• No results found

Na esteira das incorporações de mais trabalho, encontra-se a incorporação do prolongamento da jornada, já absorvida de forma permanente. Assim, este item mostra, na particularidade, algumas falas dos professores, acenando para a necessidade da manutenção dessa prestação de serviço. A cultura capitalista, desse modo, reitera a criação de necessidades condicionadas pela sociedade de consumo a que estão sujeitos os trabalhadores e suas famílias. Nesse sentido, estratégias que vão, desde a imposição de tecnologias modernas e atuais até desejos despertados, de modo subliminar pela mídia (roupas, carros, bebidas etc.) passam a ser quase obrigatórias no cotidiano dos trabalhadores.

Também, suas falas demonstram que muitas pessoas vêm prolongando a carga horária de trabalho, de forma permanente, com o intuito de manter a mesma ou igual qualidade de vida.

Realizando trabalho em vários locais e prolongando sua carga horária para mais de sessenta horas semanais, encontra-se o médico, professor G.L.S., casado, 33 anos:

Meu medo é ficar desempregado e perder o padrão de vida que levo. Acho que nunca vou parar de trabalhar, apesar de achar que a carga horária de trabalho que desempenho nestes últimos anos é um absurdo e excede até mesmo as minhas condições físicas.

A expressão na fala, quando reproduz “meu medo”, denota a insegurança e a instabilidade vivenciada por esses profissionais das escolas e universidades particulares, temendo ficarem desempregados. Por isso, é preciso “trabalhar mais, exceder condições e limites físicos”. Para manter o padrão de vida, é necessário garantir um “excedente a mais” e, assim, dar conta dessa possível mazela que assola o mundo contemporâneo: o desemprego.

Isso significa dizer que, no decurso da reestruturação produtiva, o ciclo conjuntural de crises expresso na quebradeira que vem ocorrendo e acumulando-se nas últimas décadas, no setor privado da economia, tem

impulsionado os trabalhadores, incluídos os da educação, a assimilar novos59

padrões de vida e de valores.

A professora e vendedora de confecções N.M.F.M, 46 anos, vem há 24 (vinte e quatro) prolongando a atividade de trabalho, reforçando o contexto:

Quero me aposentar daqui a uns três anos, mas vou continuar trabalhando. Não consigo mais parar... Trabalhei a vida toda. Se desse, eu parava de vender, é muito cansativo e desgastante, mas isso nem pensar. Se eu parar, a minha vida como fica? Se assim já está brabo, imagina se eu tiver que parar.

A manifestação da professora, quando diz: ”Não consigo mais parar”; “Se desse, eu parava” e “imagina se eu tiver que parar”, coloca, em evidência, a contradição explícita entre o querer e o poder, entre a vontade e as necessidades. Essa contradição transcende a vontade pessoal e trazem, ao diálogo, a representação coletiva: “imagina se eu tiver que parar”.

Essa tem sido, também, a trajetória do médico e professor universitário A.C.G., 51 anos, que há 24 (vinte e quatro) prolonga o seu trabalho para 50, 55 horas semanais:

Faço isso desde que me formei. Trabalho manhã, tarde e noite, sem contar quando tenho que atender nos fins de semana. Com médico é assim. Se tu quiseres manter um padrão de vida médio, tem que trabalhar... Se parar, perde o espaço profissional. O incrível é que, a cada ano que passa, parece que preciso trabalhar mais ainda.

Ao falar que extrapola a jornada de trabalho, desde que começou a trabalhar, o professor/médico agrega representação social coorporativa muito

59 A oscilação do padrão salarial, ocorrida nas últimas décadas, tem obrigado a chamada classe

média a mudar seus hábitos e valores (viagens, troca de carro, a troca do ensino particular para o público etc.).

visível na contemporaneidade: “com médico é assim”. Isso reforça a compreensão de que somente algumas áreas profissionais necessitam incorporar mais trabalho. Na sua expressão, ele reproduz um deslocamento da “função docente” e a subalterniza em detrimento da função médica. Entretanto, é importante ressaltar que sua carga-horária majoritária é na docência, desenvolvida em sala de aula e nos postos de saúde.

O importante é que a vontade de absorver “outras necessidades”, supérfluas, ou não, constitui-se como vetor do prolongamento da jornada. Assim, essa extensividade traz conseqüências em nível pessoal, físico, psicossocial e familiar. A jornada de trabalho permanente introduz, no cotidiano do indivíduo, muitas vezes, um excesso de carga horária como se ela fosse necessária, justa e humanitária.

Ao ter de trabalhar três turnos e ficar à disposição nos finais de semana, esse profissional reproduz, na particularidade, o vivenciado por outros colegas docentes. São vários professores que, além de suas obrigações “normais”, passam a realizar, em casa, “em tempos livres”, à noite e finais de semana, correção de provas, trabalhos, respostas a e-mails, fazer leituras, entre outros.

É obvio, pois, ser impossível dar conta de outras relações intrínsecas à vida humana, como, por exemplo, tempo para visitar parentes e amigos, fazer churrasco, ir ao cinema, teatro, etc.

O professor universitário e bioquímico C.A., 55 anos, fala assim:

Já faz muitos anos que trabalho assim: manhã, tarde, noite, fins de semana e de madrugada [...] se quiseres manter um padrão de vida um pouco melhor, tem que trabalhar. É claro que tenho algumas horas de folga, não tenho horário para chegar... nem para sair. Tem alguns períodos que esse tipo de trabalho é uma loucura, mas a gente acostuma.

Mostra a contradição maléfica e obscura entre a manutenção do status

quo a qualquer custo, expresso na fala “[...] se quiseres manter um padrão de

vida um pouco melhor, tem que trabalhar [...] manhã, tarde e noite, [...] é uma loucura [...] mas a gente acostuma”.

Detectei, a partir das entrevistas, que a incorporação do trabalho, durante um longo tempo, se entranha na vida do trabalhador e o faz adaptar-se a essa rotina. São jornadas de 50 (cinqüenta), 60 (sessenta), 70 (setenta) horas de trabalho semanal, absorvidas como coisa natural.

Diz, ainda, o professor bioquímico:

Isso é uma coisa natural, a minha esposa e meu filho já se acostumaram com esse ritmo de vida. Termino passando em casa só de passagem, pra dormir. A maior parte do tempo estou no laboratório ou na universidade.

A fala expõe, também, a constante preocupação com a perda da qualidade de vida. O contraponto para isso é a imposição de mais trabalho, como demonstra o testemunho a seguir. Para manter o mesmo padrão de vida, a professora universitária e socióloga C.M.M., 52 anos, trabalha, em média, 55 (cinqüenta e cinco) horas semanais:

Com o aumento de trabalho, aumenta a renda familiar e conseguimos manter o mesmo padrão de vida. Por outro lado, este trabalho faz com que eu e meu marido nos distanciemos da nossa família e, principalmente, do nosso filho que está em idade escolar... Isso é tremendamente prejudicial.

As falas demonstram as conseqüências dessas ações. É o custo pago pela selvageria de um modo de produção, o qual faz com que o trabalhador ora se sinta incluído no sistema, portanto beneficiado: “[...] aumenta o trabalho, aumenta a renda familiar”, ou “[...] conseguimos manter o mesmo padrão de vida”; sentindo-se excluído dos processos de relações fundamentais: “[...] faz com que eu e meu marido nos distanciemos da nossa família” ou “[...] do nosso filho em idade escolar”.

O rebatimento dessas contradições é canalizado para a dupla subordinação expressa nas necessidades humanas.

3.2 A dupla subordinação expressa nas necessidades cotidianas dos

RELATERTE DOKUMENTER