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3.8 Trace elements from snow samples on glaciers 2017-2020
Vinho Aguardente Arrobe Tabaco Mel Bálsamo Pez Chocolate Maneiras de fazer chocolate
defenda, quem o quer toma-o, sem haver dono que o tolha, que a todos é comum como a água dos rios.
Trigo e milho são sempre a um preço: vale deles uma fanga de dez a doze reais.
Vinho há muito, que se colhe pelo reino, onde há grandes vinhas. Um odre de uma arroba de bom vinho novo vale três pesos de oito reais; o de dois anos vale mais; e quanto mais velho, mais caro custa, e há-os de um ano até dez. Um quartilho vale sempre dois reais. A razão de ser caro é trazer-se de fora por mar e custarem muito os transportes. E assim beneficiam as vinhas, já que, nos lugares onde se colhe, é o vinho assaz mais barato. No lugar onde se criam e colhem, todas as coisas são baratas em todo o Peru. Também há muito bom vinho, que se leva de Sevilha, e custa um quartilho quatro reais. Por um quartilho de vinho do Peru, deitam outro de água, e ainda fica forte, vigoroso e bom.
No Peru faz-se muita aguardente e muito boa, muito vinho de alecrim e vinho cozido, doce, muito lindo. Faz-se muito arrobe, a que se junta marmelos e camoesas, as quais, quando se comem, sabem assim como conserva.
Vontade de comer não há no Peru, que a comida sempre sobeja. Bendito seja Deus e louvado, que tanto bem concedeu àquelas terras.
De tabaco chegam a Lima as naus carregadas, da Nicarágua, Sonso- nate e Realejo, e gasta-se muito em pó e fumo. Vem tabaco de Jaén de Bracamoros, e no Peru colhe-se muito.
Também se traz cera e mel da Nicarágua, muito bálsamo, tacamaca, madeira de Mechoacán, anil e armadilho destas províncias da Guatemala e Nicarágua. E destas terras se trazem muitas naus carregadas de breu para as embarcações e para brear os odres e as pipas de vinho, pois que todo o vinho do Peru é transportado em odres de barro.
O chocolate faz-se do cacau, e junta-se-lhe cravo, canela, pimenta,
achicote e água de cheiro, e há quem lhe deite almíscar e âmbar. É uma
bebida de grande substância, quente, e sustenta muito. Ajuda muito à compleição, faz expectorar, dá boa cor à face, revigora muito o corpo. Quando há necessidade faz engordar a pessoa. É bebida de substância. Também lhe deitam açúcar. Todos os homens ricos e regalados o bebem e com ele se sentem bem com ele. Não há mais segredo do que tomar um pouco de chocolate e desfazê-lo; pôr uma panela com água ao lume, e, por quartilho de água, deitar a quantidade de onze onças de chocolate e açúcar, que fique bem doce (quanto mais, melhor); deixá-lo arrefecer depois do primeiro fervor. Quanto mais quente se bebe, de maior proveito é. Se quiserem meter-lhe um biscoito, não será por isso pior.
Pelas fartas riquezas que o Peru tem e abundância de todas as coisas, umas que produz e outras que vêm de províncias comarcanas e de todos os reinos e partes do mundo. Por isto diz-se quem vai ao Peru, de cem, não volta um, porque, para além da sua grande abundância e fartura,
DESCRIÇÃO GERAL DO REINO DO PERU, EM PARTICULAR DE LIMA 131
Salário
Festas
Azeitonas
há nele poucos tributos, poucos direitos, poucas fronteiras, poucas alca- valas71. Terra bem temperada e onde nunca se viu peste nem males conta-
giosos. As gentes socorrem-se muito umas às outras. Terra que quantos querem trabalhar ganham de comer e onde se dão grandes salários. A mim deram-me de salário, cada ano, nove mil reais, que são, ao dia, vinte e cinco, para estar numa loja de mercadorias. E são muito estima- dos os homens honrados e de confiança. Por estas razões não querem os homens regressar a Espanha – que voltar, em havendo dinheiro, fora coisa fácil.
Em Lima, sempre há muitas festas, grandes procissões com muitas danças e muito estrépito de instrumentos, e com tantas invenções, que em Espanha não há cidade onde façam tantas coisas como em Lima, nem onde aderecem as ruas com mais riqueza. Touros e canas72 jogam-se
todos os meses; comédias e músicas são ordinárias. Nas entradas de vice- -reis, afunda-se a cidade com festas e todos se empenham em mostrar galas. Doutores que são feitos pelas universidades73 há bem que ver neles
e ouvir os seus epigramas. Passeios de cavaleiros e mercadores pelas ruas e ao campo, que todas as tardes campeiam todos a cavalo. Saídas a folgar ao campo, e, pelos hortos, há merendas e banquetes. Abraça-se a glória neste mundo em terra tão temperada que nunca se ouve trovão nem há borrasca nem se molha a planta em todo o ano. Sempre corre um vento (sul), amoroso e fresco, e os campos estão sempre verdes e floridos e as árvores com fruta. Eu tinha um horto defronte do cercado dos índios de Lima, dito o horto do doutor Franco, que era avô da minha mulher74,
onde havia camoesas oito meses no ano, umas em flor, outras verdes, outras maduras, colhendo-se umas, começavam outras, e tinha mil pés de olivais com tanta azeitona que era alegria, e tão gordas como as de Sevilha, há sempre abundância delas em Lima e em todo o Peru, e havia nesta horta todas as frutas de Espanha e do Peru, como vão enumeradas nesta relação, toda a espécie de verduras, sementes e flores, e quanto se
71 Imposto régio cobrado pela Coroa castelhana cuja origem ainda não foi possível
datar. Era um imposto indirecto, cobrado sobre as transacções comerciais internas reali- zadas em todo o espaço da monarquia hispânica.
72 Jogo de canas: jogo de origem medieval que simula uma batalha.
73 À época existia em todo o vice-reino do Peru apenas uma universidade, a Univer-
sidad de San Marcos, fundada pelos dominicanos em Lima. Esta foi criada em 1551, com o nome de Universidad de Lima, que viria a ser alterado em 1574. Apenas algumas décadas mais tarde se estabeleceriam outras instituições de ensino universitário. Existiam, no entanto, na restante América espanhola (não no vice-reino do Peru) outras universidades. De notar que esta política contrastou com a seguida pela Coroa portuguesa, que optou por não fundar nenhuma universidade no Brasil, promovendo a deslocação de alunos para o reino.
74 Esta referência é um dos principais indícios referidos pelo historiador peruano
Guillermo Lohmann Villena para defender a sua posição em relação à identidade do autor (como mencionado na Introdução).
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