A reflexão sobre a dialética consciência-mundo que, sinteticamente, afirmou o homem como sujeito no mundo, de fato, manifestou no homem a “presença de uma dimensão irredutível ao domínio da objetividade”198, que Lima Vaz denomina
dimensão estrutural do espírito. Ora, a presença dessa dimensão espiritual caracteriza a especificidade da natureza humana como consciência-de-si e
consciência-do-mundo, e possibilita o avanço do discurso dialético da relação de Objetividade para a relação de Intersubjetividade.
O pensamento antropológico vaziano compreende o espírito como a expressão da totalidade do Eu, realizador da síntese entre a corporalidade e o psiquismo.
197 “Nós a compreendemos, em sua acepção original (a partir do verbo grego theorein), como contemplação saciante, em que um sentido unificador envolve e penetra todo o mundo dos objetos, sentido que exprime para o homem a compreensão humana do mundo, de si mesmo e das implicações últimas do seu ser-no-mundo” (EF VI, p. 251).
Como totalidade, o espírito expressa a abertura da intencionalidade humana para a
transcendência e possibilita ao sujeito uma nova experiência da auto-expressão do Eu sou: a “relação recíproca da intersubjetividade”199. O movimento dialético se
depara, agora, com o desafio de explicar como se efetiva o “paradoxo” da reciprocidade entre duas “infinitudes intencionais”: o Eu e o Outro e, ao mesmo tempo, problematizar a identidade na diferença presente no encontro interpessoal.
É preciso compreender, primeiramente, como se dá o aparecimento do Outro no medium da linguagem. Para Lima Vaz, esse fenômeno fundamental da intencionalidade humana acontece por meio do ato da consciência que se exterioriza por meio dos signos intersubjetivos. O movimento dialético sai da exterioridade
consciência-mundo e volta-se para o interior da consciência-de-si a fim de precisar
na dialética intenção-expressão o exato momento em que acontece o encontro entre o Eu e o Outro.
A consciência é um ato intencional, todavia, quando ela se depara com outra
consciência que é também um ato intencional, ela não pode simplesmente objetivá-
la como se fosse um objeto. O movimento intencional da consciência confere, então, ao momento da expressão duas significações: um sentido para si e um sentido para o outro-de-si. Esse momento significativo se exterioriza por meio de um sinal: um som, um gesto, uma palavra, enfim, por meio do fenômeno da comunicação: “a palavra - qualquer palavra - é a encarnação do sentido e como corpo da significação”200.
Como ser de linguagem, o homem cria um novo horizonte para acolher o diferente de si, que é também um ser de linguagem, esse novo horizonte é justamente a comunicação. Ora, o movimento interno da consciência não teria nenhum significado se ela, ao universalizar o objeto pela palavra, não intencionasse estabelecer um diálogo com o Outro. Em consequência, essa intencionalidade que se volta para-o-outro só revela a especificidade da consciência humana no mundo,
199 “Na relação de intersubjetividade, a infinitude intencional do sujeito tem diante de si outra infinitude
intencional, e é a reciprocidade da relação entre ambas que constitui o paradoxo próprio da
intersubjetividade, manifestando-se primeiramente na finitude da linguagem como portadora do universo infinito da significação” (AF II, p. 50).
ela não é pura interioridade, mas essencialmente comunicabilidade, “o sujeito é, desde sua gênese primeira, uma comunhão, e a palavra um diálogo”201.
Destarte, a palavra é a mediação para o encontro entre o Eu e o Outro; por meio dela, a consciência evidencia outra face original de si mesma, a saber: ela não se limita à relação sujeito-objeto, relação não-recíproca, mas procura o outro de si para ser reconhecida. O lançar-se em busca do diálogo evidencia a nova relação que se estabelece na dinamicidade interna da consciência, ela não se satisfaz com “conhecer” o outro enquanto objeto, mas com reconhecê-lo como sujeito para estabelecer com ele uma relação de reciprocidade.
É, portanto, a relação de reciprocidade a verdadeira expressão da intencionalidade da consciência. Esta, ao voltar-se para o objeto, de fato, quer se afirmar como um ser consciente e livre capaz de interagir reciprocamente com os seus semelhantes. E isso só é possível, afirma Lima Vaz, por meio do “ato em que, pela mediação da palavra”202 o Eu estabeleceu com o Outro a relação do diálogo e é capaz de construir com ele um “mundo humano”, horizonte universal de comunicação.
Lima Vaz estabelece como espaço para o encontro entre o Eu e o Outro, a linguagem como “portadora do universo infinito de significação”203. Ela é o medium em que acontece essa experiência fundamental, no qual o Eu se abre para acolher o Outro por meio das múltiplas formas de expressão comunicativa que se estabelecem nesse encontro, como a postura, o gesto, a palavra, o discurso, enfim, o “dia-logo”.
Para Lima Vaz esse é “o círculo originário do Nós”.204 O primeiro círculo em
que os sujeitos se comunicam entre si abrindo espaços para a constituição de novos círculos concêntricos desde os pequenos grupos às grandes comunidades históricas, ou o “nós plural”. Como participante desse “nós plural”, o sujeito manifesta a abertura constitutiva de seu ser, já que ele é “um todo paradoxalmente aberto”205 e construtor pelo intercâmbio entre interpelação e resposta com o Outro, dos infinitos fios da forma cultural como história especificamente humana.
201 EF VI, p. 225. 202 Ibid., p. 253. 203 AF II, p. 49. 204 Ibid., p. 51. 205 Ibid., p.52.
É no âmbito dessa forma cultural comunicativa que se dá a nova expressão do
Eu sou como Intersubjetividade. Lima Vaz explicita a dialética dessa categoria
antropológica dizendo que “a auto-expressão do Eu sou é suprassumida no movimento relacional que instaura como outro termo da relação exatamente um outro Eu: alter Ego”206. Assim o Eu ascende em sua autocompreensão e percebe
que esse ir-e-vir ontológico é justamente o primum relationis, ou seja, a relação de
Intersubjetividade.
Como nova expressão do Eu sou a relação da Intersubjetividade manifesta a lei da circularidade dialética da consciência, que iniciou o seu movimento com a relação Eu-Mundo (relação de objetividade) na qual o Eu é suprassumido na dialética
intenção-expressão, tornando-se ser-no-mundo e, em seguida, o movimento
continuou para compreender a relação Eu-Outro (relação de Intersubjetividade) e, nesta, o Eu é suprassumido na relação de reciprocidade ao tornar-se um ser-com-
outro.
Essa dinâmica da consciência, por sua vez, manifesta a especificidade própria do ser humano, que não se limita à relação de objetividade, mas é essencialmente abertura, diálogo, comunicação e encontra seu sentido em estar com o seu semelhante. Por essa identidade na diferença, torna-se possível a construção do “mundo humano” pela ação conjunta do Eu e do Outro por meio da suprassunção dialética em que o Eu sou se submete à prioridade da relação intersubjetiva e cede “à necessidade dialética do Cogito, ergo sumus, ou a suprassunção do sum no
sumus”207, como ver-se-á posteriormente.
O que Lima Vaz clarifica nessa pré-compreensão da categoria da
Intersubjetividade é, no entanto, que a expressão fundante da relação intersubjetiva
é a expressão Nós somos, devido à especificidade dos dois termos Eu-Outro da relação, que, como seres estruturalmente reflexivos, são “capazes de exprimir-se a si mesmos na auto-afirmação do Eu sou”208. Em consequência, a relação que se
estabelece entre esses dois seres reflexivos é exatamente uma relação de reconhecimento.
206 AF II, p.53. 207 Ibid. 208 Ibid., p. 54.
O movimento dialético volta-se para a compreensão da relação de reconhecimento para expressar como a existência individual implica uma relação ativa com a totalidade do ser, e como se dá a evolução da sociabilidade humana. Para Lima Vaz, a dialética hegeliana do Senhor e do Escravo expressa bem os momentos constitutivos dessa sociabilidade e, então, ele apóia-se nessa teoria para mostrar a categoria do trabalho como mediação para o reconhecimento do Outro.