Palaeomagnetic studies on rocks from North Jan Mayen
66 TORBJØRN LUNDE
A Igreja, enquanto sacramento da salvação, possui uma a) dimensão teândrica nascida da teologia da Aliança e que b) se prolonga na comunhão do povo de Deus que anuncia e testemunha a eficácia da salvação de Deus c) na história humana.
Essa dimensão histórica do pensamento da Evangelii Gaudium se percebe de modo especial pelo seu método de “ver” a realidade. Poder-se-ia omitir o capítulo segundo da Exortação, “na crise do compromisso comunitário”, se o documento estivesse utilizando outro método ou outra eclesiologia. Contudo, há uma profunda afinidade entre o “ver” a realidade desde uma perspectiva pastoral e a dimensão histórica inerente ao Povo de Deus. Essa perspectiva pastoral sempre foi valorizada pelo Magistério latino-americano. Pelo fato de a Evangelii Gaudium dedicar um capítulo para “ver” a realidade, o capítulo segundo se chama “na crise do compromisso comunitário”, nos parece que não seria exagerado dizer que essa seria uma característica latino-americana. O Papa afirma que pretende tratar alguns aspectos que possam deter ou enfraquecer os dinamismos de renovação missionária da Igreja “seja porque afetam a vida e a dignidade do povo de Deus, seja porque incidem sobre os sujeitos que mais diretamente participam nas instituições eclesiais e nas tarefas de evangelização” (EG 51).
A eclesiologia do povo de Deus na teología del pueblo, uma teologia gestada na comunidade teológica argentina, pensa o “povo” com dois sentidos análogos, um eclesial e outro civil145. A ideia do povo de Deus visto desde o seu aspecto eclesial está expresso nas afirmações de que todo o povo de Deus é sujeito da
evangelização (EG 111-134), na sua catolicidade de ser “um povo para todos” (EG
112-114) e um “povo de muitos rostos” (EG 115-118). O capítulo IV da Exortação do Papa Francisco contém quatro princípios para ajudar a resolver as tensões da convivência que todo o povo civil experimenta no seu cotidiano. Como um povo que faz parte da sociedade civil, o povo de Deus deve favorecer o diálogo para a paz entre as várias forças que compõem tal sociedade, visto que o “povo de Deus está presente em todos os povos da terra” (LG 13). Desse modo, o povo de Deus que é a Igreja, sente-se, ao mesmo tempo, comprometido com a sociedade civil nas suas várias esferas pelo fato de seus membros serem parte de variados povos em
particular. A Igreja tem compromisso com Deus e com as pessoas que compõe a sociedade na qual cada um dos seus membros está inserido civilmente. Compromete-se com a história e a cultura dos povos do mundo.
A Igreja como sacramento histórico da salvação entende que a graça de Deus é de algum modo delimitada pela realidade na qual atua. Se em determinada realidade o pecado se solidificou como uma “estrutura de pecado” que gera opressão, a graça será uma libertação também a nível estrutural. Por isso, a salvação da qual a Igreja é instrumento, precisa conhecer as maneiras históricas pelas quais “graça-pecado”, “vida-morte”, “opressão-libertação”, atuaram a nível individual e estrutural. A missão da Igreja incide sobre estas realidades concretas.
O documento de Aparecida começou com uma consideração sobre a realidade que desafia aos discípulos e missionários da América Latina: a globalização, para depois considerar a situação sócio-cultural do Continente; a situação econômica; a dimensão sócio-política; a biodiversidade, ecologia, Amazônia e Antártida. E, depois, fez uma breve análise sobre a situação da Igreja na atualidade. Na Evangelii Gaudium, o tema se limita aos desafios da situação econômica e da cultura; para, depois, considerar a situação dos agentes de pastoral da Igreja. É mais simples e direto, e significa que o maior desafio à missionariedade
é a defesa da dignidade humana ameaçada por “uma economia da exclusão e da
desigualdade social” (EG 53). A natureza teândrica da Igreja não a impede de buscar o bem comum de uma sociedade delimitada no tempo pelo mesmo motivo que Deus se encarnou num tempo e numa cultura para, a partir daquelas pessoas, salvar toda a humanidade nas suas múltiplas contradições.
A uma redução antropológica do ser humano em função de uma de suas necessidades, a de consumir, aliada ao ídolo do dinheiro que nega a primazia do ser humano, a Igreja responde propondo uma “reforma financeira” (EG 58). “Num mercado total não haveria mais povos mas apenas uma imensa massa de consumidores”146. Portanto, a utopia do mercado total e da mercantilização de todos os objetos e de todas as relações humanas é denunciada como desumana. A esfera econômica tende a impor os seus critérios sobre a moral, a família, a Igreja, mercantilizando relações que estão baseadas na gratuidade e no dom.
No livro do Cardeal Müller, no prefácio, o Papa afirma que “há uma ligação original entre proveito e solidariedade, uma circularidade fecunda entre lucro e dom, que o pecado tende a romper e ofuscar”147. Existe uma missão profética da Igreja em dizer “não” a um mercado divinizado e “sim” à solidariedade. “A posse privada dos bens justifica-se para cuidar deles e aumentá-los de modo que sirvam melhor o bem comum, pelo que a solidariedade deve ser vivida como a decisão de devolver ao pobre o que lhe corresponde” (EG 189). “Supõe a criação de uma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, dê prioridade à vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns” (EG 188).
Entre os desafios culturais, estão os ataques à liberdade religiosa; a cultura do provisório e o mass media; a proliferação de novos movimentos religiosos, alguns de índole fundamentalista; o processo de secularização que se retroalimenta do relativismo moral; Apesar disso, a Igreja continua o seu trabalho, pois “é grande a contribuição das escolas e das universidades católicas no mundo inteiro!” (EG 65). A família também passa por uma crise cultural profunda; a Igreja deve ajudar a superar uma cultura individualista.
Comentando os desafios da cultura contemporânea, Comblin diz que “há uma cultura das elites, que é cada vez mais a imitação da cultura dominante nas classes burguesas do mundo europeu/norte-americano, sobretudo dos Estados Unidos”148. Há uma subcultura, dependente da cultura das elites, que é “cultura das massas dominadas”149. Exemplificando, diz ele que os ricos vestem-se com roupas de marcas famosas do primeiro mundo, os pobres com roupas importadas da China. As casas dos pobres são feitas com material de segunda ou com o que sobra da casa dos ricos. Os móveis são reduzidos ao mínimo. Nos hospitais populares, os cuidados, quando existem, são precários. “A instrução dada nas escolas populares é feita de fragmentos de cultura que não servem nem preparam para nada”150. Essas são realidades que a “globalização da indiferença” tende a ignorar.
147 Papa Francisco, Prefácio. In: GERHARD, Ludwig Müller. Pobre para os pobres: a missão da
Igreja. São Paulo, SP: ed. Paulinas (col. Teorema), 2014, p. 6.
148 COMBLIN, 2002, p. 181. 149 Cf. Idem, 2002, p. 183. 150 Idem, 2002, p. 183-184.
“A nova Jerusalém, a cidade santa (cf. Ap 21, 2-4), é a meta para onde peregrina toda a humanidade” (EG 71). Deve-se dizer que o Povo de Deus peregrina em direção a uma cidade, a Jerusalém celeste, e, assim, se fundamenta a dimensão escatológica da Igreja. Na Exortação, serve para que, à luz da Jerusalém celeste, se pense nas culturas urbanas onde a Igreja peregrina caminha. Uma cultura inédita se gera nas cidades. “Isto requer imaginar espaços de oração e de comunhão com características inovadoras, mais atraentes e significativas para as populações urbanas” (EG 73). O bispo precisa atuar em comunhão com os leigos se deseja entender a dinâmica urbana. “Na praça da cidade, dificilmente o senhor bispo descobrirá tudo o que está passando pela cidade”151.
Diante dos desafios culturais, a atitude defensiva da Igreja de outros tempos se propunha a criar uma cultura “romana” em alternativa às culturas locais. Em alguns países, se conseguiu um bom sucesso na implantação da cultura romana.
O ideal era que todo católico nascesse numa maternidade católica; crescesse numa creche católica; estudasse numa escola, colégio e universidade católicas; fosse membro de um partido católico, de um sindicato católico e de um clube católico; tratado num hospital católico e, quando ficasse idoso,fosse descansar numa casa de repouso católica152.
Comblin indica duas deficiências desse método: a primeira que ele atinge um número limitado de pessoas, uniformizando sua cultura; e, a maior parte dos leigos ficou sem receber a tal da cultura católica. Em outras palavras, a Igreja em vez de assumir a tarefa da inculturação do Evangelho nos ambientes, criou uma cultura própria e uniforme. “A particularidade do Povo de Deus é que a unidade não lhe vem da unidade cultural e sim do acordo, da aliança, da amizade entre todos os discípulos de todas as culturas”153. “Pela inculturação, a Igreja introduz os povos com as suas culturas na sua própria comunidade” (EG 112). Daí que se conclua que a tarefa dos cristãos, sem que se abandone as obras especificamente cristãs, é de fazer os ambientes laicos absorverem os valores evangélicos sem que tenham de imitar um único modo de proceder, ou que se tornem confessionais.
151 Idem, 2002, p. 236. 152 Idem, 2002, p. 187. 153 Idem, 2002, p. 189.
“É indiscutível que uma única cultura não esgota o mistério da redenção de Cristo” (EG 118). O processo de evangelização, na sua inculturação, se cristalizou entre o Povo também como “piedade popular”. O Papa recorda que os bispos latinos chamaram piedade popular também como “espiritualidade popular” ou “mística popular” (DAp 262). Não se pode subestimar a capacidade evangelizadora de uma romaria ou procissão,
das mães ao pé da cama do filho doente, que se agarram a um terço ainda que não saibam elencar os artigos do Credo; ou na carga imensa de esperança contida numa vela que se acende, numa casa humilde, para pedir ajuda a Maria, ou nos olhares de profundo amor a Cristo crucificado (EG 125).
O Papa ao afirmar que a piedade popular é um “lugar teológico” (EG 126), a
propõe como um recurso para o desenvolvimento da teologia e para a nova evangelização. A piedade popular é uma realidade histórica por onde Deus atuou na cultura de um povo determinado.
A inculturação do Evangelho se faz em analogia com o Filho que encarnou e assumiu uma cultura de um povo específico. Falando da América Latina, os bispos
do CELAM lembravam que ela é constituída de “povos aborígenes, afro-americanos,
mestiços e descendentes de europeus e asiáticos, cada qual com sua própria cultura” (SD 244). Por isso, as “Igrejas particulares hão de promover ativamente formas, pelo menos incipientes, de inculturação” (EG 129). “A diversidade cultural impõe, também, no que é acidental e não é de direito divino, uma diversidade cultual e de ritos religiosos”154.
O povo de Deus é um sacramento de salvação para essas realidades culturais, sociais e econômicas. Para tanto, é preciso “ver” os mecanismos que geram pecado e libertação no tempo presente. A salvação não é apenas uma decisão pessoal por Jesus Cristo, mas a decisão de todo um povo pelo Deus que ilumina a Jerusalém celeste, a cidade onde já não há pecado, onde “não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor” (Ap 21,4).
154 NICOLAU, Miguel. Problemas do Concílio Vaticano II: visão teológica. São Paulo, SP: ed.