• No results found

5. TIPO BÁSICO

5.1 TIPO OBJETIVO

A relevância acerca do papel da tecnologia vem sendo discutida e constantemente reforçada há tempos, fomentando manifestações das ciências econômicas, da sociologia, das engenharias e do campo da administração, todos salientando o fato de que a competitividade das organizações (e das sociedades) está diretamente relacionada à forma como a tecnologia e a inovação são tratadas nesses contextos de coletividades (DRUCKER, 1997; PEREZ, 2004; SCHUMPETER, 1982). A palavra “tecnologia” no seu sentido original deriva do termo grego

techne, o qual significa o conhecimento de como produzir coisas (BURKITT, 2002). Sob uma

Tecnologia, então, pode ser dita como sendo a racionalidade prática que acompanha e guia as atividades produtivas, e é portanto, complexamente envolvida nas relações sociais nas quais pessoas são educadas e treinadas. [...] tecnologia é a forma de ação prática acompanhada pela razão prática, a qual objetiva instilar nos indivíduos certas ações habituais – quer virtudes morais (ou seja, maneiras corretas de agir em situações) ou habilidades técnicas – e, mais tarde, dar-lhes poderes reflexivos para avaliar essas virtudes ou habilidades, provendo a eles a capacidade de refiná-las, modificá-las ou transformá-las. Em outras palavras, tecnologia são meios por intermédio dos quais os seres humanos produzem não apenas produtos e trabalho, mas também a si mesmos enquanto seres humanos tanto nos seus aspectos reflexivos quanto nos não-reflexivos. É mediante várias tecnologias que os humanos desenvolvem os seus hábitos, capacidades, habilidades, identidades e conhecimentos que os marcam como sendo membros de um grupos social e cultural (BURKITT, 2002, p. 223-224, tradução nossa).

Considera-se no presente estudo que tecnologia, enquanto conceito aplicável à realidade organizacional, equivale:

[...] às habilidades, ao conhecimento e aos artefatos teóricos e práticos que podem ser usados para desenvolver produtos/serviços em organizações, bem como utilizados em sistemas para a produção e fornecimento desses produtos/serviços. A tecnologia pode estar embutida em pessoas, materiais, processos físicos e cognitivos, estruturas físicas, equipamentos e ferramentas. Elementos-chave da tecnologia podem estar implícitos, existindo apenas enquanto algo embebido em formas [...] de modo que importantes partes de uma tecnologia podem não ser expressas ou codificadas em manuais, rotinas e procedimentos, receitas, regras, ou outras articulações explícitas (BURGELMAN; MAIDIQUE; WHEELWRIGHT, 2001, p. 4, tradução nossa).

Pelo que se pode perceber do conceito apresentado acima, a tecnologia, enquanto tema de estudos nas Ciências Sociais, comporta elementos tanto materiais (físicos, objetivos, explícitos) quanto racionais (virtuais, subjetivos, tácitos). Essa conceituação adotada foge a determinismos e imperativos tecnológicos, permitindo que não apenas tecnologias preponderantes na atual “era da informação” possam ser analisadas, como também outras tecnologias que inclusive extrapolam os limites organizacionais, preocupando-se com os contextos sócio-históricos nos quais estas surgem e são desenvolvidas. Como exemplo, temos as tecnologias sociais (TS), tema de relevância contemporânea em face às diversas questões de sustentabilidade ambiental, social e econômico-desenvolvimentista de âmbito regional.

Enquanto arcabouço teórico-prático, as TSs surgem a partir da concepção e discussão das Tecnologias Apropriadas (TA) realizadas nas décadas de 1960 e 1970, as quais pretendiam evitar os prejuízos sociais e ambientais que as Tecnologias Convencionais (TC) desenvolvidas em organizações capitalistas de países do então “primeiro-mundo” causavam. Porém, a origem da lógica que embasou o movimento das TAs foi a Índia do final do século XIX, tendo na obra filosófica e ativista de Gandhi o seu expoente referencial. Segundo

Dagnino, Brandão e Novaes (2004), a intenção por parte do pensamento dos reformadores indianos da época objetivava a reabilitação e desenvolvimento de tecnologias tradicionais, praticadas nas aldeias, como estratégia de luta contra o domínio britânico. Ao longo de debates (políticos, sociais e econômicos) e disputas conceituais (acadêmicas) que ocorreram na segunda metade do século XX, caminhou-se para um entendimento ubíquo e multidimensional do que seriam TSs, preferindo-se, por parte de estudiosos e profissionais da área, não elaborar um conceito definitivo, mas salientar valores, princípios, dimensões, parâmetros e implicações a partir dos quais uma tecnologia poderia ser associada (ou conceituada) como social (DAGNINO; BRANDÃO; NOVAES, 2004; RODRIGUES; BARBIERI; IWATA, 2005). Conforme o Instituto de Tecnologia Social (ITS):

Definimos TS como um “conjunto de técnicas, metodologias transformadoras, desenvolvidas e/ou aplicadas na interação com a população e apropriadas por ela, que representam soluções para a inclusão social e melhoria das condições de vida”. [...] A identificação de parâmetros de TS tem como objetivo servir de base para o

futuro estabelecimento de critérios para análise de ações sociais: são os ingredientes e elementos que supomos serem os componentes das experiências que as tornam TSs. [...] Podemos destacar, até o momento: i) quanto à sua razão de ser: a TS visa à solução de demandas sociais concretas, vividas e identificadas pela população; ii)

em relação aos processos de tomada de decisão: formas democráticas de tomada de decisão, a partir de estratégias especialmente dirigidas à mobilização e à participação da população; iii) quanto ao papel da população: há participação, apropriação e aprendizagem por parte da população e de outros atores envolvidos; iv) em relação à sistemática: há planejamento, aplicação ou sistematização de conhecimento de forma organizada; v) em relação à construção de conhecimentos: há produção de novos conhecimentos a partir da prática; vi) quanto à sustentabilidade: visa à sustentabilidade econômica, social e ambiental; vii) em relação à ampliação de escala: gera aprendizagens que servem de referência para novas experiências. Gera, permanentemente, as condições favoráveis que deram origem às soluções, de forma a aperfeiçoá-las e multiplicá-las (INSTITUTO DE TECNOLOGIA SOCIAL, 2004, p. 130-132, grifos do autor).

É importante perceber, segundo o conceito exposto, que a acepção prática de criação de tecnologias e de conhecimentos (tecnológicos ou não) se faz presente e relevante, pois essa reflexão e construção do conceito de TS deve ser capaz de “[...] melhorar práticas sociais e de contribuir para que novos significados para a produção do conhecimento sejam construídos, aproximando os problemas sociais de soluções e ampliando os limites da cidadania (INSTITUTO DE TECNOLOGIA SOCIAL, 2004, p. 123, grifos do autor). Porém, mesmo sob os pontos de convergência sugeridos nos parâmetros estabelecidos, encontram-se divergências na literatura (RODRIGUES; BARBIERI; IWATA, 2005), como, por exemplo, a questão do engajamento participativo dos coletivos nos quais as TSs são criadas/desenvolvidas/aplicadas:

As TSs são “um conjunto de técnicas e procedimentos, associados a formas de organização coletiva, que representam soluções para a inclusão social e melhoria da qualidade de vida”. Muitas tecnologias se orientam sobretudo pela simplicidade, baixo custo, fácil aplicabilidade e impacto social, mas não estão necessariamente associadas a organizações coletivas. São idéias boas e baratas, mas as pessoas não precisam se organizar coletivamente para melhor utilizá-las [...] as tecnologias, os seus procedimentos e métodos: 1) são o pressuposto, a base em torno da qual é possível articular uma ampla rede de atores sociais. São uma condição necessária, mas não suficiente; 2) precisam ser estruturados em modelos flexíveis. Nem tudo que é viável em um lugar pode sê-lo, da mesma forma, em outro. Adaptações inteligentes e espírito inovador explicam por que se fala em reaplicação e não em replicação de TSs. Por outro lado, é também impossível disseminar uma determinada TS se não há um padrão tecnológico cujos elementos essenciais permitam escala [...]; 3) cumprem pelo menos quatro fases essenciais que fazem parte do segredo de sua viabilidade em escala: a) a primeira é a fase da criação. As TSs nascem ou da sabedoria popular ou do conhecimento científico, ou da combinação de ambas; b) a fase de viabilidade técnica, na qual há a consolidação de um padrão tecnológico [...]; c) a fase de viabilidade política. A tecnologia, por várias razões e meios, ganha autoridade e visibilidade. Especialistas influentes comentam e recomendam-na. Entidades civis e outras organizações passam a reivindicar seu uso. Movimentos sociais passam a adotá-la como solução; d) a fase de viabilidade social, quando a tecnologia tem de se mostrar capaz de ganhar escala. É chave que se forme em torno dela uma ampla rede de atores que consigam dar capilaridade à sua demanda e capacidade de implementação. Isso inclui a montagem de uma complexa logística de delivery e assistência. Ou seja, a tecnologia precisa ter bases de apoio para que seja demonstrada, reaplicada e cercada de orientações a quem a aplica; 4) as fases, para serem plenamente cumpridas, precisam tornar possível a articulação entre governo, administração, especialistas e organizações sociais (LASSANCE JR; PEDREIRA, 2004, p. 66-69).

Diante disso, entende-se, no presente estudo, que tecnologias sociais são, segundo a taxonomia da Fundação Banco do Brasil, apud Rodrigues, Barbieri e Iwata (2005, p. 7) “[...] produtos, técnicas ou metodologias reaplicáveis desenvolvidas na interação com a comunidade e que representem efetivas soluções de transformação social”.