmo de “ver”) o real de uma forma e não de outra.
Após essa mudança paradigmática, a metáfora passou a ser entendida como ferramenta cognitiva que permite que o ser humano veja e explique suas experiências, em especial aquelas mais abstratas, por meio de outras mais concretas. Assim, grande parte das expressões linguísticas de cunho metafórico usadas na linguagem cotidiana são evidências de metáforas conceituais que as licenciam.
Vimos, ainda, que essa nova teoria foi, ao longo dos anos sendo aperfeiçoada, e que algumas das lacunas existentes foram, gradativamente, sendo preenchidas, à medida que, motivados por essa nova proposta, muitos estudiosos desenvolviam um número cada vez mais significativo de pesquisas. O próprio Lakoff, em 1987, propôs, com base no experiencialismo, uma teoria que se funda nos
97 modelos cognitivos idealizados (TMCI), assim como outros estudiosos tais como: Grady (1997), Johnson (1997), Narayanan (1997) e Fauconnier e Turner (1998) também contribuíram com trabalhos que vieram a compor a Teoria Integrada da Metáfora, consolidada com a publicação de Philosophy in the flesh, em 1999. Mesmo expandida, para vários autores, há muitas coisas ainda nebulosas em relação a questões teóricas, que demandam maiores esclarecimentos, além de aspectos que a teoria não abordou de modo satisfatório.
A partir dos últimos anos da década de 90, várias investigações resultaram em questionamentos e críticas que partiam de pesquisadores que buscavam propor metáforas conceituais para dar respaldo às evidências encontradas e se manifestavam insatisfeitos com os exemplos criados fora de um corpus ou um contexto.
Dentre elas, estão aquelas cujo foco era análise das metáforas extraídas da linguagem em uso, ou seja, do discurso. Tais investigações, segundo Vereza (2010, p. 207), “[...] visavam à utilização de exemplos retirados de usos autênticos da língua e não apenas da intuição do pesquisador.” Vereza (2010, p. 208) ressalta, ainda, que
Felizmente, o cenário atual dos estudos da metáfora, muito voltado para a linguagem figurada no discurso, de forma alguma descarta os aspectos cognitivos inerentes à metáfora. Ao invés disso, procura-se criar articulações sistemáticas entre a cognição e o discurso, ressaltando a inseparabilidade dessas duas instâncias. A metáfora é de natureza tanto linguística quanto (socio) cognitiva, e o discurso promove e possibilita essa articulação e, ao mesmo tempo, dela depende. Dessa forma, o lócus da metáfora passa a ser o discurso, se entendermos esse conceito como o espaço em que aspectos sócio- cognitivos e linguísticos (se é que se pode fazer essa separação) se encontram para tecer a figuratividade, entre outras formas de criação de sentidos.
Ao optar por um estudo da metáfora no discurso, o pesquisador se defronta com seus aspectos multidimensionais e com vários desafios que incluem questões teórico-metodológicas. Assim, com base na necessidade de rigor na análise de aspectos considerados muito complexos, os pesquisadores desenvolvem suas propostas de procedimentos metodológicos, de modo a atender as especificidades do objeto estudado.
98 Esse foi o caso de Cameron (2003, 2007a, 2007b, 2008), do Grupo Pragglejaz (2007), Cameron e Deignan (2009), de Cameron et al. (2009), de Cameron e Maslen (2010), dentre outros, que optaram por desenvolver propostas que objetivam a identificação e análise das metáforas no discurso, no qual não só se articulam aspectos cognitivos e pragmáticos, mas também emergem metáforas.
Essa preocupação em relação à elaboração de uma proposta que preencha os requisitos que o rigor científico impõe está clara na afirmação de Cameron (CAMERON; MASLEN, 2010, p. 77, tradução nossa) de que “[...] o papel da teoria é descrever e explicar os fenômenos sob consideração”37, complementada pela seguinte reflexão de Cameron (CAMERON; MASLEN, 2010, p. 77, tradução nossa) sobre a qualidade de uma teoria:
Uma boa teoria descreve cuidadosa e logicamente, verificando as descrições para sua adequação contra a evidência empírica, e oferece explicações de como os fenômenos vem a ser como aparentam ser e funcionar como o fazem.”38
Por considerar o discurso o lócus da metáfora, Cameron (2003, CAMERON; MASLEN, 2010) propõe um arcabouço teórico alternativo, que está baseado no discurso, para investigar como a metáfora funciona. Tanto a informação quanto a inspiração para elaboração dessa proposta, segundo Cameron (CAMERON; MASLEN, 2010), tem origem na Teoria da Metáfora Conceitual, mas há divergência quanto à metáfora como resultado de domínios conceituais subjacentes ao uso real da metáfora na linguagem, ou seja, como uma instanciação de uma determinada competência que se caracteriza como fixa e pré-existente.
Cameron (2007a) destaca que, para a compreensão da metáfora, o melhor caminho é examiná-la, no seu aspecto dialógico, em pleno uso na linguagem de uma interação social e, para tanto, busca, transdisciplinarmente, na psicologia cognitiva, no sociointeracionismo vygotskiano, assim como no aparato teórico da Análise do Discurso, nas suas várias linhas. Segundo Cameron (CAMERON; MASLEN, 2010), esse caráter transdisciplinar de sua proposta torna-a uma abordagem, um arcabouço teórico, pois investigações baseadas em teorias diversas
37The role of theory is to describe and explain the phenomena under consideration.
(CAMERON; MASLEN, 2010, p. 77).
38A good theory describes carefully and logically, checking descriptions for adequacy against
empirical evidence, and offers explanation of how the phenomena come to be as they appear to be and to function as they do. (CAMERON; MASLEN, 2010, p. 77)
99 podem se desenvolver desde que se cumpram os requisitos necessários, de forma a garantir a compatibilidade teórica.
Destacaremos, a partir de agora, alguns dos aspectos mais relevantes da Análise do Discurso à Luz da Metáfora (CAMERON, 2003, 2007a, 2007b, 2008; CAMERON; DEIGNAN, 2009; CAMERON et al., 2009; CAMERON; MASLEN, 2010). Retomaremos os conceitos de discurso, metáfora e metáfora sistemática, as dimensões em que a metáfora pode se analisada, as noções que se revelam essenciais para a análise, tais como: tema, tópico discursivo, veículo metafórico, dentre outros.
A concepção de discurso adotada nessa abordagem resulta do entendimento basilar dos “[...] fenômenos linguísticos e cognitivos como processos, fluxos ou movimentos, e não objetos.”39 (CAMERON; MASLEN, 2010, p. 82, tradução nossa). Assim, fundada nas teorias da complexidade e dos sistemas dinâmicos, Cameron compreende discurso “[...] como um sistema dinâmico que está em fluxo contínuo e trabalhando em várias dimensões e escalas temporais interconectadas.”40 (CAMERON; MASLEN, 2010, p. 82, tradução nossa).
Por ser o objeto de estudo na proposta de Cameron, conforme referências já relacionadas, não examinada separadamente, mas “[...] no discurso como interação social [...]”41 (CAMERON; MASLEN, 2010, p. 77, tradução nossa), a
metáfora, nessa abordagem, é concebida como “[...] um fenômeno multifacetado, ou talvez fosse mais preciso dizer que a ideia da metáfora engloba múltiplos fenômenos.”42 (CAMERON; MASLEN, 2010, p. 7, tradução nossa).
Outro conceito relevante é o da metáfora sistemática. Segundo Cameron,
Uma metáfora sistemática é um fenômeno discursivo emergente que é produzido quando participantes de um discurso, durante um evento discursivo ou por um período mais longo usam um conjunto específico de veículos metafóricos linguísticos ao conversar sobre determinado tópico, ou tópicos intimamente relacionados. Uma metáfora sistemática não é uma metáfora única, mas um
39[...] linguistic and cognitive phenomena as processes, flows or movement, rather than as
objects. (CAMERON; MASLEN, 2010, p. 82).
40[...] as a dynamic system that is in continual flux and working on various interconnected
dimensions and timescales. (CAMERON; MASLEN, 2010, p. 82)
41[...] in discourse as social interaction (CAMERON; MASLEN, 2010, p. 77)
42[…] a multifaceted phenomenon, or perhaps it would be more accurate to say that the idea
100 agrupamento de metáforas intimamente conectadas.43 (CAMERON;
MASLEN, 2010, p. 91, tradução nossa)
Ressaltamos que as metáforas sistemáticas resultam do cuidadoso olhar do pesquisador, numa criteriosa análise reflexiva que viabilize inferir a emergência dessas metáforas no discurso.
A análise da metáfora discursiva inclui suas várias dimensões: a linguística, a corporificada, a cognitiva, a afetiva, a sociocultural e a dinâmica. Todas essas dimensões são relevantes quando a metáfora é utilizada como ferramenta de pesquisa porque podem oferecer informações sobre como as pessoas pensam, sobre convenções socioculturais por elas adotadas ou rejeitadas, e sobre suas ideias e sentimentos.
Além dos conceitos de discurso, metáfora e metáfora sistemática retomados, são importantes algumas noções básicas para uma maior compreensão dos procedimentos metodológicos adotados na Análise do Discurso à Luz da Metáfora. São elas: dinâmica do discurso, evento discursivo, tema, tópico discursivo, veículo metafórico, mudança metafórica, dentre outras que discutiremos a seguir.
Uma vez que, nessa abordagem, o discurso é entendido como um sistema dinâmico complexo, a dinâmica do discurso é o processo de interação dos diversos sistemas que o compõem, tais como o cognitivo, o corpóreo, o linguístico, o social, o cultural, o afetivo para a compreensão e produção. O evento discursivo é o instante do uso da linguagem, com duração indeterminada, entre dois ou mais interlocutores. As atividades metafóricas podem acontecer em três tipos de sequências temporais de interação discursiva: a sequência temporal microgenética, a sequência temporal do evento discursivo, e a sequência filogenética da história sociocultural.
Como um sistema complexo, o discurso se desenvolve em torno de um ou mais temas, que são os assuntos que parecem caracterizar os tópicos discursivos. Estes são, segundo Jubran et al. (1992), as partes do discurso em que se verifica a participação colaborativa dos interlocutores, estabelecida a partir de uma série de fatores contextuais, que incluem, dentre outros, os conhecimentos
43A systematic metaphor is an emergent discourse phenomenon that is produced when
discourse participants, over a discourse event or longer period of time, use a particular set of linguistic metaphor vehicles in talking about a particular topic, or closely related topics. A systematic metaphor is not a single metaphor but an emergent grouping of closely connected metaphors. (CAMERON; MASLEN, 2010, p. 91).
101 compartilhados, as condições circunstanciais e particulares da interação, as diversas percepções de mundo, crenças e valores, as situações experienciadas por cada interlocutor, assim como aspectos cognitivos, entre outros.
O veículo metafórico é o resultado de uma disjunção de significados que, de acordo com Cameron44 (2007a, p. 118, tradução nossa), decorre de “[...] (1)
a presença de um item lexical (o veículo) que tem um significado que se pode dizer que contrasta com o seu significado no contexto discursivo, e (2) o potencial para um significado adicional a ser produzido como resultado da combinação destes”. Segundo Cameron (CAMERON; MASLEN, 2010), para confirmar a suposição de um termo quanto à sua condição de veículo, dois requisitos devem ser preenchidos: 1) a existência de um contraste ou incongruência entre seu significado básico, e aquele apresentado no contexto discursivo e 2) a ocorrência de uma transferência de sentido, que permita a compreensão do segundo significado (o contextual) por meio do primeiro (o básico).
Os veículos metafóricos, ao longo do discurso, durante o período de desequilíbrio, estão sujeitos ao que Cameron (2008) denomina mudança metafórica, que se explica como um fenômeno da metáfora em uso. Assim, sua literalização (quando um item lexical tem seu simbolismo carregado do seu uso literal); seu reemprego [quando um mesmo item lexical ou outro semanticamente similar é reempregado em outro(s) tópico(s) discursivo(s), ou seja, uma mudança de referência tópica]; assim como seu desenvolvimento ou expansão (quando o mesmo termo é repetido, explicado, exemplificado, contrastado e/ou relexicalizado dentro do mesmo tópico discursivo ou em tópicos conexos) são os fenômenos que ocorrem durante uma interação discursiva.
Para definir a estrutura do discurso produzido pelos participantes no padrão talking-and-thinking (processo dinâmico entre interlocutores que se caracteriza pela inseparabilidade entre linguagem e pensamento, segundo CAMERON, 2003), o pesquisador pode observar três tipos de componentes: as narrativas (relatos de fatos envolvendo os participantes ou conhecidos que emergem durante o evento discursivo); os cenários (relatos generalizados que emergem na interação verbal e se baseiam em fatos); e as estórias circulantes
44[…] (1) the presence of a lexical item (the vehicle) that has a meaning that can be said to
contrast with its meaning in the discourse context, and (2) the potential for extra meaning to be produced as a result of bringing these together. (CAMERON, 2007a, p. 118).
102 (estórias baseadas em fatos reais que emergem durante a interação verbal e passam a servir de exemplo ou referência, propiciando o compartilhamento de estórias emocionantes, dramáticas, relembrando-as e, dessa forma, alimentando seus medos).
Durante a interação discursiva, que apresenta dois níveis (o individual e o da comunidade linguística ou grupo sociocultural), pode ocorrer, por parte dos interlocutores, tanto uma tomada de perspectiva (mudança de perspectiva que indica emergência de empatia no discurso) ou apropriação metafórica (quando outro participante faz uso de um mesmo veículo metafórico em outro tópico discursivo).
Para sua alimentação no Atlas.ti, o discurso a ser analisado tem de ser fragmentado em unidades de entonação. De acordo com Chafe (1994), a unidade de entonação ou entonacional é uma realização hipotética da atividade cognitiva que se manifesta linguisticamente, definição que é reiterada por Cameron (2007a). A unidade de entonação foi adotada como padrão nos procedimentos descritos por Cameron (CAMERON et al., 2009). Dessa forma, cada linha de transcrição equivale a uma unidade de entonação, geralmente marcada pelo fôlego de produção oral, isto é, aquilo que é dito de um só fôlego.
Este é o aparato conceitual para a compreensão dos procedimentos metodológicos adotados para a análise do discurso das mulheres em situação de violência doméstica fundada na visão discursiva da Análise do Discurso à Luz da Metáfora.
Há ainda o Atlas.ti, já mencionado, que é um software utilizado na organização de dados obtidos em pesquisa qualitativa. Esses dados são transcritos e depois alimentados no Atlas.ti, hoje já na sua versão 7.0. O Atlas.ti, como software, segundo as informações constantes no seu manual, oferece um conjunto de ferramentas de qualidade que fornecem ao seu usuário as condições necessárias para procurar, selecionar e analisar informações, assim como para capturar, visualizar e compartilhar descobertas (ATLAS.TI, 2009).
3.2.3 Aportes relevantes das Teorias da Complexidade e dos Sistemas