3. Theory
3.5 Time-lapse seismic
§ primeiro: As velhas questões da prática profissional do psicólogo em um novo contexto
As mudanças ocorridas na década de noventa do século passado, e nos primeiros anos deste século, no campo da saúde e da assistência social trouxeram novas possibilidades de trabalho para a psicóloga brasileira. Infelizmente, as mudanças no campo da educação – a partir da implementação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBN) – praticamente eliminaram a possibilidade da inserção sistemática do psicólogo no Sistema Público de Educação. Nesta seção apresentamos uma análise das principais questões da prática profissional delimitadas pela literatura da década de noventa, apresentando o desdobramento de algumas tendências originadas no final do século passado. Essas questões são: a clínica e o
emergentes na Psicologia e a institucionalização da prática profissional da Psicologia.
a) A questão da clínica: o desafio do social e da complexidade
Em 1994, O Conselho Federal de Psicologia publica o Livro Psicólogo Brasileiro:
práticas emergentes e desafios para a formação, que trazia discussões sobre a emergência de novas práticas nas principais áreas de atuação do psicólogo brasileiro, dentre estas a clínica. Em um capítulo escrito por Anna Lo Bianco, Antonio Bastos, Maria Lúcia Nunes e Rosalina Silva (1994), discute-se a ampliação da clínica a partir da superação do modelo clínico tradicional em função de uma série de demandas, concomitantemente ao surgimento de uma clínica ampliada, conforme pode ser visto no quadro 1.11
Uma maior abertura ao contexto social ocorreu na década de 80 por parte dos psicólogos clínicos brasileiros, entre outros motivos pelo esgotamento da demanda por terapias individuais em consultório privado. Essa saída da clínica privada ocorreu em direção à saúde pública, começando assim o processo de institucionalização da Psicologia Clínica em três âmbitos: reforma psiquiátrica, formação de equipes multiprofissionais no hospital e promoção da saúde na atenção básica. 74
Esse movimento gerou a necessidade de se repensar os referenciais teóricos que fundamentam as práticas clínicas. Além disso, surgiu a necessidade de se incorporar a compreensão do contexto social na prática clínica. Em outras palavras, começa a se estruturar um modo de ação clínica baseado na análise do contexto de atuação e no entendimento da prática psicológica como sendo determinada por uma compreensão da natureza humana e das culturas. Isso significa compreender o indivíduo como um ser em contexto, em um trabalho que passa a se desenvolver na intersecção da clínica com o social.
As questões surgidas com essas mudanças podem ser agrupadas em três categorias: o contexto social da psicologia clínica; clínica e política, e psicologia clínica e complexidade.
A noção de contexto social da clínica, de acordo com Ferreira Neto (2004), pode conter alguns equívocos. O mais significativo desses é entendê-lo como simples mudança no ambiente de trabalho e do perfil da clientela, o que obrigaria aos psicólogos adaptarem seu instrumento de trabalho às novas condições de trabalho.
Rosalina Silva (1992), ao comentar a formação em Psicologia para o trabalho na Saúde Pública, afirma que a esperança que havia há alguns anos de uma maior democratização das
práticas psicológicas e também na ampliação da função social do psicólogo – a partir de sua inserção nas instituições públicas – não se concretizou. Um dos principais motivos para que essa mudança não ocorresse seria a manutenção do modelo clínico tradicional. De acordo com a autora,
(...) a priorização da clínica, restrita às atividades de consultação, tem tomado o lugar das atuações integradas às atividades próprias ao nível de atenção esperado. Dessa forma, priorizam-se as ações individuais em detrimento das conjuntas em equipes. A clínica, restrita aos modelos tradicionais psicoterápicos, acaba muitas vezes tomando o lugar das ações integradas às equipes junto aos programas já implementados pela instituição (1992:29).
Ângela Andrade (1996), em sua tese de doutorado, afirma que muitos psicólogos que buscaram sair do modelo clínico tradicional passaram a desenvolver trabalhos de aconselhamento e oficinas com roteiro previamente definido, construindo uma prática que não questiona a concepção tradicional de sujeito que alimenta a clínica clássica.
Alguns autores estão construindo novos modelos de intervenção clínica que efetivamente superem o modelo tradicional. Dentre eles, podemos destacar Liana Costa que tem desenvolvido, nos últimos quinze anos, uma sistematização de metodologias de intervenção clínica em contexto comunitário (Costa, 1998; Costa, 1998a, Costa, 1999; Costa 2003; Brandão, 2001; Brandão e Costa, 2003, Costa e Brandão, 2005a; Costa e Brandão, 2005b). O trabalho visa intervir no sofrimento de famílias de periferia e se fundamenta em um enfoque sistêmico caracterizado como sendo essencialmente contextual. Costa busca situar sua proposta de atendimento clínico comunitário em uma zona de intersecção da Psicologia Clínica com a Psicologia Social Comunitária, com o explícito propósito de superar as diversas críticas feitas sobre os trabalhos clínicos em comunidade, que se limitavam a simples transposição dos modelos de atendimento no consultório para o contexto comunitário. Um resumo desse processo encontra-se no quadro 1.12.
Os elementos fundamentais para o trabalho comunitário a partir de uma abordagem clínica, de acordo com Costa e Brandão (2005b), seriam: a) o enfoque nas relações, principalmente através do trabalho com grupos multifamiliares; b) mobilização da rede social, abandonando a idéia de que a clientela é o único alvo da intervenção e o profissional o único recurso possível, para construir uma rede de solidariedade entre as pessoas que poderão compartilhar os problemas e as soluções comuns; c) vinculação com instituições e lideranças comunitárias e d) ação que vise autonomia e autogestão, de modo que a intervenção comunitária
permanecendo dependentes da ação do profissional de Psicologia.
Uma outra vertente que busca superar a clínica tradicional é a proposta de uma clínica institucional apresentada por Liliana da Escóssia e Maurício Mangueira (2005). Para os autores, o campo do saber e do poder da Psicologia Clínica, ao incorporar o “princípio da desnaturalização” do sujeito – construído por Foucault, redefinirá o seu objeto e seus princípios éticos-metodológicos. A Psicologia sempre pautou suas práticas a partir de uma concepção substancialista do sujeito. O sujeito psíquico foi concebido como sendo uma entidade acabada, idêntica a si mesma, imutável e a - histórica. Além disso, a Psicologia foi concebida como uma ciência distanciada das questões políticas e coletivas.
Escóssia e Mangueira (2005) afirmam que após a produção teórica de autores pós- estruturalistas a Psicologia revelou-se uma trama de saberes e poderes e, assim como seu objeto, um produto histórico social. Esse objeto – o sujeito psíquico – foi desnaturalizado e passou a ser entendido como um processo e não mais como uma substância. Para os autores,
a desnaturalização do sujeito e a politização da psicologia, se por um lado, desestabiliza o campo psi – afastando a psicologia do almejado e cômodo lugar da neutralidade científica e colocando-a como exercício simultâneo de saber e poder, por outro lado, abre uma nova possibilidade de reconfiguração desse campo.possibilita a emergência de práticas que tomam o caráter histórico,contingente, inacabado e múltiplo do sujeito como potência afirmadora e engendradora de novos modos de existência.(Escóssia e Mangueira,2005:94).
A perspectiva clínico-institucional desenvolve uma análise que pretende tornar visível a multiplicidade do ser. Três princípios fundamentam o tornar-se clínico: a) ser crítico de si mesmo e do mesmo; b) revelar sua posição no espaço-tempo; c)situar seus objetivos, a fragmentação das formas instituídas, compondo territórios existenciais e atualizando o pensamento do múltiplo.
Junia de Vilhena, a partir de uma perspectiva psicanalítica, constrói uma concepção de clínica que enfrente o desafio do entendimento do contexto social. Ela desenvolve uma clínica psicanalítica nas comunidades (Vilhena, 2002; Vilhena & Santos, 2000; Zamora; Dimenstein e Vilhena, 2000). Em diálogo com outros saberes, a autora desenvolveu o conceito de eixos de agenciamento subjetivo e propôs uma aplicação ao estudo do atendimento a populações de baixa renda e definiu os seguintes eixos como os mais importantes para o trabalho clínico nas comunidades periféricas: a)território e subjetividade;b) violência e narcotráfico; c) cultura do medo; d)racismo e identidade. Vilhena questiona ainda o que chama de apartheid clínico, que é compreender as populações de baixa renda como seres de carência e, como conseqüência, a
imposição de uma clínica de necessidades para o atendimento dessa demanda. A clínica renovar- se-á quando incorporar novos conceitos teóricos que possam subsidiar uma prática pertinente a uma realidade em constante transformação.
Uma prática clínica mais preocupada com o contexto social implica, necessariamente, modificações nos referenciais teóricos que ancoram essa prática, principalmente no que diz respeito à noção de subjetividade (Dutra, 2004).
A relação entre subjetividade e Psicologia clínica é o fio condutor de um conjunto de textos escritos por Maurício Neubern (2000; 2001; 2004; 2005a; 2005b;). O autor desenvolve sua reflexão a partir de uma epistemologia complexa75, inspirado em Edgar Morin (2001). Neubern (2001) argumenta que a subjetividade foi submetida a um duplo processo de exclusão: como momento de construção do saber e como objeto de estudo. A partir da reflexão epistemológica desenvolvida a partir da segunda metade do século XX, contudo, abriu-se um vasto de campo de pesquisa e reflexões sobre as origens e cenários de produção do conhecimento científico. Gaston Bachelard (1996) pode ser citado com um dos marcos desse processo de questionamento da dogmatização científica. Os autores mais importantes, porém, seriam Kuhn (1997) – com seu conceito de paradigma e a importância da comunidade científica – e Lyotard (1998), com sua compreensão da ciência numa perspectiva de jogos de linguagem. Além disso, o advento das teorias dos sistemas complexos76 – que trouxeram para as ciências
75 A epistemologia da complexidade, formulada por Morin (1996), fundamenta-se na idéia que a realidade é
formada por partes distintas, e muitas vezes antagônicas, que não podem ser irredutíveis a qualquer substância. O pensamento da complexidade, portanto, ao ser fiel ao real – busca integrar os diferentes modos de pensar e construir uma compreensão da realidade que incorpore as contradições e dualidades percebidas pela mente humana em sua compreensão da natureza, da sociedade e de si mesma. Os fundamentos da epistemologia da complexidade foram extraídos de três campos do conhecimento iniciados na década de quarenta: a teoria da informação, a cibernética e a teoria dos sistemas. Seus princípios, estabelecidos por Morin (op.cit.) são: princípio dialógico, compreensão da unidade de noções antagônicas que – através do seu conflito – criam processos organizadores da realidade em estruturas cada vez mais complexas; princípio recorrente, nega a determinação linear e afirma a retroação reguladora – não qual os efeitos retroagem sobre suas causas, modificando-as através de processos de regulação; princípio hologramático, afirma que a parte está no todo e o todo está na parte, usando a imagem do holograma que, ao ser dividido, sempre apresenta imagens completas, não fragmentadas.
76 (...) sistemas complexos são aqueles compostos de muitos elementos e/ou subsistemas diferentes interagindo espacialmente e temporalmente de forma não linear, gerando padrões emergentes que são observáveis apenas em escalas maiores. Neste sentido, o termo complexidade refere-se à descrição dos estados de um sistema complexo. Existem diferentes medidas de complexidade. Algumas delas podem estar relacionadas simplesmente com a quantidade de diferentes elementos que compõem um sistema, o que é, na verdade, uma medida parcial, pois desconsidera as relações entre os elementos do sistema. Outras medidas estão relacionadas com o número e intensidade (grau de conectância) das relações entre os elementos do sistema, formando uma intrincada rede de relações.Outras medidas ainda podem estar relacionadas com a relação entre o número de diferentes elementos do sistema e o número de funções realizadas pelo sistema, de modo que um sistema com pequeno número de elementos diferentes e um maior número de funções seria mais complexo que um sistema com um grande número de elemento, mas com relativamente poucas funções. Desta forma, alguns sistemas podem ser mais ou menos complexos que outros (Souza e Buckeridge, 2004:408).
e auto-organização – permitiram uma nova avaliação do conceito de subjetividade.
Neubern (2004) argumenta que a Psicologia Clínica tradicional aprisionava os processos psicológicos hermeticamente no interior do sujeito, desenvolvendo uma cegueira sistemática do mundo social, com o objetivo de analisar importantes momentos da vida de um paciente. Seguindo Gonzalez Rey (2003), o nosso autor afirma que o conceito de subjetividade busca integrar as dimensões comumente dicotomizadas pelas escolas tradicionais de Psicologia Clínica, tais como individual e social, interno e externo, atual e histórico, construído e constituído, universal e singular, essência e existência de modo que os componentes desses pares não assumam uma relação de hierarquia por uma lógica pré-estabelecida, mas que são compreendidos em função do momento que os sujeitos atravessam. Essa visão de subjetividade somente faz sentido a partir do paradigma da complexidade, que compreende a realidade como algo constituído por múltiplas articulações, contradições, interpenetrações e por um conjunto constante de processos de mudança.
O reconhecimento da subjetividade como ponto central na construção do conhecimento implica, para Neubern (2001), em uma discussão sobre utopias a respeito da sua condição de objeto de estudo e como momento fundamental do espírito científico.
A primeira utopia é uma democracia de idéias, na qual o diálogo seja possível para construir a subjetividade. É necessária uma nova noção de Psicologia Clínica, que assuma um compromisso com o conhecer. Isso implica em uma segunda utopia: uma postura de cidadania com relação ao próprio conhecimento, para que este se constitua em conhecer. Em outras palavras,
Conhecer implica no sujeito que dialoga com o objeto de estudo e simultaneamente com as múltiplas teias que perpassam seu cenário de estudo. É um apelo veemente para alertar os psicólogos de que o conhecimento e a clínica que são construídos estão profundamente relacionados com os pensamentos vigentes na sociedade (Neubern, 2001:251).
O campo da Psicologia Clínica sempre foi responsabilizado pela ausência de um compromisso com as mudanças sociais por parte dos psicólogos brasileiros. A presença de práticas clínicas comprometidas com a emancipação do ser humano é algo alvissareiro, apesar do risco de certo imperialismo clínico produzido pela presença da abordagem clínica nos campos da saúde e do desenvolvimento comunitário. É preciso reconhecer, contudo, que a clínica tem um papel importante para a construção de uma Psicologia relevante no contexto da sociedade brasileira.
A construção de uma clínica que nos permita acolher às vítimas da violência em suas múltiplas manifestações é um imperativo ético. Um outro desafio importante será superar a dicotomia clínica versus social que impera no consenso entre os profissionais da Psicologia.
Wanderley Codo escreveu há algum tempo sobre a Psicologia Organizacional como sendo o “Lobo Mau” do conhecimento psicológico, contribuindo para a superação do preconceito existente contra aquele campo de trabalho. Talvez seja preciso escrever sobre a clínica e criticar a crença de que essa área da Psicologia sofra do “Efeito Gabriela”. 77
Clínica Tradicional Demandas colocadas ao psicólogo Clínica contextualizada78
1) Atividades de psicodiagnóstico e/ou terapia individual ou grupal; 2) Atividade exercida em consultórios particulares,restrita a uma clientela proveniente de segmentos sociais mais abastados;
3) Atividade exercida de forma autônoma, como profissional liberal; 4) Enfoque intra-
individual, com ênfase nos processos psicológicos e psicopatológicos e centrado em um indivíduo abstrato e a-histórico; 5) Hegemonia do modelo
médico, caracterizado pela aceitação da autoridade do profissional.
1) Construção de modelos alternativos de atenção na promoção da saúde;
2) Atendimento a segmentos da população anteriormente excluídos;
3) Atendimento a questões que extrapolam o plano individual;
4) Exercício de funções gerenciais ou de coordenação;
5) Entendimento do processo biopsicossocial envolvido no binômio saúde-doença; 6) Necessidade de trabalhar aspectos
ideológicos que geram estigmas 7) Necessidade de atendimento integrado
(outros saberes para a compreensão do fenômeno clínico);
8) Necessidade de vincular seu trabalho a objetos institucionais;
9) Imposição de postura crítica em relação a conhecimentos gerados em outros contextos culturais;
10) Necessidade de reflexão e sistematização do conhecimento gerado a partir de novas práticas, nos novos contextos e com uma nova clientela
1) Inserção no campo da saúde: clínica antimanicomial, nos hospitais e na saúde básica; 2) Pluralidade teórica e maior aproximação com as Ciências Humanas; 3) Trabalho multidisciplinar e multiprofissional; 4) Compreensão do contexto social da clínica
Quadro 1.11: Demandas colocadas à clínica tradicional que exigiram a produção de uma clínica contextualizada.
b) A Psicologia Escolar no Brasil: autocrítica e compromisso social
A discussão sobre a relevância e a consistência teórica da Psicologia Escolar no Brasil tem início no final da década de 1970 e início dos anos 80, porém somente com a publicação do livro Psicologia e Ideologia – uma introdução crítica à Psicologia Escolar, de Maria Helena de Souza Patto, é que se começou a discutir o papel social da Psicologia Escolar. Durante a década
77 Trata-se da modinha do Dorival Caymmi cuja letra dizia: “eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo assim,
vou ser sempre assim Gabriela, sempre Gabriela”.
78 Várias expressões são usadas para designar essa nova proposta de clínica, a saber: clínica ampliada, clínica do
social, clínica social, etc. Preferimos a expressão Clínica contextualizada, seguindo Ferreira Neto (2004), por acharmos que esta é a que melhor expressa a principal característica dessa nova clínica, que é justamente o entendimento da importância dos contextos sociais para a construção de uma prática relevante.
(1988), Urt (1989) e Patto (1990)79analisaram a realidade da psicologia escolar brasileira . Em comum essas reflexões apresentavam uma clara intenção de superar o modelo clínico de
atuação, fundamentado no diagnóstico e tratamento centrado nos alunos.
Uma autora que se destaca no período supramencionado é Maria Helena Patto, cujo trabalho analisaremos com mais vagar.
Em Psicologia e Ideologia (1984) a autora – a partir da teoria da reprodução de Bourdieu e Passeron (1982), constrói uma crítica à teoria da carência cultural concomitantemente a uma discussão sobre o papel ideológico da prática psi no contexto escolar, justificando a exclusão das crianças oriundas das classes populares em nome de um diagnóstico pretensamente científico.
Na sua tese de livre-docência, Patto (1990:343-348) apresenta uma discussão sobre o fracasso escolar, tendo como principais conclusões as seguintes:
1. As explicações do fracasso escolar baseadas nas teorias do déficit e da diferença cultural precisam ser revistas a partir do conhecimento dos mecanismos escolares produtores de dificuldades de aprendizagem;
2. O fracasso da escola pública elementar é o resultado inevitável de um sistema educacional congenitamente gerador de obstáculos à realização de seus objetivos;
3. O fracasso da escola elementar é administrado por um discurso científico que, escudado em sua competência, naturaliza esse fracasso aos olhos de todos envolvidos no processo;
4. A convivência de mecanismos de neutralização dos conflitos com manifestações de insatisfação e rebeldia faz da escola um lugar propício à passagem ao compromisso humano-genérico.
Em um levantamento de pesquisas sobre o fracasso escolar realizado em 2004, Patto – a partir de um corpus composto de teses e dissertações defendidas entre 1991 e 2002 na Faculdade de Educação e no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo – constatou a existência de quatro vertentes que compreendem o fracasso escolar: como problema essencialmente psíquico, como problema meramente técnico, como questão institucional e como questão fundamentalmente política. Um dos aspectos pregnantes da produção avaliada é a presença de explicações psicologizantes. A permanência dessa versão mostra o poder do convencimento que as concepções que não vão além do senso comum possuem (Angelucci et. al, 2004).
Uma pesquisa que foi na contramão dessa tendência psicologizante foi a de Correia