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3 The Toeplitz representation

Como mencionamos no primeiro capítulo, a construção de uma identidade implica em uma série de negociações e aprendizados – processo ainda mais complexo no caso da construção de uma identidade feminina negra, duplamente marginalizada e periférica.

A representação da construção da identidade de Sethe em Amada está presente em vários momentos da obra: nas lembranças que a escrava guarda da mãe, nas recordações de seu casamento com Halle, e até na convivência com a sogra, Baby Suggs. Abaixo, Sethe reflete sobre um momento marcante de sua infância:

Ela [sua mãe] nunca arrumava meus cabelos nem nada. Nem mesmo dormíamos na mesma cabana, pelo que me recordo. Mas uma coisa minha mãe fez. Um dia me pegou no colo e levou-me para trás do fumeiro. Ali abriu a blusa do vestido, levantou o seio e apontou para uma marca abaixo dele. Sobre a costela havia um círculo e uma cruz feitos com ferro em brasa. Ela disse: “Esta é sua senhora. Esta”. E apontou para a marca. “Agora sou a única que tem esta marca. O resto está morto. Se alguma coisa me acontecer e você não puder me reconhecer pelo rosto, vai me reconhecer por esta marca”. Fiquei muito assustada. Só conseguia pensar em como aquilo tudo era sério e como eu precisava encontrar alguma coisa importante para dizer a ela. Mas não me ocorreu nada, de modo que falei a primeira coisa que me veio à cabeça: ”Sim, senhora, mas como vai me reconhecer? Como? Faça uma marca em mim também”. – Sethe deu uma risadinha.

– E ela fez?- perguntou Denver.

– Ela me deu um tapa na cara.

– Por quê?

– Na época não entendi. Não até ter minha própria marca. (MORRISON, 1987, p. 77).

A necessidade que a mãe de Sethe sentiu de revelar à sua filha a marca de ferro em brasa que possuía abaixo do seio tem um motivo: ser reconhecida, caso algo lhe acontecesse. A menina sente a gravidade de suas palavras. Entende que existe uma possibilidade real de que um ato de

violência as separe, desta vez definitivamente. Sabe que algo pode acontecer a sua mãe, deixando-a tão irreconhecível que apenas a marca poderia revelar sua identidade. Através do que lhe é dito, entende que o mesmo pode lhe acontecer. Nasce, então, o desejo de ter sua própria marca, para que não haja dúvidas sobre sua identidade. Aprende, assim, duas importantes lições – a primeira, que a violência e a destruição estão sempre a sua espreita; a segunda, que é muito fácil perder a identidade quando se é submetida a tantas atrocidades.

No entanto, ao pedir que a própria mãe lhe faça a marca, mostra desconhecer seu real significado. Apenas anos mais tarde, quando adquire a sua própria marca, entende a que sua mãe se referia. A marca de Sethe, a árvore desenhada em suas costas, foi adquirida pouco antes de fugir de Sweet Home. Ainda grávida, foi açoitada. Fugiu sozinha da fazenda, com as costas em brasa e carregando um bebê em seu ventre. Sua marca, por estarpermanentemente em seu corpo, como uma tatuagem de violência, impede que ela esqueça tudo o que viveu em Sweet Home. A marca de Sethe é também a marca profunda da memória.

Contudo, a marca pode ser lida como algo mais que uma cicatriz. O que Sethe e sua mãe carregam é a marca de um povo que foi escravizado, vendido, violentado e assassinado. A sua marca é a cor da pele, indelével – a marca de Cam. Segundo a Bíblia, Cam presenciou a nudez do pai, sendo condenado, juntamente com seus descendentes, à escravidão eterna. O mito de Cam, também presente na poesia abolicionista de Castro Alves, foi, segundo Alfredo Bosi103, estrategicamente usado para justificar a escravidão:

O fato é que se consumou em plena cultura moderna a explicação do escravismo como resultado de uma culpa exemplarmente punida pelo patriarca salvo do dilúvio para perpetuar a espécie humana. A referência à sina de Cam circulou reiteradamente nos séculos XVI, XVII, XVIII, quando a teologia católica ou protestante se viu confrontada com a generalização do trabalho forçado nas economias coloniais. O velho mito serviu ao novo pensamento mercantil, que o alegava para justificar o tráfico negreiro, e ao discurso salvacionista, que via na escravidão um meio de catequizar populações antes entregues ao fetichismo ou ao domínio do Islão. Mercadores e ideólogos religiosos do sistema conceberam o pecado de Cam e a sua punição como o evento fundador de uma situação imutável

Outro momento importante na construção da identidade de Sethe é o seu casamento com Halle. Sethe decide comunicar essa decisão a Senhora Garner. A passagem é reproduzida a seguir:

–Halle e eu queremos nos casar, senhora Garner.

– Foi o que ouvi. –Ela sorriu. – Halle falou com o senhor Garner sobre isso. Você já está esperando?

– Não, senhora. (...).- O que eu estou querendo dizer é que vamos nos casar.

– Já me disse isso. E eu falei que está tudo bem.

– Vai haver cerimônia de casamento?

–A Sra. Garner pôs a concha sobre o fogão. Rindo um pouco, tocou Sethe na cabeça, dizendo:

– Você é uma menina muito meiga. – E mais nada. (MORRISON, 1987, p. 38)

O motivo do riso da Sra. Garner é a ingenuidade de Sethe. A escrava esperava ser capaz de realizar uma cerimônia de casamento, como uma mulher livre faria. Ela cresceu ouvindo as histórias sobre as comemorações do casamento de seus senhores, e, naturalmente, esperava poder celebrar a sua união com Halle de alguma maneira. Porém, ao confrontar sua senhora, percebe que a festa que deseja não existirá. Ela só é possível no mundo de seus senhores. Sethe entende que as regras que regem a ambos são diferentes. O seu casamento com Halle não poderá ser marcado por comemorações, simplesmente passarão a dormir juntos. Por outro lado, a expectativa da senhora Garner é que estivessem casando devido a uma gravidez inesperada. Uma união planejada, desejada e independente da vinda de um filho, aos olhos da Sra. Garner, está fora do alcance de Sethe.

O episódio acima encena a duplicidade de sua condição. Ela sabe da alegria, pompa e preparação que acompanham uma cerimônia de casamento, no entanto, descobre que isso só pertence a seus senhores. Essa consciência, porém, não resulta na acomodação da personagem. Sethe surpreende e se prepara, à sua maneira, para seu casamento. Rouba retalhos e pequenas peças de pano e costura seu próprio vestido de casamento. Ela se sente merecedora da comemoração e faz com que ela aconteça.

A escrava percebe que transita entre dois mundos, entretanto, busca trilhar seu próprio caminho. Subverte, através de seus atos, a realidade a sua volta. É exatamente sobre essa

subversão, tanto nas atitudes de Margaret Garner104 (que inspirou a composição da personagem Sethe) , quanto em Amada, que trataremos a seguir. Antes, porém, faz-se necessário mencionar alguns aspectos da representação da formação da identidade masculina, através de uma breve análise do personagem Paul D, que assim como Sethe, era escravo em Sweet Home.

Ao reencontrar Sethe após 18 anos, uma das coisas que chamou atenção no ex-escravo é a autonomia de Sethe. Surpreso ao saber que ela fugira sozinha e grávida, Paul D revela-se também irritado: “Ele estava orgulhoso e ao mesmo tempo irritado com ela. Orgulhoso por ela ter conseguido; irritado por ela não ter precisado nem de Halle nem dele.” (MORRISON, 1987, p. 17) A ex-escrava, ao realizar, sozinha, o feito notável de escapar e pôr em segurança os três filhos, subverte, assim, um dos ideais pregados pelo culto da “true womanhood” – a passividade. Mesmo vivendo em uma comunidade que, historicamente, apresentava uma igualdade maior entre homens e mulheres (quando comparada à sociedade patriarcal norte-americana), o fato de Sethe assumir, sozinha, a responsabilidade pela sua vida e de seus filhos, parece incomodar e ferir o ego masculino negro.

A necessidade da quebra dos padrões de feminilidade (brancos) pelas mulheres negras, além de ser estimulada pela própria condição de escrava (como discutido no primeiro capítulo), foi também fruto da desagregação familiar gerada pelo próprio sistema colonial. Paul D, por exemplo, vê-se impelido a fugir durante 18 anos. Só após esse longo período de peregrinação, em busca de liberdade e esquecimento, é que encontra, em Sethe, a chance para experienciar a vida em um lar, com um mínimo de regularidade e segurança.

A impossibilidade de amparar e compartilhar a vida com suas companheiras, além da violência e maus-tratos do cotidiano interferem na auto-estima do homem negro e os faz duvidar da própria humanidade. Em Sweet Home, após ser amordaçado com o freio de boca, Paul D. admira um galo da fazenda, chamado Mister e reflete:

Mister recebeu permissão de ser e continuar a ser o que era. Mas eu, não. Mesmo se alguém o cozinhasse, estaria cozinhando um galo chamado Mister. Mas não havia jeito de eu voltar a ser Paul D, vivo ou morto. O professor me modificou. Eu era uma outra coisa e aquela coisa era menos que um frango sentado na tina sob o sol. (MORRISON, 1987, p. 89-90).

104Como me chamou a atenção a Profa. Cíntia Schwantes, é curioso notar que o sobrenome da escrava que inspirou o romance, Garner, seja o mesmo usado por Morrison em Amada para nomear os senhores da fazenda de onde ela escapa. Seria esse um outro recurso subversivo encontrado pela autora?

A comparação entre homens e mulheres negros e animais é uma constante na narrativa. Um dos momentos mais humilhantes para Sethe, por exemplo, é presenciar os pupilos do professor (responsável pela administração da fazenda), a seu mando, elaborando uma lista com as suas características animais. Amada, portanto, encena a luta de homens e mulheres negras para a reconstrução da própria humanidade, de uma identidade que lhes foi cerceada.