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3.  Problemstilling og motivasjon

9.4  Ting og tang

CONSI DERAÇÕES FI NAI S

Pretendo apresentar, tecer, neste momento, algumas considerações e reflexões conclusivas sobre a temática do trabalho: a educação de meninos e meninas a partir da perspectiva das relações de gênero. Cabe ressaltar que o gênero é um conceito que considera que as relações entre homens e mulheres são construídas socialmente. De acordo com essa concepção, o gênero está presente no cenário das relações sociais e manifesta-se através de valores culturais, símbolos, normas, representações e práticas concretas masculinas e femininas.

Dessa forma, as relações sociais de gênero determinam os lugares do masculino e do feminino na vida social e argumentam que os papéis diferenciados para homens e mulheres implicam desigualdades e não são biologicamente determinados, mas social e culturalmente construídos.

Para compreender as relações de gênero, conforme apontei ao longo do trabalho, não se pode perder de vista a questão do poder. Portanto, problematizei, como apontam as abordagens feministas pós-estruturalistas, que examinar os processos das distinções entre homens e mulheres significa perceber como se estabelece uma hierarquia de poder entre os sexos. Ressaltei ainda a necessidade de desvelar e compreender a complexidade e os múltiplos sentidos das verdades preconcebidas e das noções a respeito da masculinidade e da feminilidade. Em meio a essas discussões, o gênero articula-se com a educação, e esse processo realiza-se principalmente por duas instituições: a família e a escola.

Por isso, analisei como o gênero interfere no processo de socialização familiar e escolar dos meninos e das meninas. Neste espaço, as crianças vão aprendendo determinadas posturas, regras, papéis que foram tradicionalmente cristalizados. Por exemplo, que mesmo a mulher exercendo uma atividade remunerada, normalmente relacionada ao trabalho doméstico,

a responsabilidade com o cuidado dos filhos e da casa é exclusivamente sua. Revelou-se também uma posição de submissão da mulher, quando esta afirma que o homem tem mais autoridade na casa.

Como espaço de significação e produção de gênero, desvelei, a partir dos discursos dos/as pais/mães, que a instituição familiar distingue sujeitos masculinos e femininos, privilegiando um sexo em detrimento do outro, ou seja, revelando relações de poder. Quanto à divisão, a ajuda nos afazeres domésticos, na manutenção da casa, comprovou-se que esse ainda é um trabalho distribuído desigualmente entre os gêneros. Embora várias mulheres exerçam uma atividade remunerada fora de casa, elas acabam sendo sobrecarregadas, uma vez que os serviços domésticos ficam sob sua responsabilidade.

O processo de socialização das crianças no ambiente familiar mostra como os padrões de gênero são construídos e reproduzidos entre os meninos e as meninas de forma diferenciada, ensinando posturas e ações diferentes para homens e mulheres. Por outro lado, observei que, para as crianças, os papéis de gênero apresentados pelos pais/mães não são neutros, estáveis ou homogêneos, mas são questionados e alterados. Assim, é também no espaço familiar que os gêneros podem ser confrontados e que as representações estereotipadas podem ser desconstruídas.

E dessa perspectiva, várias mudanças de gênero estão sendo configuradas no núcleo familiar. Foram identificados pontos nodais, impasses e encruzilhadas que levaram as mulheres, as filhas, os homens e os filhos a resistirem aos padrões tradicionais de gênero e a produzirem transformações. Saliento, por exemplo, as mudanças nos arranjos familiares, o empenho dos homens em ajudar e colaborar com suas esposas no serviço da casa e no cuidado e educação dos/as filhos/as.

No contexto de socialização familiar, meninos e meninas são colocados em uma constante tensão para apropriarem-se de determinadas representações do feminino e do

masculino. No entanto, esse lugar é um espaço de manifestação que tende a mudanças. As idéias de algumas crianças e adultos apontam esses sentidos. Por exemplo, quando as meninas dizem que, ao crescerem, não vão ficar cuidando somente da casa, mas que vão ter um emprego remunerado; ou o menino comentar que quer aprender a cozinhar, mas sua mãe não deixa, e afirma que, quando crescer, vai aprender.

A criança tem uma referência de socialização muito forte manifestada nas dinâmicas familiares, na qual se entrecruzam práticas, discursos e conhecimentos que vão sendo gradualmente associados e articulados pelo modo como o poder se exerce. Ressalto que esse também tem sido um espaço de diálogo, de negociação, de participação de ambos os sexos, de reflexão quanto à educação de meninos e meninas, de compreensão de como lidar com a diversidade, provocando inevitavelmente um debate sobre as ideologias de gênero e desconstruindo práticas hegemônicas desiguais. Por essa razão, as percepções de gênero não estão dadas para sempre, mas estão sempre sendo negociadas.

Ao assim acontecer, projeta-se para as crianças uma imagem que reconstrói a produção de diferenças e desigualdades vigentes no lar, que evoca, que reivindica a expressão de uma nova consciência de gênero e que norteia a socialização dos meninos e das meninas.

Tomando como referência esses dados, assumi o desafio de conhecer as representações infantis na construção da masculinidade e da feminilidade a partir das relações de alteridade entre meninos e meninas. As várias interpretações das crianças revelaram uma faceta muito importante a respeito das dimensões de gênero: de que as visões do masculino e do feminino se encontram, muitas vezes, de acordo com o modelo tradicional.

Para avançar nesse diálogo, o conceito de alteridade permitiu um instigante debate sobre a compreensão da diferença, uma vez que os meninos lançaram um olhar sobre as meninas, e vice-versa. Esse exercício trouxe à cena outro pólo de discussão e análise sobre as relações de gênero, desmistificando certas representações, muitas vezes não questionadas, e

abrindo a possibilidade de novas releituras do processo de educação de meninos e meninas. Para isso, foi necessário prescrutar como os valores e os discursos encenados nos relacionamentos entre as crianças estão perpassados por doses de poder. Esse processo destacou o cerne da discussão: de que há uma potencialidade de mudança em termos de parceria de gênero privilegiada pelas crianças.

Nesse campo aberto de construção de identidades, foi possível visualizar um inconformismo diante das diferenças de gênero. Vi, na explicação de ambos, meninos e meninas, não somente a manutenção dos estereótipos, mas, principalmente, o questionamento de sua rigidez: por exemplo, de que homem também chora porque tem sentimento; de que as meninas também têm vontade de soltar pipa, brincar de bolinha de gude e de carrinho.

O aspecto que surpreendeu a partir do que foi acima exposto, é que as falas das crianças expressam a não-exclusão do outro sexo, expõem a necessidade de novas leituras sobre as representações masculinas e femininas e aparecem como mediadoras para recompor o tradicional jogo discursivo. E é justamente esse movimento que desloca formas cristalizadas de representação e formata novas concepções de gênero.

Em outro momento da pesquisa, abordei que o gênero permeia todas as esferas da sociedade e chega à escola. A questão fundamental é que essa instituição é um espaço de socialização, que produz/reproduz, transforma e mobiliza as questões de gênero. Ressaltei, a partir de dados de outras pesquisas realizadas por mim, que o ambiente escolar é um espaço propício para refletir sobre os mecanismos que fortalecem as desigualdades de gênero, como as práticas pedagógicas, os jogos, as atividades escolares, entre outras. Nesse âmbito, mostrei como as representações normativas das professoras sobre o desempenho de meninos e meninas explicam o (in)sucesso escolar.

Ao considerar o gênero como uma construção social que representa relações de poder, a escola tem um importante papel como instituição social, pois veicula questões e práticas