• No results found

2.6 Process and product characterisation

2.6.8 Titratable acidity

“A ideologia é um saber cheio de ‘lacunas’ou de ‘silêncios’que nunca poderão ser preenchidos, porque, se o forem, a ideologia se desfaz por dentro; ela tira sua coerência justamente do fato de só pensar e só dizer as coisas pela metade e nunca até o fim” ( Chauí, 1992, p. ).

A palavra ideologia surgiu no período de 1801-1807, utilizada pelo francês Antoine de Tracy. Foi reconhecido, no final do século XVIII e começo de XIX com os ideólogos, juntamente com Cabanis (médico), Pinel (psicólogo) e Condorcet (matemático). A proposta era construir uma ciência das idéias, ou seja, um estudo da psicologia humana em um sentido naturalista, examinando as origens e o processo de formação das idéias do homem (Marcondes, 1992).

Com Karl Marx e Friedrich Engels surge o sentido definitivo de ideologia, em A

ideologia alemã, escrita em 1845-1846. Para esses autores, a ideologia significa “falsa consciência”, na crítica que faz aos filósofos neo-hegelianos, principalmente a Fuerbach, pela interpretação que faz da religião da qual se originam os mitos e as fantasias humanos, como produto de espíritos supersticiosos e obscurantistas, na crença do sobrenatural. O medo e o mistério relacionados a essas crenças constituem os instrumentos de dominação social.

Essa concepção da ideologia como “falsa consciência” já não faz parte nos estudos de muitos autores, como veremos em Lessa (s.d.) apud Voese (2004, p. 55), por exemplo. O autor refere-se “ao fato de algumas idéias jogarem um papel-chave na escolha das alternativas a serem objetivadas em cada momento histórico”. Essas idéias têm a ver com a visão de mundo, e servem para a tomada de posição dos homens frente aos grandes problemas que surgem em cada época, bem como diante de pequenos e passageiros no cotidiano. A esse conjunto de idéias, o autor chama de ideologia. As idéias-chave, entendidas aqui como referências, adquirem uma função positiva, pois, sem elas, o grupo ficaria sem direção e se dissolveria.

O papel da ideologia é, então, assegurar uma determinada relação dos homens entre si com suas condições de existência, adaptar os indivíduos a suas tarefas fixadas pela sociedade. Desta forma, a ideologia fornece aos indivíduos de uma dada formação social uma homogeneidade no modo de interpretar o mundo, de sentir, querer, julgar e de conformar às suas condições reais de existência (Santaella, 1996, p. 214).

A ideologia é constituída pela realidade e constituinte da realidade. Não surge do nada ou da mente de alguns pensadores. Por isso, dizemos que ela é determinada, em última instância, pelo nível econômico, porém com isso não quer dizer que a ideologia seja um mero reflexo do nível econômico. Nem Marx nem Engels afirmaram ser o elemento econômico o único determinante, porque as formas políticas das lutas de classe e os seus resultados, as formas jurídicas, as teorias políticas, filosóficas e as concepções religiosas exercem também influência nas lutas históricas e podem determinar sua forma. Embora o elemento econômico não seja determinante único das lutas históricas, é o determinante em última análise. Determinação significa que o modo de produção determina as idéias e os comportamentos dos homens e não o contrário (Fiorin, 1990).

Ao abordarmos a ideologia, não poderíamos excluir a sua relação íntima com a linguagem, pois é através dela que as práticas ideológicas se efetivam.

Primeiramente, a sociedade, a linguagem e a mente estão indissoluvelmente interligados, segundo Halliday (1975), citado por Fontanini (2002), pois a sociedade influencia e molda o pensamento, e a linguagem serve como meio de expressão do indivíduo e, conseqüentemente, interliga-se a valores e crenças e aos contextos em que o indivíduo coloca em práticas sociais diversas. Dentre uma das funções da linguagem está a de servir como instrumento de manipulação para quem a usa. E, finalmente, a linguagem é uma forma de prática social, nunca neutra, que por meio de sua elaboração poder estabelecer maior ou menor poder de persuasão.

E nesse sentido, também, podemos complementar, que “pelo fato de as ações ideológicas necessitarem da linguagem, o discurso assume também, no confronto ideológico, contornos peculiares de instrumento de (di)simulação, precisamente pelos recursos que disponibiliza”, tais como : mistificação, argumentação, a sedução, a persuasão, a generalização falsa, a impessoalizaçào, a mitificação, a desfocalização, etc., constituindo um poderoso arsenal e instrumento de intervenção no conflito e da luta pelo poder de intervir nos rumos do desenvolvimento do gênero humano (Voese, 2004, p. 58).

Considerando esses conceitos, acreditamos que, ao analisarmos um gênero discursivo, carta de leitor, por exemplo, é possível obter características ideológicas pessoais do leitor-escritor, tais como: crenças conceitos, valores, propósito discursivo, bem como aspectos que dizem respeito aos valores sociais que o influenciaram ao elaborar o texto. Nesta perspectiva, a ideologia poderia ser vista como uma entidade responsável por moldar idéias e ajudar no processo de formação de identidades. Em vista da dificuldade de se definir o termo

ideologia, muitos estudiosos têm substituído a palavra ideologia pela expressão doxa ou representação (Charaudeuax & Maingueneau, 2004).

Quando dizemos que a revista faz uma seleção das cartas a serem apresentadas, como já vimos anteriormente, ela ocupa um certo papel na (trans) formação da identidade de seus leitores. E esse intuito já pode ser visto como algo em função da ideologia inerente a qualquer instituição. Isso é o que o autor chamaria de prática social. E, nesse sentido, dois conceitos são fundamentais: “a hegemonia e a ideologia”.

A hegemonia representa a liderança através de domínios econômicos, políticos, culturais e ideológicos de uma sociedade. É o poder de uma determinada classe, porém temporário, instável, capaz de mudança.

Quanto à ideologia, ela envolve significações da realidade (o mundo físico, as relações sociais e as identidades sociais) que são construídas por práticas discursivas e que contribuem para produção, reprodução e transformação de relações de dominação.

Ainda, conforme Pereira e Almeida (2002), um dos mais significantes efeitos da ideologia é a constituição do sujeito, na qual a educação e a mídia têm um papel decisivo, funcionando como micropoderes.

As revistas se tornam uma referência hegemônica, pois determinam uma preferência de consenso entre os leitores, resultando daí a aceitação de uma determinada ideologia e certas práticas sociais. Os leitores escrevem cartas para a revista, muitas vezes, também para pedir conselhos sobre determinados assuntos. O poder de influência dessas revistas é legitimado pela sociedade que consome tanto suas edições quanto os produtos anunciados nelas. Essas publicações estabelecem o que vai ou deve ser consumido.

Ao analisar as cartas de leitores, pretendemos observar como certos aspectos ideológicos moldam o discurso de seus autores, deixando entrever as formas de perceber a realidade, de estabelecer identidades e padrões de conduta que vigoram na sociedade em que fazem parte esses indivíduos.