As protagonistas e outras personagens femininas de Rachel de Queirozestão na esteira da nova mulher já esboçada no final do século XIX como imprescindível para o século XX, porém há nelas um tempero que foge ao que houvera sido idealizado como convencional. Buscam a liberdade pela independência financeira, por isso não são cerceadas em seu espaço físico, mas no que tange ao aspecto psicológico, há
consequências dessas conquistas. São mulheres que fazem o movimento de ir e vir do espaço rural para o urbano, decidem seu futuro e se inserem no mundo masculino não como um espelho do homem, mas usufruindo da mesma liberdade. Para chegarem à transgressão necessária, elas precisam se transmutar, e para fazerem essa mudança rumo à identidade própria, precisam fazer escolhas que as levam à solidão.
Buscando o conceito de transmutação e transgressão, encontramos as seguintes acepções:
Transmutação: s.f. 1 ato ou efeito de trasmutar(-se); transmudação, transmudamento. 2 FÍS. NUC. Qualquer reação nuclear que transforme um nuclídeo em outro. 3 GEN. Formação de uma nova espécie através do acúmulo progressivo de mutações na espécie original [...]
Transgressão: adj. s.m. 1 ato ou efeito de transgredir 2 GEOL. Avanço do mar sobre áreas litorâneas, em virtude de elevação do nível do mar ou de movimentos de afundamento da zona costeira. ETIM lat. Transgressão ônis ação de passar de uma parte a outra, de atravessar, violação, infração (HOUAISS, 2009, p. 1868-1869).
O conceito de transmutação explica o que ocorre, progressivamente, com as protagonistas aqui analisadas. Conceição é a primeira que não se casa, que não busca a felicidade através da maternidade biológica e da realização amorosa, deixando essa contribuição às demais que virão de 1930 a 1992. É essa voz que emerge de longe que irá, de romance a romance, aperfeiçoando a capacidade das protagonistas de lutarem por suas convicções e tornarem-se mulheres que se libertam do estereótipo feminino, assumindo suas ideias, chegando a Maria Moura que também não se faz mãe biológica, mas que acolhe ao filho de Marialva como sendo filho, tornando-o seu herdeiro. Ela é a que realiza a maior de todas as transmutações e transgressões.
A transgressão a que todas se dedicam é a mesma: não se submetem aos papéis preestabelecidos pela sociedade na qual estão inseridas. Cada uma, a seu odo, ai dize do o a uest es ue e igi a e ai da e ige da ulhe a anulação de seus sentimentos e de suas vontades em favor do masculino. Para melhor compreender como isso se faz na teia textual de Rachel de Queiroz, vamos buscar, em cada obra, essa protagonista transmutada e transgressora.
Co Co eiç o a auto a i i ia sua gale ia de pe so age s ue o a eita o desti o de ulhe , pois opta po i e fo a das eg as do pat ia ado GOMES, 2010, p. 45). É professora e intelectual cujas leituras estão distanciadas daquelas
típi as do i te esse fe i i o de sua po a. Pa a ela, os li os [...] e a elhos companheiros que ela escolhia ao acaso, para lhes saborear um pedaço aqui, outro além, o de o e da oite OQ, 2000, p. 8). Havia as leituras socialistas que lhe t azia a uelas ideias j se te iadas pela a o o i o u s: – Esta menina tem u as ideias OQ, , p. . Ai da se a e tu a a a es ita [...] de u li o so e pedagogia38. Rabiscara dois sonetos, e às vezes lhe acontecia citar Nordan ou o Renan da i liote a do a OQ, 2000, p. 10).
No contexto social nordestino não havia espaço para uma mulher leitora de livros socialistas e escritora; o espaço da mulher era o da casa, e isso era indiscutível. Toda ia, Co eiç o ti ha i te e dois a os e o fala a e asa 39 (OQ, 2000, p. 10). Pa a a a , essa opç o ia al das uest es so iais, lassifi a do o o u aleij o a escolha da neta (OQ, 2000, p. 10).
O perfil ideológico da personagem vai sendo construído ao longo da narrativa, o fi a do a posiç o de esist ia assu ida po Co eiç o, ue e usa o desti o de ulhe de ue os fala El dia Xa ie , e Declínio do patriarcado: a família no imaginário feminino (1998, p. 35), prenunciando a resistência feminina que viria/tentaria vir nos anos subsequentes. É uma personagem que está em movimento entre Quixadá – o espaço do sertão – e Fortaleza – o espaço urbano. Contudo, mesmo no espaço urbano, há o movimento rumo ao sertão ao se dedicar, voluntariamente, ao trabalho no Campo de Concentração40, local que recebe os refugiados da seca, que chegam com a esperança de encontrar no ambiente citadino o refúgio e a salvação. O interesse pelas questões sociais é um ponto que diferencia a personagem, que será trabalhado em Noemi, cujo engajamento vai além do social, transportando-se para o âmbito político. A capacidade de movimentar-se, aliada à preocupação social, são os a gu e tos ue Ca los Mag o Go es, o a tigo A aula de alte idade e O Quinze (2010, p. 49), utiliza para afirma a alte idade da pe so age Co eiç o: Saía de asa
38 É interessante destacar que Rachel foi responsável pela edição de alguns livros didáticos, tais como
Meu livro de Brasil, volumes 3, 4 e 5, em coautoria com Nilda Bethlem, pela José Olympio/Fename/MEC,
1971 (R.J), e Luís e Maria (cartilha de alfabetização para adultos) em coautoria com Maria Villas-Boas Sá Rego, pela Lisa, 1971 (S.P).
39 Para a época, uma mulher com essa idade ainda solteira era algo incomum, pois a tradição era as
mocinhas se casarem entre 14 e 18 anos.
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Nesse quesito, Rachel inova ao inserir na personagem o gosto pelo trabalho voluntário, ideia moderna para o ano de 1915, e ao usar a expressão Campo de Concentração, termo largamente encontrado na mídia no período da Segunda Grande Guerra, para significar espaço de confinamento dos judeus.
às dez horas e findava a aula às duas. Da escola ia para o Campo de Concentração, au ilia a e t ega dos so o os (OQ, , p. , lo al ue e a [...] nomeado por muitos co o o u al da fo e OQ, 2000, p. 136).
A resistência de Conceição ainda se manifesta na descrença religiosa, pois deixa de i issa pa a fi a le do a espeito da uest o fe i i a, da situaç o da ulhe na sociedade, dos direitos materiais do p o le a [...] OQ, 2000, p. 131). Decidida a fazer outras escolhas, mostra-se adu a o sufi ie te pa a e te de ue ua do a gente renuncia a certas obrigações, casa, filhos, família, tem que arranjar outras coisas com que se preocupe... Senão a vida fica azia de ais... [...] OQ, 2000, p. 131).
O cuidado com o bem-estar alheio preenchia a vida de Conceição. Nesse trabalho, ela encontrou-se com Chico Bento e sua família, que chegaram arrastando- se, esfarrapados, contabilizando as perdas, mais mortos que vivos e, com eles, reviu o afilhado, filho do asal: – Este é o meu afilhado? [...] Virgem Maria! Como foi que um bichinho destes agüe tou! S ilag e! OQ, 2000, p. 89).
O encontro é fundamental para se consolidar a transgressão de Conceição, pois, torna-se mãe mesmo sendo solteira, opta pela adoção do afilhado, o que é também uma demonstração de resistência. Ela não se acha mãe de Duquinha, mas sente-se ealizada po [...] dize ue iei u filho OQ, 2000, p. 149). O papel social que assume, entretanto, não a satisfaz plenamente. Percebe-se isso ao observá-la em dis u so di eto: [...] as i pa a i e s OQ, 2000, p. 148). E declara, em seguida, em dis u so i di eto li e o la e to da es olha: Se ia se p e est il, i útil, s ... Seu coração não alimentaria outra vida, sua alma não se prolongaria noutra pequenina alma... Mulher sem filho, elo partido na cadeia da i o talidade... OQ, 2000, p. 156).
Conceição realiza-se no plano pessoal através de Duquinha, contudo sua realização maior é no que tange à questão humanitária ue a o e: Este o es olhi, doutor. É porque é eu afilhado OQ, , p. . Essa postu a e pli a [...] a maternidade social de Conceição [como] fruto de sua alteridade, de sua preocupação com o outro, por isso ela pode ser vista como uma personagem feminina fora de uma fa ília t adi io al ao opta po ia o afilhado [...] GOMES, , p. . N o obstante, temos uma personagem que se preocupa com ela mesma e com o outro, projetando-se, po ta to, [...] o o a p i ei a p otago ista hí ida da história da auto ia fe i i a asilei a GOMES, , p. .
O olhar da personagem para fora de si, tecido pela autora, reforça a importância da obra, pois coloca a voz do outro em evidência – condição que, até o romance de Rachel, não havia acontecido na Literatura Brasileira em obras cuja autoria fosse feminina41. O referido recurso pode ser notado principalmente nas obras de Lygia Fagundes Telles e Clarice Lispector42, na década de 1970. Cito essas autoras e seus respectivos romances, mas acredito que outros autores também possam ter usado o recurso. Contudo, as duas escritoras são expoentes da literatura brasileira e confirmam a importância de se trabalhar o olhar da personagem para além de si. Curiosamente, as demais protagonistas não terão filhos, não deixarão a marca de sua descendência. Apenas Maria Moura também terá um herdeiro, materializado na figura de um afilhado, como ocorreu com Conceição.
Outro aspecto que corrobora a lucidez e a transgressão de Conceição é a sua relação com o amor, imprópria para a formação educacional da mulher do seu tempo. Embora apaixonada pelo primo Vicente43, símbolo de resistência à seca, tipicamente sertaneja, ela não se deixa envolver. O que pesa na relação entre eles é a diferença cultural, que Conceição enxerga com muita lucidez, conforme se observa nesta passage : Nu ele o ais fo te, t o fo te ua to u a o se ti a, foi-se aparecendo a diferença que havia entre ambos, de gosto, de te d ias, de ida . (OQ, 2000, p. 78-79).
Ter essa certeza não era comum para uma mocinha do início do século, cujos valores se pautavam na formação da família no espaço do lar. Assim, por seu engajamento social e pela lucidez em relação à vida individual, Conceição é uma personagem pioneira. Essa postura – dizer não ao casamento e sim à maternidade social – torna-a a primeira personagem política de Rachel. Dessa forma, afirma Carlos Mag o Go es: Esse to de politizaç o da pe so age e de sua oposiç o ao casamento tradicional abre um leque de possibilidades para o imaginário da mulher ao
41 Há exemplos de textos masculinos da Literatura Brasileira que realçam a voz do outro, tais como o
escravo em O Mulato, de Aluísio de Azevedo, em crônicas de Machado de Assis, e o índio em poesias de Gonçalves Dias, dentre outros.
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Nos romances As meninas (1973) e A hora da estrela (1977) (GOMES, 2010, p. 53).
43 A inspiração para a criação de Vicente vem do primo Celino por quem Rachel fora apaixonada na
propor a maternidade social como um lugar autêntico para a personagem t a sg esso a GOMES, , p. .
O engajamento político e social é transmutado para Caminho de pedras, que e e e o o e de o a e p olet io po pa te da íti a lite ia asileira. A mesma crítica define o romance como ineficiente por pertencer a esse segmento. Ne to Sa paio, po e e plo, e sua ese ha afi a ue Caminho de pedras [...] chegou atrasado justamente porque esse capítulo de greves, de exaltações antiburguesas, de a siedades os o itas, de p oleta izaç es o o [pi haç es] os u os, oleti s so o osos, o o e e ais SAMPAIO, , p. . A f ieza do comentário em relação à obra despertou outros críticos importantes, como Almir Andrade, que, em resenha, deu o seguinte parecer:
O acolhimento que fez a crítica ao último romance de Rachel de Queiroz contrasta de modo curioso com o acolhimento feito às obras anteriores. Ouvimos acusações as mais disparatadas e ridículas [...] Não se limitam eles à tentativa risível de criar escândalo em torno do romance: chegam a ferir a própria romancista, condenando-a à decadência e ao esgotamento da sua capacidade literária (ANDRADE, 1937, p. 275).
Al i A d ade apo ta os defeitos do te to e ata e te o ue se efe e ao fato de o livro ser proletário:
A parte proletária do romance, especialmente, fica muito aquém daquilo que a sua autora já deu sobejas demonstrações de poder realizar. Sente-se que Rachel de Queiroz teve necessidade de unir esse tema ao corpo do romance, e que essa necessidade se lhe impôs de modo imediato, sem esperar pela verdadeira inspiração (ANDRADE, 1937, p. 275).
Cu iosa e te, ao te ta apo ta defeitos da o a , ele, a e dade, a e ta. O li o de Ra hel o u o a e p olet io, pois pouco se mostra da vida cotidiana do operário e absolutamente nada de sua eventual purificação pelo sofrimento. O operário que aparece no livro é aquele que participa de organizações políticas de es ue da BUENO, , p. .
O operário representado não tem a ideologia que o legitima, mas é desconfiado e hostiliza aqueles que se aproximam e que não estão, no dia a dia, no front da luta. O trecho recortado ilustra a questão:
Repetiam a toda hora os camaradas, afetavam uma simplicidade excessiva, que chocava os outros, os de tamanco, cheios de preconceitos e convenções. Pois a simplicidade, longe de ser um atributo dos humildes, é um artifício de requintados que a plebe desconhece. Depressa essa diferença cavou divergências. Os tamancos entraram a hostilizar os gravatas, a desmascará-los, a exigir que se proletarizassem. O preto Vinte-e-Um chefiava a esquerda, e os gravatas se fechavam num círculo aristocrático que chegava a incluir o próprio Filipe, expulso do meio dos obreiros por intelectual e burguês. Dos da rodinha, só Paulinho, o ferroviário, tinha entrada entre os tamancos. Samuel também cortejava os operários e exagerava a sua proletarização. Deu até para andar de fundilhos rotos, de camisa de mescla. Pontificava e, por causa dessas concessões, era ouvido (CP, 1990, p. 37).
Se não é um romance proletário, o que a obra apresenta que seja passível de reflexão? Por que Rachel escreve uma obra em contexto cuja tônica não seria proletária? Acredito que não tenha sido engano ou displicência, simplesmente, por parte da autora. Se buscarmos resgatar as dificuldades da publicação de João Miguel
, tal ez e o t e os, aí, u a pista pa a as i te ç es de Ra hel44.
A experiência da autora no Partido Comunista, de certa forma, é transposta ao personagem Roberto, que participou do triângulo amoroso entre Noemi e João Jacques. Roberto é o intelectual que chega do Rio com a missão de criar em Fortaleza uma célula comunista e lá encontra a rudeza, a desconfiança e a indiferença dos operários. Nas reuniões, os trabalhadores tolhiam-no, não lhe dando oportunidade de falar, o que ilustra bem a experiência de Rachel, cuja intelectualidade não fora devidamente valorizada por parte do partido. Fica evidente a neutralidade e, por que não, o estado de ostracismo a que se submetiam os intelectuais em relação à massa trabalhadora. Dessa forma, o que se nota largamente no texto é a dificuldade dos a a adas e a eita o i tele tual ue hega pa a i st uí-los e encaminhá-los dentro da ideologia partidária. Rachel, assim como Roberto, não se viu livre para criar, e a questão do cerceamento à sua liberdade criadora foi decisiva para que ela permanecesse ou não seguindo o partido.
Noemi se insere nesse contexto político-intelectual-operário e desponta como mulher que abraça a causa política. Entretanto, a transmutação que incitará Noemi à
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Refiro-me aqui à imposição do Partido Comunista de analisar a obra antes da publicação e de exigir que Rachel alterasse o texto, pois era inadmissível para a cúpula que um operário matasse o outro. A sugestão dada a ela foi que o burguês matasse o operário.
transgressão será a escolha amorosa, que a levará ao abandono da casa, do esposo, da família, e não a escolha política. O divórcio era tabu para a mulher na década de 1930 e seguiu assim até meados do século XX. A questão torna possível a discussão do espaço feminino, pois, por mais que tenhamos avançado, ainda não abarcamos todos os meandros da sociedade e ainda há muito que fazer nesse sentido.
O triângulo amoroso sai da superficialidade e vem à tona na crítica de estudiosos o o Olí io Mo te eg o . Co tudo, o e t elaça e to e t e os dois pla os da o a , de ue t ata Luís Bue o , p. , a íti a ais ap op iada pa a o romance de Rachel, pois há a discussão política aliada à discussão amorosa, que é o ponto forte da obra. Noemi vive um casamento sem emoção com João Jacques, baseado na simpatia pelo marido, sem amor ou paixão. O envolvimento de Noemi com Roberto se dá pela militância política que os aproxima e a encanta. O marido é um ex- militante totalmente desencantado com a causa. Não há, na obra, menção à atuação anterior dele no partido, a não ser que havia sido expulso da organização no Rio de Janeiro45. A revitalização da organização partidária atrai a atenção de Noemi, que já tinha vocação para a ideologia política, mas se sentia inibida pela resistência do marido. Ao se ver inserida no novo grupo, foi atraída por Roberto a participar efetivamente das discussões, que acabam sendo, para ela, a revelação de que ela era:
[...] apenas uma alma livre, ouvindo a história de outras almas livres. Fugira do seu centro habitual de gravidade, perdera a noção do pão nosso de cada dia. Naquele momento, nada era moral nem imoral, nada proibido nem permitido; não havia hora, não havia espaço: só a embriaguez do momento de revelação, das possibilidades de libertação (CP, 1990, p. 45).
João Jacques não apoiava a escolha de Noemi e tentava dissuadi-la de suas intenções. E ela, ao invés de acatar, como era de se esperar de uma mulher da época, mostra suas ideias e o questiona. Participar do grupo dava inspiração a Noemi, tirando- a das atribuições domésticas, tornando-a capaz de sonhar com as questões femininas e com a coragem de outras mulheres mais antigas de lutar pela própria liberdade,
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O mesmo desencanto vivenciado por João Jacques foi experimentado por Rachel de Queiroz, uma vez que foi expulsa do partido no Rio de Janeiro quando publicou João Miguel, contrariando a vontade do partido.
confo e se e ifi a esta pa te da o a: Se tia-se com a cabeça cheia de histórias novas, de mulheres heroicas, livres e valentes. Esquecida, naquele momento, das contingências de sua vida, da disciplina doméstica, da cama comum, da promiscuidade e dos compro issos o algu CP, 1990, p. 52).
É pela liberdade proporcionada pela militância que ela opta por abandonar o lar e viver essa história, mesmo sabendo que a recriminação viria e, o que é mais ot el, se ue se se tisse ulpada: Duas ezes e dois dias um homem se aninhava em seus braços, buscando-lhe o calor e o conforto do colo, depois dos esforços do amor. Ontem o marido, hoje Roberto. Carne fraca e miserável. Ontem um hoje out o CP, 1990, p. 92-93).
O texto marca bem a dificuldade de assumir uma decisão como a que Noemi optou por tomar, pois uma mulher separada era discriminada pela sociedade. Com ela não fora diferente, mesmo os camaradas, pessoas ditas modernas ou revolucionárias, [...] e ge al o de a a Noe i. Ai da e a uito i o, e odas, o terror do adultério. Queriam ser independentes, tinham idéias, mas no fundo do coração tinham horror da coisa ui , do o e feio CP, 1990, p. 102).
Houve quem insinuou que Rachel não poderia discorrer sobre a pobreza ou so e a ida ope ia po de t o , u a ez ue u a fo a e po e, e ope ia. Co tudo, Ra hel o st i e seu te to u a is o po de t o , e o po fo a , pois conhece a relação partidária com a intelectualidade e a vida em uma organização política de esquerda. Conhece também as questões políticas que limitavam as escolhas femininas. Noemi, assim como outras mulheres do seu tempo, escolhe o divórcio e junta-se a outro homem em nome da felicidade. Dessa forma, a protagonista é exemplo de mulher que quebra paradigmas políticos e sociais, portanto uma guerreira dentro do seu espaço46.
Em As três Marias, encontram-se algumas das questões de gênero que mais suscita(ra)m discussões ao longo da história das mulheres no Brasil. Dentre elas, a
46 Patrícia Galvão, que nasceu no mesmo ano que Rachel de Queiroz (1910), publicou Parque industrial
(1933) também não foi operária, mas conviveu com pessoas que conheciam de perto os pátios das indústrias. Era comunista, tanto quanto Rachel, mas nunca foi pobre, muito menos operária.
questão da virgindade, cuja perda de forma inconsequente acarretava discriminação e, à mulher, apenas duas opções: a prostituição ou o refúgio no convento.
Contudo, Rachel foge desse lugar comum, e leva Guta, personagem em questão, à superação do tabu da sexualidade, pois há a entrega a um suposto amor, a perda desse amor e do fruto amoroso, uma vez que sofre um aborto espontâneo. A personagem, contudo, não se esgota dentro do texto, ao contrário, volta ao sertão com esperança de recomeçar sua vida. A narrativa é feita em primeira pessoa, ou seja,