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lógica sanitária, e sua relação com outro universo de coisas, que é o pensamento da população, o chamado senso comum, propõem o diálogo como uma maneira de lidar com esse impasse de natureza estrutural. O sentido da fala das pessoas está ligado ao lugar social de onde elas falam. A Universidade e os aparelhos do Estado posicionam-se a partir de uma lógica sanitária própria, que reflete a discussão da problemática envolvida. Já as pessoas comuns falam e atuam a partir de suas vivências cotidianas, em suas casas, seus trabalhos e até na rua, havendo uma diferente valorização dos aspectos de saúde, nos diferentes espaços sociais. A fala profissional, que vem de um espaço técnico-científico, é valorizada pelo seu potencial caráter estruturador e provedor de soluções. Por outro lado, a fala da população é vista como uma fala deseducada, porque vem daquele espaço vivencial, onde o indivíduo fala do espaço cotidiano, espaço não valorizado. Para os pesquisadores citados é preciso a criação da ideia de diagnose, ou seja, de conhecimento e diálogo. A proposta é retraduzir a ideia de Paulo Freire e colocar frente a frente, em diálogo e em oposição dialética, a lógica sanitária e a lógica da população. E o que vem sendo a educação sanitária, senão uma extensão do lócus da esfera técnica, numa tentativa de hegemonização do mundo? Fragmentos do conhecimento científico são difundidos por meio de campanhas, atividades educativas nas escolas, pela internet, apenas em quantidade suficiente para reprodução do campo sanitário como campo de poder. Para avançar, o próprio Paulo Freire reafirma que é preciso falar menos em educação e mais em diálogo, encontro e conflito de ideias. E conclui que, para produção desse diálogo, é preciso gerar tecnologia, isto é, processos, conhecimento, invenção, para que a Universidade possa comunicar-se com o mundo, É preciso que haja diálogo entre a lógica sanitária e a lógica do senso comum.

Lefèvre e Lefèvre (2005) elaboraram a técnica do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) na busca da superação dos impasses no processamento em pesquisa qualitativa que usa entrevistas com questões abertas. Ao desejar obter representações sociais ou opiniões coletivas de grupos pesquisados, a partir de depoimentos individuais, seria preciso um enfoque metodológico capaz de somar formalmente os depoimentos e obter um discurso compatível com as opiniões individuais. A solução que os pesquisadores encontraram foi a

categorização de respostas, que consiste em analisar o sentido das respostas dadas às questões abertas, atribuir um sentido a cada resposta e agrupar numa categoria representativa as respostas de mesmo sentido. A técnica do DSC vai além, ao promover a caracterização não apenas matemática, mas a discursiva. Os discursos não se anulam, os conteúdos individuais preservados formam um discurso coletivo, que veicula um sentido, um posicionamento, uma opinião com um “colorido” especial dessa opinião coletiva. Os diferentes conteúdos e argumentos podem ser reunidos em um só discurso, porque basicamente dizem respeito à mesma opinião ou ideia. Os autores reafirmam que o Discurso do Sujeito Coletivo respeita o comum e o diferente, ou seja, a mesma opinião dita de modos distintos, mas complementares. Redigido na primeira pessoa, o discurso-síntese é composto por expressões-chave (ECH), com uma mesma ideia central (IC) ou ancoragem (A). Silva (2009) descreve muito bem o DSC como uma maneira da coletividade falar diretamente sobre um tema, “buscando-se a reconstituição discursiva da representação social”.

Outros pesquisadores alertam:

Existem muitas singularidades nas questões sobre a água. São específicas de cada região, de cada comunidade, pois algumas necessidades são coletivas e outras atingem apenas algumas famílias ou pessoas. Por isso, é preciso conhecer bem a situação local antes de elaborar projetos ou propor soluções. (...) As piores soluções, na situação estudada, são aquelas que desconsideram diferenças entre culturas, interesses e demandas de comunidades rurais (GALIZONI et al., 2007, p. 19).

Galizoni e Ribeiro (2003) analisaram alguns aspectos da relação entre população e recursos hídricos, em pesquisas desenvolvidas nas regiões do alto, médio e baixo Jequitinhonha, no período 1999/2002, buscando compreender percepções e atitudes, informações fundamental- mente qualitativas, e constataram ser a água um bem de uso cotidiano, como o ar, a comida e a roupa, que as pessoas carregam incorporada à cultura e à vida. Os pesquisadores perceberam que nas comunidades estudadas as nascentes e os pequenos cursos d’água representavam balizas importantes para a organização social e produtiva. “Camponeses se orientam espacialmente e às vezes se autonomeiam por morarem em localidades que retiram sua denominação de cursos d’água: Joaquim (da vereda) do Sítio Novo; Zé Mateus (do córrego) do Degredo; Jesus do (ribeirão) Capivari.” (GALIZONI; RIBEIRO, 2003, p. 135). A água não é percebida como um bem mercantil, ao contrário, água é um dom.

A escassez não é apenas quantitativa, é também qualitativa, conforme descrevem Galizoni e Ribeiro (2003), pois fundamentalmente o seu uso depende do tipo da água – “boa” ou “má”. Para o consumo doméstico, as utilizações são hierarquizadas ou complementares – uso

doméstico/regadio/consumo animal. Quanto ao Programa Um Milhão de Cisternas, os autores perguntaram aos moradores: “Será que não poderiam financiar mangueiras de borracha para captar água corrente? Será que a água da chuva conservará qualidade?” Eles concluíram que os espaços de ação comunitária – escolas, sindicatos, comitês de saúde, ONGs, grupos de mulheres, associações – poderiam se transformar em vetores de diálogos, onde essas diversas perspectivas poderiam se encontrar para equacionar, de uma forma negociada, o problema da água, na medida em que privilegiam atuações locais, e para fortalecer identidades, valorizar o sentido de se pertencer a um território, a uma nascente, a um rio.

Na conclusão de sua pesquisa sobre a compreensão da população sobre o que é o saneamento, Rubinger (2009) ressalta que há uma relativa similaridade entre as percepções. A fala dos voluntários, obtida por meio da técnica de grupos focais, revela que há certo consenso em entender “saneamento como uma forma de proporcionar qualidade de vida para as pessoas”.

Santos e Silva (2009), em uma pesquisa realizada com 31 famílias em cujas residências foram construídas cisternas de água de chuva, identificaram a opinião desse público a respeito das mudanças advindas de uma nova alternativa de acesso à água. Pelo meio de aplicação de questionários e entrevistas semiestruturadas aos chefes das famílias beneficiárias, obteve-se como resultado:

• 90,32% dos entrevistados consideram o programa muito importante para o estabeleci- mento da convivência com a estação seca, considerando-o como uma ação básica estruturante; e

• 74,19% consideram a captação da água de chuva muito importante e que a qualidade de vida deverá melhorar porque gerou a expectativa de que a água armazenada será suficiente para o suprimento de água durante o período de estiagem.

Na avaliação do impacto social, Qiang e Yuanhong (2009) perceberam a ocorrência de uma mudança estrutural no abastecimento doméstico. Além do incentivo governamental de emitir subsídios e definir em regulamento que o sistema pertence à família que o construiu, há também razões relacionadas com a mobilização e a organização para a execução do projeto. Houve a preparação científica para implantação das cisternas, com os projetos de investigação e demonstração realizados por meio de projetos-piloto para governantes e população local, e o treinamento de equipes técnicas de apoio aos agricultores. Os pesquisadores constataram que as famílias melhoraram seu padrão de vida e que houve também um impacto ambiental, pois os agricultores, ao aumentarem sua produção, alcançaram segurança alimentar e hídrica, e

passaram a pensar em mudança do sistema de produção, de lavouras anuais para o cultivo de árvores, pomares, forragens e pastagens, melhorando o ecossistema e a vegetação das montanhas. Deste modo, a coleta e o armazenamento de água de chuva (CAC), por meio de medidas estruturais (criação de superfícies e construção de tanques de armazenamento), melhoram a eficiência da utilização de água de chuva de forma planejada, promovendo o desenvolvimento econômico e social e a preservação ambiental nas áreas onde existe escassez grave de água.

3.5 A avaliação da política pública do P1MC – aspectos tecnológicos