Henrique estava deitado com o peito nu e o rosto parcialmente coberto por uma camiseta. Fui visitá-lo a pedido de sua mulher, dois anos após um acidente que o deixou paraplégico. Quando me procurou no consultório, Cláudia disse que Henrique estava deprimido, tinha desistido da fisioterapia, não mais falava com as filhas. Ela era o sustento da casa, trabalhando em jornada de três turnos, com as marcas da sobrecarga no corpo. Mas o que você vem fazer aqui? – me perguntou quando entrei na sala de sua casa, onde se encontrava. Eu o conheci antes do acidente, ele se lembrou imediatamente. Fiz a apresentação, desta vez me referindo ao programa de saúde no qual eu trabalhava. Gostaria de ter respondido: vim acompanhar você por ruas e espaços de vida, nos quais a tragédia é apenas um dado da natureza, e a vida insiste em direção à alegria. Mas não, disse apenas que fui visitá-lo e ofereci meu serviço.
Os primeiros encontros foram em sua casa, marcados por uma inquietação de seu olhar, pela expressiva devastação de sua condição, e pela irritabilidade dos movimentos da família ao seu redor. Casa cheia, pessoas de um lado a outro, em um cotidiano oposto ao seu próprio, de silêncios e quietude. A primeira vez que o acompanhei foi em direção à clínica de fisioterapia. Fiz isto muitas vezes. Também o acompanhei ao hospital, a alguns passeios pela praça da cidade, a uma associação de pessoas acidentadas, ao banco e ao café. Nossas conversas eram difíceis e tensas, dos mais diversos assuntos, desde a inexistência de vida sexual com a mulher, até a tradicional corrupção do governo.
Daquele quadro depressivo inicial à feitura de uma cartografia subjetiva que o lançou novamente no interesse pela vida, passaram-se dois anos. Henrique manifestara o desejo de trabalhar e com isso estar a maior parte do dia fora de sua casa. Lia muito e me perguntou o que eu achava de sua idéia de voltar a estudar; sentia-se velho, mas algo o empurrava para um dia a dia de fazeres, obrigações e vida comum. Em um sábado de abril do ano de 2002, recebo um telefonema de Cláudia dizendo que Henrique quebrou um pequeno espelho contra seu rosto e que havia sangue por toda a casa. Combinei nosso encontro direto no hospital.
Naquele momento um corte fino rasgava sua barba inevitavelmente mal feita dando lhe ares de uma maturidade adquirida no instantâneo. Não ousaria nenhum psicologismo ou interpretação que o valha no ato que pôs na face o risco de sua dor e de seu sofrimento. Apenas olhamos um para o outro, e refutei toda minha raiva: canalha, covarde, cretino, etc. Como é que você faz isto?
Hoje Henrique trabalha em um cartório, formou-se em administração, separou-se de Cláudia, mantém boa relação com as filhas. Vez ou outra me telefona. O desejo de construção de outras experiências de vida, um rearranjo produzido ao longo do acompanhamento terapêutico pareceu-me estar associado ao deslocamento pela cidade; os fluxos do desejo sobrepostos aos fluxos urbanos, de tal forma que sua reconstrução de vida passou pelos movimentos ambivalentes da relação entre desejo e cidade.
O trabalho com Henrique foi o trabalho de um acompanhante terapêutico pelos espaços da cidade que habitávamos, e por sua história de vida radicalmente dividida em planos distintos após uma fatalidade no trânsito, um colapso, e depois um modo de vida marcado pela lentidão, por um ritmo diferenciado entre velocidades e lentidões e pela reinvenção de uma linha de vida.
Cristiane passou por duas internações psiquiátricas antes de ser atendida por mim em um serviço aberto de saúde mental. Aos vinte e três anos um surto psicótico arrasador rompera o cotidiano de monotonias que percorria entre sua casa, com a família, seu trabalho em uma organização não governamental, e a universidade, onde cursava direito. Na primeira internação conheceu os horrores de uma instituição fechada, instituição pública, diga-se de passagem, pois ainda há muito que se combater no esforço da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Sedada, agredida, incomunicável. Na segunda, uma alta rápida, e o encaminhamento ao serviço.
Após nosso encontro, no espaço de uma oficina, propus-lhe um acompanhamento terapêutico. No primeiro passeio andamos pelas ruas do centro da cidade, entramos em uma loja de CDs e depois em uma confeitaria. Até então ela somente saía de casa para o trabalho ou para a escola. Não tinha amigos, paqueras, namoros. Reconhecida por sua responsabilidade e competência nos estudos, era de fato uma aluna brilhante. A mãe a criou no desconhecimento do pai, falseando em sua narrativa familiar os eventos de sua concepção. Dizia-lhe constantemente que o pai estava morto, que não chegaram a se casar, e que de seu nascimento em diante toda sua vida foi em prol da filha.
Numa manhã qualquer descobre através de uma briga entre mãe e tia a existência de um pai vivo, morador da mesma cidade, e que Cristiane identificava, pois era figura socialmente conhecida.
Durante alguns passeios, recriava alucinatoriamente a imagem do pai. Sofria de uma fobia que a paralisava e temia especialmente suas experiências de estágio no fórum local. O pavor também impedia o toque ou cumprimento a qualquer um que encontrássemos pelo caminho, ou ainda que lhe oferecesse a mão ou a face.
Atendi Cristiane no espaço de consultório algumas vezes, fora da rede pública. Receava que seus medos fizessem com que abandonasse o acompanhamento, o que de fato ocorreu após três meses. Sentindo o peso das repetições que amordaçam o sujeito na nulidade e no espaço fechado de seus dramas, fui visitá-la em sua residência. A mãe me recepcionou do lado de fora da casa dizendo que ela não iria me ver. Suspeitei da terrível simbiose que atrelava as duas, erigida sobre a recusa do sexual, em uma família decadente economicamente, e de hábitos um tanto quanto incompreensíveis para um contemporâneo qualquer; faço aqui referência a uma sociabilidade de décadas passadas.
Ela somente voltou ao serviço algum tempo depois, após ter cortado, como em Bergman, o próprio sexo, mutilando-se com cacos de vidro. A cena de horror se deu quando sua mãe foi procurar o pai para falar das circunstâncias em que a filha vivia. Este afastou peremptoriamente qualquer contato receando o pedido de pensão ou coisa do gênero. O gesto de se cortar parece ter criado a possibilidade de outra relação com a vida. Não falava do ato como expressão de horror ou violência; falava como uma abertura, uma descoberta da sexualidade, fissura ou colapso.
Depois disto, Cristiane tomou gosto pelas caminhadas ao longo da margem do rio que corta o município. Fazia aquilo como ginástica, sempre aos finais de tarde. Nesse horário entrava em contato com uma multidão de caminhantes. O exercício físico parecia reconfigurar sua relação com a cidade. Com gosto alterava os trajetos, experimentava novos caminhos. Fiz com ela muitas caminhadas, e não sem emoção recordo a atenção que dirigia aos elementos da natureza ou à arquitetura da cidade.