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Certa madrugada de 2015 a Região Metropolitana de Belo Horizonte foi fotografada pela astronauta italiana Samantha Cristoforetti, a partir da Estação Espacial Internacional que ela habitava. A fotografia digital foi publicada em seguida em sua conta no Twitter para a rede internacional de computadores, acrescentando uma singela dedicatória sobre o nome da cidade. De forma reconhecível é possível notar a planta original de Aarão Reis mais ao centro e ao sul como o desenho mais definível dentro da manta iluminada. A metáfora do ―tecido urbano‖ se torna ali mais sensível com as avenidas que se parecem com veias e capilares de sangue, a cidade aparece de noite encarnada em luz; sua cor amarela alaranjada deve-se ao emprego na iluminação pública de lâmpadas com vapor de sódio. A propósito, as fotografias das metrópoles mais povoadas do globo vistas do espaço nos apresentam um espetáculo sideral sobre a Terra, as cidades parecem estrelas, galáxias e nebulosas sobre a escuridão dos continentes: um espetáculo sublime e que ilustra muito bem o termo

Antropoceno. Porém, ao mesmo passo que essas cidades brilham para um observador em

órbita, essa mesma iluminação artificial das cidades suprimem da vista de seus moradores grande parte da luz das estrelas de fato, do faixo da Via Láctea em noites de lua nova, ou as estrelas cadentes e as chuvas de meteoros. Nossa sociedade acesa de noite paga o preço pela comodidade, já não olha para o céu e pode se localizar dentro do universo.

Em 1906 Joaquim Nabuco podia se perder no meio da cidade perguntando ―quando a cidade começa?‖, é sintomático que uma pergunta sobre os espaço construído (por sinal, ainda não construído) se formule a partir de um advérbio interrogativo de tempo, ―quando‖. Ao observar a fotografia astronáutica de Belo Horizonte, recordo-me que é dentro dessa mesma Região Metropolitana, nalgum lugar de seu fundo escuro entre os municípios de Pedro Leopoldo e Lagoa Santa (nas redondezas do Aeroporto Internacional de Confins) onde geralmente foram encontrados os fósseis humanos mais antigos das Américas, de aproximadamente 11,5 mil anos atrás. Luzia, ou o Homem de Lagoa Santa foram

contemporâneos da última glaciação e de animais da megafauna, o mar estava recuado 150 metros de profundidade nessa época, o fim do Pleistoceno. A origem da ocupação do nosso território se perde na noite dos tempos, infelizmente, a história da cidade se funda sempre com o desmantelamento, negação e apagamento da memória do passado: de Belo Horizonte sobre o arraial primitivo, o Curral Del Rey; e esse último sobre os ―selvagens‖ nômades, catadores e coletores.

Porém, atualmente, a pergunta de Nabuco poderia ser reformulada por alguém no século XXI: ―quando termina a cidade, onde a cidade acaba?‖, se sua construção e povoamento são incessantes e por isso a cidade é teoricamente inacabada, em constante mudança, renovação e crescimento. Em cento e dez anos Belo Horizonte cresceu vertiginosamente, para os lados e para o alto, dez vezes mais o que imaginavam aqueles que a idealizaram; distintamente ao seu propósito ela cresceu sem planejamento, guiada geralmente pelos interesses privados e particulares (da especulação imobiliária, das empreiteiras, das necessidades urgentes, dos curtos prazos) em detrimento da criação e preservação de espaços públicos e socializantes, espaços de lazer e de contemplação, descompromissada, improdutiva. Belo Horizonte não é mais vazia, mas inchada, lotada e excludente, uma cidade sem limite nem avenida que contorne, é uma metrópole sublime. Na entrada do sertão se formou um mar de cimento e asfalto, uma ―selva de pedra‖.

O sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão. (mística popular do sertão, atribuída a Antônio Conselheiro)

E o rio de asfalto e gente Entorna pelas ladeiras Entope o meio-fio (Lô Borges)

Fig. 68: A. F., Jesus Christ is Love, 2008.

Fig. 70: A. F., Jesus Christ is Love, 2008..

Fig. 72: A. F., Jesus Christ is Love, 2008.

Gostaria agora de relatar e analisar um outro trabalho também envolvido com a Bolsa Pampulha. Um trabalho que embora tenha sido feito aproximadamente quatro anos antes da

Oferenda do sal, discutida em capítulo anterior, ele parece ser consequência do último. O

movimento de deslocamento que ele opera remonta uma simetria reversa, mas que também traz um ―sacrifício‖ como desencadeador da proposta artística. O sal havia deixado de ser uma mercadoria e foi levado, pelo sacrifício, para fora da esfera utilitária humana, para a natureza. O próximo trabalho que irei comentar, por um sacrifício leva algo sagrado de volta e diluído à esfera das trocas humanas. Na tarde do dia 16 de outubro de 2008 inicie a ação no centro de Belo Horizonte intitulada Jesus Christ is Love. Ela consistia em distribuir o conteúdo de uma Bíblia Sagrada, tendo cuidadosamente rasgadas durante o processo, uma por uma, suas páginas que foram panfletadas aos passantes pela Praça Sete, avenidas, e ruas próximas dali por onde caminhei. A idéia era de diluir o conteúdo textual da Bíblia como um panfleto inadvertido na multidão. Toda a ação foi fotografada por um fotógrafo que usava uma tele-objetiva e se posicionava a uma boa distância, do outro lado da praça ou de sacadas de prédios sem ser visto pela população. Posteriormente as fotos foram selecionadas e editadas por mim mesmo com cortes que nunca mostraram o rosto dos desconhecidos flagrados, apenas seus gestos de receber o panfleto. Estes registros deram origem a um livro de artista que, juntamente com registros das outras ações, foram e expostos no fim de 2008 e início de 2009 no Museu de Arte da Pampulha em mostra coletiva da Bolsa Pampulha.

Esta ação da bíblia possuiu vários pontos semelhantes com Oferenda e outras intervenções. Assim como na praia, o público que por ventura presenciou os acontecimentos desconhecia minha posição de artista, e isto intencionalmente de minha parte. Mais uma vez se trata de documentar uma práxis em vez de uma obra. E essa práxis é mais um ―desobrar‖ que obrar, um fazer desfazendo. Embora a natureza da ação descreva um procedimento extremamente simples, o de panfletar as páginas de um livro, ela envolveu muitos detalhes

que quero narrar e foi feita tendo em vista contextos que merecem ser elaborados, o que pretendo fazer a seguir.