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TORP - FARRISEIDET Felles for konsept 4A og 4B

7 Kulturmiljø

2.4 TORP - FARRISEIDET Felles for konsept 4A og 4B

Como referimos anteriormente, a análise letra-a-letra permite-nos a forma de execução dos grafemas, acompanhando a sequência dos respectivos traços constitutivos; contudo, à excepção de algumas letras características, a análise de grafemas isolados dificilmente proporciona a percepção exacta das diferenças do cânone joanino para a letra que caracterizava o reinado anterior; deste modo, decidimos colocar alguns excertos de textos de letra do reinado de D. Fernando e para podermos fazer a comparação, alguns textos da letra pré-joanina e da letra joanina já canonizada. Os textos usados para este efeito são os mesmo dos quais foram sendo retirados os exemplos das letras, textos que reflectem as carreiras mais longas e o número de documentos produzidos por cada escrivão.

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Estêvão Eanes, AML, Livro II de D. Fernando, doc. 4 (1370)

Vicente Martins, AML, Livro II de D. Fernando, doc. 10 (1375)

Estêvão Domingues, AML, Livro II de D. Fernando, doc. 11 (1376)

- 123 - Gonçalo Lourenço, AML, Livro II de D. Fernando, doc. 20 (1381)

Vasco Vicente, AML, Livro I de D. João I, doc. 2 (1384)

- 124 - ANTT, Ordem de Avis, Maço 5, doc. 464 (1390)

Álvaro Gonçalves, AML, Livro I de D. João I, doc. 52 (1392)

- 125 - João de Lisboa, AML, Livro I de D. João I, doc. 67 (1396)

Gonçalo Caldeira, AML, Livro II de D. João I, doc. 3 (1401)

Álvaro Eanes, AML, Livro II de D. João I, doc. 25 (141

- 126 - Diogo Gonçalves, Sé de Viseu, DR, Maço 1, doc. 33 (1419)

Com os excertos que acima colocámos, verificamos uma ligeira alteração nos documentos partir da década de 80: se tomarmos em atenção o documento Estêvão Eanes, AML, Livro II de D. Fernando, doc. 4 (1370) e por exemplo o documento feito em 1384, ainda antes de D. João ser feito rei, mas já durante a sua regência, verificamos alterações, nomeadamente: na angulosidade da letra, em que o documento de 1384 demonstra mais angulosidade em relação ao da década de 70, em que a letra é mais arredondada; o corpo da letra do documento de 1384 começa a ser um pouco mais fino e mais pequeno que a letra de 70; na mancha do texto: o primeiro documento aparenta ter mais espaço entre-linhas uma vez que o espaço ocupado por hastes e caudas ainda não é significativo como no período que se segue; por outro lado, a nível de espaços de margens, são ainda semelhantes; no documento de 1384 começa a haver uma maior compressão de palavras na linha, chegando por vezes mesmo a estar quase unidas, o que vai acontecer também mais tarde e não era tão visível no documento de 1370; na feitura de algumas letras: o “m” e o “h” mostram mais ostentação nas caudas, com ataques para a esquerda e depois curva para a direita; a letra “g” começa a ganhar também um pouco mais de ostentação, apesar de ainda estar longe da típica joanina; por oposição, letras como o “s” de final de palavra mantém-se, tal como o “r”.

Em 1985, com o início do reinado joanino, esta tendência torna-se cada vez mais forte: se analisarmos agora, por exemplo, o documento ANTT, Ordem de Avis, Maço 5, doc. 464 (1390) em comparação com os dois documento anteriores, denotamos que a já temos a letra “tipicamente” joanina: o espaço das margens, principalmente do rodapé é muito maior, com a particularidade de aparecer a assinatura do rei, algo que começa a ser uma pratica desta altura; a angulosidade é muito mais marcada que em qualquer um dos documentos anteriores, tal como a diminuição do corpo das letras, por oposição das

- 127 - hastes e caudas, já com toda a sua grandeza, ocupando todo o espaço inter-linear; a contracção das palavras em cada linha acentua-se, o que não chega a acontecer no documento de 1370, mas já é visível no de 1384; o aspecto caligráfico está muito mais acentuado, não obstante manter-se a mesma cursividade dos documentos anteriores; o corpo da letra é muito mais fino que nos outros documentos; as letras “m”, “h”, “z” e o “x”, e também “g”, “s” e “r” ganham o seu novo aspecto, com um ductus diferente do documento de 1370: o “m”, “h”, “x” e “z” são semelhantes ao documento de 1384, com o aparato das caudas, enquanto que o “g” ganha a sua nova configuração, sem chegar a fechar a parte inferior da letra, mas sim prolongando o traço da direita para a esquerda;

o “s” de final de palavra é já semelhante a um pequeno “B” e o “r” semelhante a um “2”;

a data no final do documento é já escrita em numeração romana, o que não era comum nos documentos do reinado de D. Fernando e que ainda não era visível no documento de 1384; no documento de 1390, é já visível também uma das principais características que marcam a letra joanina: a letra “v” fica muito semelhante a um “b”, o que não era visível nos documentos de 1370 e 1383; outra mudança visível nos documentos do reinado de D. João I e presente neste documento de 1390, que não acontecia nos documentos de 1370 e 1384, que é o aumento do número de letras maiúsculas a meio das frases; não obstante ser difícil fixar com toda a certeza esta data como sendo o inicio da escrita joanina, o que é certo é que temos factores histórico-políticos que favorecem também este ano, nomeadamente a subida ao poder de D. João I; a acrescentar a esta ideia, temos também o facto de ter havido uma mudança radical nos escrivães que fazem parte da Chancelaria nesta altura; quanto ao Desembargo, se no período entre 1383 e 1385 mantém-se de alguma forma inalterada, esta situação vai modificar-se logo em 1385. D. Fernando contava com um Desembargo de oficiais com curtas carreiras, onde a igreja e os letrados estavam pouco ou nada representados. Existiram contudo alguns nomes do reinado fernandino que se mantiveram no reinado seguinte: foi o caso de Lourenço Eanes Fogaça, que inclusivamente chega a representar o reino em Inglaterra, o qual no entanto não nos surge como uma hipótese de ter sido o mandante para que se usasse a nova letra.

- 128 - Com D. João I surgem no desembargo novos nomes e como refere o Professor Doutor Carvalho Homem na sua tese de Doutoramento160 são novos na ocupação dos cargos, mas novos também em idade, o que lhes permite ter longas carreiras no desembargo.

Também no que diz respeito ao aspecto exterior dos textos verificamos uma alteração a partir de 1385: as margens laterais são visivelmente maiores que as dos anos anteriores, normalmente com valores entre os 4 a 6 cm de cada lado. Também o espaço do cabeçalho dos documentos se torna maior, entre 2 a 4 cm. Mas é no rodapé que se verificam as maiores alterações, sendo que os documentos a partir de 1385 têm sempre uma margem grande, com cerca de 6 até 12cm, o qual inclui sempre a assinatura do Rei, o que até aqui não era verificável. Esta largura aumentada nas margens pode querer significar uma maior importância atribuída aos documentos oficiais e por outro lado uma tentativa de transmitir uma ideia de poder e riqueza da nova dinastia: o pergaminho que é agora usado para escrever um só documento, no reinado de D. Fernando serviria para escrever dois ou três, uma vez que as margens, rodapé e cabeçalho eram muito menores e a própria letra mais encavalitada.

Também o espaço entre-linhas aumenta, sendo que a distância entre os corpos de letra é constantemente superior a 1 cm, espaço que normalmente é ocupado pelas caudas e hastes que também se tornam mais longas com o reinado joanino, demonstrando mais uma vez uma sumptuosidade e aparato, dando simultaneamente um aspecto menor ao corpo das letras. Há de uma forma geral uma maior teatralidade na escrita oficial.

Verificamos ainda que os documentos em escrita joanina têm linhas normalmente mais curtas do que habitual, mas com maior número de palavras por cada linha. Também as linhas caracterizam-se por serem mais direitas e constantes, ao contrário do que acontecia até aqui.

No que diz respeito aos suportes e utensílios de escrita também se verifica uma ligeira alteração: os pergaminhos parecem ser mais cuidados e de melhor qualidade, enquanto a tinta parece ser um tom castanho mais escuro, o que nos permite concluir que há um maior cuidado geralmente posto nos aspectos formais e de formatação dos documentos, em relação ao reinado anterior.

- 129 - Verifica-se uma alteração também na forma de fazer algumas letras, algumas são feitas até com um ductus diferente; as caudas e hastes tornam-se maiores e curvas, nomeadamente o caso das letras m, h e z; aumenta a incidência dos i longos; há uma alteração na forma de fazer os r, que deixam de ser longos a meio de palavras; também os g sofrem uma alteração nesta altura, sendo que a cauda deixa de fechar e alonga-se para a esquerda. Os s de final de palavra tornam-se semelhantes a um B e os r de final de palavra assemelham-se a um 2.

O novo cânone estabelece-se com um corpo de letra menor e mais anguloso, com uma ligeira inclinação da esquerda para a direita.

Logo em 1380 verifica-se uma tendência para aumento de margem e espaço entre-linhas e uma angulização das letras (como os exemplos expostos em cima das letras de Rodrigo Álvares (1380) e Gonçalo Lourenço (1381), ambos do Livro de D. Fernando do Arquivo Municipal de Lisboa), bem como aumento de algumas caudas e hastes, apesar de ser uma letra ainda com marcas do reinado de D. Fernando e alguns traços arredondados, como é o caso dos documentos feitos por Rodrigo Álvares e já durante a regência de D. João I, os documentos de Vasco Vicente, nomeadamente o exemplo que aqui colocámos de 1384.

A partir de 1385 a maioria dos escrivães passa a usar a nova tendência de letra161, apesar de se manterem sempre algumas resistências, podemos afirmar a existência de um novo cânone, uma vez que um grande número de escrivães passa a ter a mesma tendência de escrita, com as mesmas características e inovações durante um longo período de tempo, com a sua formação na segunda metade da década de 80, seu apogeu na década 90 em diante e a sua decadência apenas começa com o Reinado de D. João II, onde se começa a denotar a formação de outro cânone, a escrita manuelina, o qual no entanto não podemos especificar datas dado que o nosso estudo documental fica-se pela época de apogeu.

A escrita joanina caracteriza-se por ser uma escrita cursiva, apesar de ter uma aparência caligráfica, a sua inclinação para a direita denota a rapidez com que seria feita.

161 Ver no Anexo 1.7, o gráfico com amostragem do número de documentos com várias letras na década

- 130 - Verificamos ainda, e de acordo com o que o Professor Borges Nunes refere no

Álbum de Paleografia162 que o novo cânone joanino poderá ter recebido influências da

escrita Bâtarde, devido às relações políticas e diplomáticas que se faziam sentir na época, mas também denota algumas influências da escrita gótica, nomeadamente no aspecto de algumas letras e na forma como são feitas.

Apesar de se generalizar na Chancelaria Régia, a escrita joanina também vai sofrer algumas resistências por parte de alguns escrivães, fazendo por vezes uma letra menos angulosa e menos direita que o cânone usado pela maioria. A própria letra de João de Lisboa, não obstante ser joanina, denota alguma divergência da maioria das letras que conseguimos encontrar para este período. Também Diogo Gonçalves, que começa a surgir já no fim da nossa pesquisa, parece ter uma letra mais descuidada, apesar de ser na mesma joanina pelas suas características e letras próprias.

Como veremos mais adiante, a letra joanina não se deixa influenciar pelo tipo de documento que está a ser escrito: não há uma relação directa escrita-tipologia, sendo que todos os tipos de documentos são feitos em escrita joanina e por vezes os escrivães que denotam resistências escrevem tipos de documentos que também aparecem com escrita joanina.

Apesar de fugir um pouco do âmbito da nossa análise, não deixa de ser importante referir outras questões que podem influir no cânone usado: verificamos que desde 1378 aparecem documentos escritos com o cânone joanino quando são em latim e de conteúdos eclesiásticos. É o que acontece com o tabelião público em Lisboa, João Rodrigues (III), que escreve frequentemente este tipo de documentos, com cânone joanino, apesar de o espaço entre linhas e margens não ser o mais comum nos documentos régios com letra joanina:

162

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ANTT, Ordem de Avis, maço 6, doc. 605, 1396

Por oposição, durante a recolha de documentos que fazíamos, por vezes íamos verificando os documentos particulares, onde detectámos que os tabeliães, só na época já de apogeu do cânone na Chancelaria Régia, é que começam a ter uma tendência para angulização da escrita, começando a denotar-se a influência do cânone primeiro nas cidades de Lisboa e Santarém.

Nesta época, os escrivães, notários ou tabeliães capazes de redigir documentos em latim seriam já provavelmente uma minoria, integrando a camada mais culta da sociedade. Naturalmente por isso, e também devido ao tipo de documentos que exigem ser escritos em latim, haveria um maior cuidado com a letra que era escrita nestes pergaminhos; a própria aprendizagem da escrita em latim, do nosso ponto de vista, poderia exigir este cuidado na letra; a igreja no reino português poderia facilmente ter adoptado o mesmo tipo de letra da Chancelaria, uma vez que era uma letra cuidada, que sendo cursiva, tinha um aspecto marcadamente caligráfico, com espaços entre linhas e margens.

O facto de não encontrarmos mais nenhum documento escrito por João Rodrigues em outro contexto que não documentos do foro eclesiástico e em latim, torna-se também difícil podermos conjecturar o porquê de tão cedo este tabelião já escrever com letra joanina; por outro lado, de entre outros documentos que encontrámos em latim, nestas datas e em datas posteriores não denotam de forma tão evidente o uso ou semelhança com a letra joanina como encontramos com João Rodrigues.

- 132 - De qualquer forma, na nossa opinião, o uso de uma letra mais cuidada, angulosa, caligráfica por parte de João Rodrigues deve-se á própria grandeza exigida pelo latim.

O Professor Bernardo de Sá-Nogueira163, na sua tese de mestrado avalia também

esta circunstância, a respeito de documentos elaborados em latim por Lourenço Eanes, tabelião de Lisboa entre 1301 e 1332. Na sua tese, Sá-Nogueira analisa os documentos escritos em latim e em português pelo tabelião de Lisboa. Contudo, verifica dois dados importantes: por um lado, a preocupação de formalização que o tabelião tem nos documentos escritos em latim, sendo um estilo diferente e mais formalizado e com tendências e influências da letra bâtarde mais presente nestes documentos do que nos documentos em português, os quais denotam uma letra mais descuidada, menos angulada. Além disso, este professor da Faculdade de Letras refere a inexistência de documentos escritos em latim na fase de decadência do tabelião. Apesar de ressalvar a pouca amostra de documentos para esta época, Sá-Nogueira deixa levanta questão de que, estando já a letra do tabelião demasiado degradada poderia não ser tolerada em documentos escritos em latim, os quais teriam de ser mais formalizados.

Infelizmente, para o nosso caso de estudo de João Rodrigues, apenas nos aparecem documentos em latim, pelo que não temos forma de comparar a sua escrita em português. Contudo, a utilização de uma letra com tanta angulosidade e tão formal nesta altura, leva-nos a seguir a tese de Bernardo Sá-Nogueira, que apoia a ideia de que os documentos em latim levavam a um esforço acrescido por parte de alguns tabeliães para uma maior formalização da letra, mesmo sendo este um caso único nos documentos em latim que encontrámos para a época feitos por tabeliães.

O facto de termos registos de documentos deste tabelião com letra joanina logo em 1378 é um dado importante, mas uma vez que não o temos de outros tabeliães nem tão pouco deste noutro contexto que não o latim e documentos eclesiásticos torna-se difícil tirarmos qualquer tipo de conclusão deste facto sob pena de nos precipitarmos em análises sem bases científicas suficientes. Do nosso ponto de vista, este facto enriquece inclusivamente a nossa pesquisa e é incontornável não o focarmos, demonstrando inclusivamente a necessidade do rigor nesta questão, não o omitindo só porque seria

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SÁ-NOGUEIRA, Bernardo, Lourenço Eanes, tabelião de Lisboa (1301-1332). Reconstituição e análise do seu cartório, Dissertação de mestrado em paleografia e Diplomática, apresentada à faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa, 1988, p. 137 e 138

- 133 - conveniente que não aparecesse nenhum documento com esta letra anterior a 1385 para formar uma tese. Infelizmente, o nosso corpus documental e as informações que fomos recolhendo não nos deixam utilizar ao máximo estas informações…fica no entanto o assunto em aberto para uma posterior análise mais profunda sobre as causas e influencias que levam João Rodrigues a escrever desta forma e tentar conhecer o seu percurso anterior e posterior a estes documentos.