Com base nos resultados obtidos, discutimos algumas observações que relacionam a atuação do Despatologiza como alternativa para melhorar o equilíbrio do sistema de marketing de saúde, principalmente no contexto da medicalização e da farmaceuticalização. Consideramos as evidências do Despatologiza em conjunto com a visão dos profissionais médicos sobre esse tipo de organização e ressaltamos que o contato de médicos com organizações sociais parece ser algo pouco comum. Mesmo assim, a experiência profissional desses agentes do sistema de marketing de saúde, que se relacionam com diversos outros, oferece uma visão sobre as relações de troca influenciadas pela medicalização e farmaceuticalização e tentativas de desconstrução desses fenômenos.
Com propósito contrário a esses fenômenos sociais, o Despatologiza se apresenta como um grupo que se apoia fortemente em um saber científico, por meio de uma composição quase exclusiva de acadêmicos e profissionais. Esse tipo de composição pode conferir ao Despatologiza um respaldo no que diz respeito às suas ações, tendo em vista que, como enfatizado pelas entrevistas com médicos, para o profissional de saúde há uma grande importância na prática e no saber científico.
Com efeito, encontramos com mais frequência, na literatura sobre medicalização e farmaceuticalização, a presença de grupos formados por pacientes (ou seus familiares) que advogam a favor ou contra determinada condição ou medicamento (CONRAD, 2013; ABRAHAM, 2010; BARKER; 2008), mesmo que com apoio de especialistas. O Despatologiza é motivado por uma causa em prol de terceiros, similarmente à atuação da psicóloga Leonore Tiefer e colegas (CONRAD, 2007).
Todavia, enquanto Tiefer combate à medicalização da sexualidade feminina, inclusive por meio de campanhas divulgadas virtualmente em um website (www.fsd-alert.org),
o Despatologiza vem tentando abranger seu enfrentamento ao que chama ‘despatologização da vida’. Mesmo assim, é possível observar uma maior identificação do grupo com os temas da
medicalização na infância, na educação e na psiquiatria, muito em função provavelmente da formação profissional dos membros do Despatologiza e das organizações com as quais atua, como o Fórum Infancias e o Libertas.
Outrossim, é visível a busca pela inserção de tópicos mais abrangentes de discussão, tanto nos seus eventos quanto na sua rede social. Sua composição pode ser considerada um diferencial, posto que, ao contrariar o modelo dominante biomédico, há respaldo científico, inclusive por meio de parcerias com universidades e secretarias de saúde, o que pode favorecer a disseminação e implementação de mudanças relativas a práticas e saberes patologizantes.
Em termos de estrutura, baseia-se em um fazer muito democrático, intitulando-se um movimento social. Há uma resistência notável em formalizar o grupo, uma vez que, segundo Ramos (2004), um dos dilemas de organizações da sociedade civil é a manutenção de suas formas associativas de modo que não sejam regidas por uma lógica privatista. Contudo, o fato de se mostrar pretencioso nas ações e no alcance da disseminação da causa de enfrentamento à medicalização, reconhecendo que a discussão que produz é muito impactante para a sociedade, não tem favorecimento pela estrutura que adotou, que pode não ser sustentável a longo prazo. Realmente, um problema das formas organizativas com perfil democrático e participativo é o fato de seu impacto na realidade ser lento (GOHN, 2004) e de muitas delas acabarem se desintegrando (DELLA PORTA; DIANI, 2006). Alguns dos médicos
entrevistados destacaram a necessidade de organizações como o Despatologiza democratizarem o conhecimento, ouvindo diversos atores do sistema de marketing de saúde, de modo que direcione ações concretas.
Apesar de reconhecermos a importância de se absorver vários tipos de conhecimento que possam emergir de diversas fontes, inclusive do próprio grupo, como apontam della Porta e Diani (2006), organizações são importantes para que as pessoas comprometidas com uma causa deem continuidade às ações. Isso tem provocado a transição de movimentos sociais, que se baseiam em redes informais, em organizações de terceiro setor, que são propositivas no atendimento dos interesses da sociedade (GOHN, 2013) e no alcance de melhores resultados que impactem o sistema de marketing em que se inserem. Vemos que os membros do Despatologiza têm se questionado sobre uma possível institucionalização, justamente com o intuito de melhorar sua atuação, diante da proporção que o grupo vem alcançando.
Os discursos dos médicos apresentaram situações pertinentes aos processos de medicalização e farmaceuticalização, ressaltando o papel do consumidor e do médico prescritor, conforme visto no Capítulo 2 desta tese. Desse modo, percebemos que a atuação do Despatologiza contraria um paradigma que parece estar bem estabelecido no contexto do sistema de marketing de saúde, o qual se pauta no modelo biomédico. Isso parece significar que a causa defendida por essa organização é complexa, encontrando resistência dos diversos agentes do sistema de marketing de saúde, inclusive os mais prejudicados pelos desequilíbrios resultantes das relações de troca, ou seja, os consumidores.
Ainda, os discursos dos profissionais médicos reforçam a proposição sobre a atuação de organizações sociais como ação coletiva de enfrentamento à medicalização e farmaceuticalização, para melhor equilibrar o sistema de marketing de saúde. Isso porque, as tentativas desses médicos em descontruir comportamentos medicalizantes dos seus pacientes podem gerar resultados pontuais, uma vez que os próprios consumidores são agentes ativos nos processos de medicalização e farmaceuticalização. Com isso, atendem a consultas já informados sobre possíveis diagnósticos e solicitam explicitamente exames e medicamentos. Diante desse contexto, são necessárias ações de maior abrangência que fundamentem mudanças macro no sistema de marketing de saúde, sendo aquelas realizadas por organizações sociais um meio de se atingir tal objetivo.
Nesse sentido, enquanto movimento, acreditamos que o Despatologiza encontra alinhamento com ONGs que combinam três formas de atuação, segundo Scherer-Warren (2006), sendo uma organização produtora de conhecimento, cidadã e prestadora de serviço,
além de ser ideológica e política. De fato, para Pinto (2006), as ONGs, por atuarem em prol de uma causa, ocupam cada vez mais um espaço na política por meio da representação dos interesses da sociedade civil. Assim, as ONGs são também políticas, sem serem partidárias. Desse modo, entendemos que o Despatologiza, na sua forma de atuação, já pode ser entendido como uma ONG, embora não seja visualizado assim pelos seus membros.
Como movimento social, é possível que as limitações que o Despatologiza apresenta em termos gerenciais, sem que suas ações tenham um planejamento estratégico de alocação de recursos econômicos e físicos, diminuam o alcance da sua atuação para além da academia e o seu potencial enquanto agente para mudança social no sistema de marketing de saúde. Com efeito, há indícios que levam a crer na necessidade de que o gerenciamento das atividades burocráticas que materializam suas ações, considerando que o Despatologiza apresenta crescimento, tanto geográfico quanto ativista, seja elaborado por outras pessoas além dos membros do Despatologiza. Projetos inacabados como as ferramentas virtuais, que são, no contexto social atual, entendidas como fundamentais para organizações sem fins lucrativos, sejam movimentos ou ONGs (GOHN, 2013; MACHADO, 2007), demonstram a fragilidade gerencial do Despatologiza.
Os entrevistados médicos que revelaram conhecer ONGs, embora não tenham experiência com organizações sociais, mencionaram a importância de haver uma gerência que possa abarcar todas as diversas atividades que são necessárias para que uma organização seja bem sucedida em sua missão. Dito isso, entendemos que, ao ser transformado institucionalmente em uma ONG, o Despatologiza poderia buscar maximizar a eficácia de suas ações, atuando por meio de estratégias de marketing, atraindo mais adeptos à causa e utilizando uma lógica instrumental, típicos de organizações do terceiro setor (GOHN, 2013). De tal modo, a atuação do Despatologiza poderia ser mais abrangente em termos do que Pinto (2006) denomina projetos de empoderamento, de maneira a atingir uma mudança efetiva na sociedade. Como movimento social, a atuação do Despatologiza se pauta em dois eixos principais: científico e político. No eixo científico promove o conhecimento acerca das temáticas relativas à despatologização e à formação de profissionais, ampliando a oferta de práticas não medicalizantes. Essas ações foram sugeridas pelos profissionais médicos como sendo importantes no contexto em que o Despatologiza atua.
Portanto, educar a população e trabalhar a formação sobretudo de estudantes das áreas de saúde são os meios que os médicos entendem ter mais importância para desconstruir aspectos dos fenômenos de medicalização e farmaceuticalização, de modo que resultem em relações de troca mais equilibradas dentro do sistema de marketing de saúde. Nesse sentido,
reconhecemos que o Despatologiza necessita ampliar suas ações de divulgação, educação e formação, podendo atingir mais facilmente esses objetivos, por meio da aplicação do marketing de organizações sociais (COSTA, 2015) em sua gestão ou por meio de ações de marketing social, com foco em mudança de comportamento social.
Ainda, os membros do Despatologiza trabalham no que chamam de eixo político, mediante elaboração e acompanhamento de implementação de políticas públicas que regulem a comercialização de medicamentos que possuem graves efeitos adversos. Consideramos que por meio de ambas as frentes de atuação, o grupo impacta positivamente na sociedade. Contudo, acreditamos que, ao ser transformado em uma ONG, o Despatologiza tem potencial para ampliar sua atuação, repercutindo de maneira mais abrangente e consistente no enfrentamento aos fenômenos da medicalização e da farmaceuticalização que influenciam o funcionamento do sistema de marketing de saúde, justamente por que a institucionalização pode favorecer a profissionalização do seu gerenciamento.
Com efeito, acreditamos haver indícios na caracterização de atuação do Despatologiza que demonstram que, enquanto movimento social, o grupo possui maiores desafios na sua adesão, no que diz respeito à organização em torno das suas ações e à gestão mais voltada a maximizar a eficácia de seus recursos. Ademais, essa proposição é condizente com a constatação de Gohn (2013) de que muitos movimentos sociais são transformados em ONGs, posto que há uma necessidade de grupos da sociedade civil se institucionalizarem para que consigam alcançar seus objetivos de atuação.
Isso, consequentemente, pode aumentar o potencial de atuação da organização dentro do sistema de marketing de saúde, como agente de mudança e empoderamento social. De fato, na perspectiva do macromarketing, as intervenções alternativas devem resultar em relações de trocas capazes de melhor equilibrar os sistemas de marketing (LAYTON; GROSSBART, 2006).
Argumentamos que ONGs podem produzir resultados dentro dos sistemas, por meio de ações eficientes, que permitam o acesso a bens, serviços, experiências ou ideias que sejam um reflexo dos interesses daqueles que estão recebendo as externalidades negativas decorrentes dos processos de troca. Na perspectiva do macromarketing, ONGs propositivas, que atuam estrategicamente, por meio de lógicas instrumentais, racional e mercadológica (GOHN, 2013) apresentam um modelo organizacional mais eficiente, pois os recursos podem ser mobilizados em direção a ações que representem melhor equilíbrio aos sistemas de marketing, com enfoque em prestação de serviços, projetos planejados estrategicamente e parcerias com o Estado e com empresas da sociedade civil (GOHN, 2011).
Consequentemente, destacamos duas conclusões no que concerne à atuação de organizações da sociedade civil como atores dos sistemas de marketing, a partir dos resultados do caso Despatologiza. Primeiramente, entendemos ser o modelo organizacional
burocratizado mostra mais apropriado para grupos formados pela sociedade civil, especialmente no formato de ONGs, dentro da perspectiva do macromarketing, que pressupõe que ações alternativas influenciem processos de troca mais equilibrados.
Como segunda conclusão, colocamos que, dentro da concepção de equilíbrio, a
atuação das ONGs, como agentes ofertantes de bens, serviços, experiências ou ideias, tem a capacidade de influenciar os efeitos distributivos do funcionamento dos sistemas de marketing (LACZNIAK; MURPHY, 2008), ao buscar dirimir os desequilíbrios entre benefícios e encargos que são direcionados para determinado agente. No escopo dessa tese,
identificamos que organizações que visam discutir sobre medicalização e farmaceuticalização, influenciar políticas públicas e criar projetos de empoderamento diretamente para a sociedade com vistas a minimizar os impactos desses fenômenos podem ser consideradas como potenciais agentes que buscam alternativas para promover equilíbrio ao sistema de marketing de saúde.
Ainda, para que atinjam o sistema de forma macro, fica evidente a importância das redes interorganizacionais (SCHERER-WARREN, 2006) que atuam dentro de um contexto, como o da saúde, buscando estabelecer alternativas ao sistema de marketing. Com isso, é possível formar parcerias que gerem resultados mais abrangentes e eficientes, conforme ilustrado pelo caso do Despatologiza, ampliando o papel das ONGs como instrumentos de fortalecimento da sociedade civil (PINTO, 2006) e como agentes de empoderamento dentro dos sistemas de marketing (SUD; VANSANDT, 2011). Por fim, consideramos que a aplicação do marketing de organizações sociais (COSTA, 2015) é um meio de tornar a atuação das ONGs mais eficiente na contenção das externalidades negativas do funcionamento do sistema.
3.4 Contribuições para alternativas de equilíbrio do sistema de marketing por meio da