D. Læreridentitet og kunnskapsformer
5. TOLKNING OG DISKUSJON
Hoje, Luiz Vilela é reconhecido como um dos maiores contistas da História da Literatura Brasileira, apresentando um estilo único e inegavelmente marcado pelo sentimento de humanidade e de pesar que permeia as mazelas mais íntimas do homem contemporâneo. Sua obra revela as inquietações do sujeito que sofre de angústia por se ver, constantemente, obrigado a tomar decisões e a fazer escolhas em um mundo de impermanências, marcado por relações precárias e sem sustentabilidade no mundo do ser que anseia completude.
Além da percepção de como a temática existencialista e outros elementos composicionais se articulam na obra de Luiz Vilela, este trabalho serviu para confirmar inúmeras expectativas e percepções advindas de leituras anteriores. Ao longo da pesquisa, análises mais profundas serviram para assegurar a pertinência das reflexões desenvolvidas, tendo em vista que tiveram seu fundamento teórico-crítico na bibliografia indicada.
Não se pretende concluir as reflexões sobre a obra de Vilela, haja vista que ela permite várias leituras e possibilidades de interpretação. No entanto, nestas considerações finais, tem-se por objetivo demonstrar os aspectos mais significativos da sua escritura, após análises mais detidas e mais acuradas. Tal empreendimento foi possível a partir do momento em que se identificou, como fio condutor de toda sua obra, um lastro existencial fundado na filosofia sartriana. Mesmo não sendo o objetivo deste trabalho seguir, com exclusividade, uma orientação filosófica, tornou-se praticamente imprescindível o estabelecimento de pontes entre o texto literário e o existencialismo sartriano. Assim, o terceiro capítulo realça o diálogo entre os contos de Vilela e o existencialismo de Sartre, evidenciando as conexões identificadas na análise dos contos.
Sendo assim, o objetivo foi buscar, em uma interpretação possível do “ser-em-si” e do “ser-para-si”, os pontos suscetíveis de articulação entre os indivíduos, tendo como referência os personagens que almejam alcançar um estado de consciência que lhes permita uma compreensão de si e do mundo e outros que, indiferentes ao processo evolutivo, no qual todos os seres humanos encontram-se submetidos, alienados, simplesmente, vivem o dia-a-dia. Os questionamentos decorrentes destas reflexões conduziram o leitor ao entendimento dos elementos tangíveis ao campo da liberdade e da escolha que, segundo Sartre, atua como responsável pela tomada de consciência do ser.
A confirmação da marca do existencialismo sartriano, como fio condutor que perpassa toda a obra de Vilela, também revela outros indícios de modernidade. Além de uma indiscutível evolução, observa-se, em sua obra, a presença contundente do diálogo, que, em primeira e última instância, confirma a maturidade do autor.
A respeito do gênero narrativo – conto –, as análises do espaço ficcional impuseram uma abordagem teórico-crítica acerca desta forma narrativa, visando a identificar na sua trajetória evolutiva o reconhecimento de como se configura no tempo. Portanto, recorreu- se ao estudo da estrutura do conto e de seus elementos composicionais, respeitando as suas distintas modalidades.
No que diz respeito ao histórico, observa-se certa dificuldade ao tentar uma definição de conto de forma a precisar a sua função e a sua estética narrativa. Por isso, consideram-se várias as suas possibilidades de classificação. Observou-se, por exemplo, que o estudo do conto não contempla critérios de quantidade em oposição à qualidade, isso é, não é a sua extensão que assegura a sua importância literária. Trabalhado desde tempos imemoriais, quando ainda era tido como narrativas orais, chegou-se à posição de que o conto passou pelas diversas áreas da história da literatura, ora tendo mais destaque, ora sendo tratado como um gênero menor, mas que assume na contemporaneidade o status de “grande forma literária”.
O aspecto mais relevante deste estudo foi a abordagem das características do conto de Luiz Vilela, cuja estrutura composicional enfatiza personagens complexos. Estes, a todo momento, induzem o leitor a reflexões acerca das relações humanas, em que o diálogo, como já foi mencionado anteriormente, ganha força, até mesmo por oposição. Ou seja, quando temática recai sobre o silêncio, a busca de sentido para o non sens do mundo continua a exigir interpretações plausíveis que tornem a existência suportável. Tanto os diálogos quanto os monólogos são recursos utilizados pelos personagens, que refletem sobre sua condição no mundo, sem consciência do significado de que o homem é um ser em circunstância.
Concluiu-se, também, que esta estrutura composicional enseja certa desconfiança
da e na palavra que não se sustenta, por não traduzir a realidade e a falta de sentido que
circunda a existência do sujeito contemporâneo. Os estados psicológicos e os processos mentais dos personagens, além de outros recursos, como a zoomorfização de José, no conto “O buraco”, externam o universo conturbado dos indivíduos, disseminam um
profundo mal-estar no leitor que, inevitavelmente, sente-se contaminado pelas experiências vividas pelos personagens.
Nas análises, comprovou-se a construção de personagens explicitamente mais densas, apresentando uma maior complexidade desde sua composição. Já em outros contos, há personagens que, em uma primeira leitura, remetem à simplicidade do “quase nada”, do “quase banal”, mas, subliminarmente, encontram-se configuradas em uma profundidade incomensurável, haja vista o caráter de humanidade a elas atribuído.
Foi possível, no decorrer deste estudo, confirmar tendências da narrativa contemporânea, que não mais se preocupa em focalizar “grandes temáticas”, com personagens muito bem delineados e um cenário propício ao desenvolvimento do enredo. Muito pelo contrário. Hoje, os autores procuram retratar o conflito e as contradições do sujeito contemporâneo, ressaltando suas idiossincrasias e sua insatisfação em face de si e do mundo circundante.
Nos contos, “Amanhã eu volto”, “Luz sob a porta” e “Dois homens”, por exemplo, há, por parte do narrador, a apresentação de cenas cotidianas, que, inicialmente, induzem o leitor a uma visão superficial da realidade. Em seguida, em uma leitura mais atenta, compreende-se melhor a complexidade intrínseca à narrativa, manifestadas nas dificuldades dos personagens em estabelecer a comunicação com o outro, bem como o compartilhamento de experiências vividas.
Em “O buraco”, de modo muito especial, essa narrativa, desde o início, o personagem se apresenta de forma complexa, tentando compreender sua própria condição humana. Transfigurado em tatu, ele é uma representação de estados interiores superpostos, indicadores de conflitos vivenciados ao longo da narrativa que refletem entraves estabelecidos pelo personagem com o mundo social, familiar e individual. Tal fato gera enorme confusão interior, pois o personagem não consegue conviver com outras pessoas, tentando o isolamento definitivo de qualquer contato humano.
Assim, interligado aos vários tipos de composição de personagens, um dos objetivos específicos deste trabalho, é contemplado à medida que se detectou como se desenvolve a questão do diálogo, não analisado como recurso gramatical, sintático e semântico, mas sob a perspectiva de um suporte filosófico existencialista da linha sartriana. Observa-se que o narrador, por trás dessas personagens – umas simples outras mais complexas – quer apontar a necessidade de amadurecimento do sujeito na contemporaneidade, propondo o diálogo como a “salvação” ou a “perda” do indivíduo.
Convém ressaltar que, muito embora não tenha sido o principal objetivo desta investigação problematizar o existencialismo sob a ótica da filosofia, como disciplina acadêmica, essa teoria foi inúmeras vezes retomada pela sua imprescindibilidade às análises literárias – objetivo maior – dos contos de Vilela. Além disso, essa teoria proporcionou um maior entendimento da constituição das relações interpessoais, observando como podem ser positivas ou negativas, desencadeando compaixão e respeito para com o próximo, independente da sua condição.
Outro acréscimo decorrente das teorias do existencialismo sartriano diz respeito à compreensão do indivíduo que, no mundo moderno, experimenta estados de ansiedade e de desconforto em face das relações precárias freqüentemente (des)encontradas na contemporaneidade. Fato este também observado em vários escritores da atualidade que tratam a questão do sujeito pelo mesmo viés apresentando por Luiz Vilela.
A perplexidade diante do acontecer do mundo ocorre em virtude dos fatos considerados banais. Como por exemplo, cita-se o conto “Uma namorada”, em que, superficialmente, a história apresenta um homem transtornado pela obrigação de encontrar uma namorada, mas diante da dificuldade de se relacionar com o mundo e com o outro, esse objetivo acarreta desalentos e frustrações.
Ainda sobre o diálogo, aliado ao existencialismo – que surge como uma percepção possível e favorável à análise crítica da obra de Vilela –, confirma-se o amadurecimento do fazer literário do próprio autor. Haja vista que só propõe o diálogo quem se sente capaz de escutar o outro, além de se dispor à interlocução. Atitude pouco observada na contemporaneidade, considerando que hoje, vivencia-se uma crise de expressividade em que as pessoas falam, mas ninguém ouve, tampouco se entendem. Por sua vez, os valores essenciais humanos, como a solidariedade e o amor ao próximo estão desaparecendo, até mesmo nas relações familiares, como retratado no conto “Amanhã eu volto” e “Luz sob a porta”.
Finalmente, tem-se no diálogo um recurso cuja importância tem sido relegada a planos secundários, devido à incompletude dos indivíduos que, em um tagarelar sem fim, demarcam seus territórios e sua forma de contato com o outro. A liberdade da qual cada indivíduo dispõe não conta mais a seu favor e, por ser utilizada, não para dizer, mas simplesmente para constituir o outro, objeto, ela marca o vazio de sentido que caracteriza o homem e a existência infernal.