Devemos compreender o poder que as imagens têm sobre os indivíduos, neste caso específico, o poder das imagens religiosas. “Por que as imagens provocam tanta paixão?” Latour (2008) que nos auxilia nessa reflexão levanta a mesma questão; e por imagem o autor quer “dizer qualquer signo, obra de arte, inscrição ou figura que atua como mediação para acessar alguma outra coisa” (2008, p. 114).
Podemos dizer que o turismo religioso baseado em construções totêmicas, tal qual destacamos nesta pesquisa, se assenta sobre um universo de produção de imagens? Sem sombra de dúvidas a resposta é afirmativa, pois fica claro o papel das imagens e do universo simbólico que elas carregam, sobretudo quando estamos trabalhando com paisagens compostas por imagens gigantes de entidades católicas. Levado por questionamentos similares a estes Latour (2008) busca responder também o papel das imagens através de uma arqueologia do ódio e do fanatismo no que diz respeito às imagens da arte, da religião e da ciência:
Por quê? Porque estamos cavando em busca da origem de uma distinção absoluta – e não relativa – entre verdade e falsidade, entre um mundo puro, absolutamente esvaziado de intermediários feitos pelo homem e um mundo repulsivo, composto de mediadores feitos pelo homem, impuros, porém fascinantes. “Se, ao menos”, alguns dizem, “pudéssemos ficar sem qualquer imagem. Quão melhor, mais puro, mais rápido, seria nosso acesso a Deus, à Natureza, à Verdade, à Ciência.” Ao que outras vozes (ou, às vezes, as mesmas) respondem: “Que pena (ou: felizmente), não conseguimos ficar sem imagens, intermediários, mediadores de todos os jeitos e formas, porque essa é a única maneira de ter acesso a Deus, à Natureza, à Verdade e
à Ciência.” Esse é o dilema que queremos documentar, compreender e, talvez, superar. No veemente resumo que Marie-José Mondzain realizou da discussão bizantina sobre as imagens: “La vérité est image mais il n’ya a pas d’image de la vérité” [A verdade é imagem, mas não existe uma imagem da verdade]. (LATOUR, 2008, p. 113-114)
Foquemos nossa atenção aqui às imagens religiosas, embora a reflexão de Latour (2008) extrapole esses limites. O autor faz um movimento interessante de apontar a imagem como objeto de mediação para ter acesso a deus. A reflexão gira em torno dos adoradores e dos destruidores de imagens (iconófilos e iconoclastas), mas os ultrapassa para pensar nas razões dessa obsessão pelas imagens. De qualquer forma, o fragmento acima expõe a ideia de que a imagem produzida pelos homens é necessária para tais “acessos”, para mediar as relações como uma espécie de escada para a imaginação e para o simbolismo. A produção de imagens, nesta perspectiva, figura como uma multiplicadora de acessibilidades para o plano do sagrado.
Coriolano (2001) apresenta uma ideia interessante sobre a produção de imagens que merece destaque. A autora fala que “diariamente uma infinidade de imagens nos é apresentada, mas nossa percepção vai selecionando só aquelas que nos interessam.” (2001, p. 212). Em contrapartida, ela também diz que quando o emissor de determinada imagem acrescenta mais estímulos são maiores as suas chances de atrair atenções colocando em cheque a capacidade dos receptores dessas mensagens imagéticas (conteúdos simbólicos das imagens) de refletir criticamente sobre os significados das mesmas (CORIOLANO, 2001).
Sobre essas receptividades das imagens e suas espacialidades e significações Gomes (2008) aponta que as imagens pertencem ao domínio da representação. Este autor utiliza-se do conceito de cenários para analisar as imagens na Geografia. O autor busca com isso uma aproximação, que em certa medida é metafórica, de ligar as dimensões físicas às ações que são possuidoras de um enredo e uma trama. O conceito de cenário surge para o autor como um “instrumento para desvendar o conjunto das figurações espaciais e suas relações com o enredo ou trama, ou seja, com a própria estrutura narrativa” (2008, p. 204).
O interessante de se perceber em ambos os autores, embora trabalhem em perspectivas um tanto distintas é o esforço de trazer a imagem para ser pensada junto ao seu conteúdo, de suas cargas simbólicas e de sua imagética. E o conceito de imagética é fundamental para compreendermos as relações que as imagens estabelecem com seus significantes e significados na composição das paisagens. Sobre a perspectiva imagética a fala de Lopes (2010) é interessante, pois este autor traz os estudos nesta área como um
[...] campo extensivo de objetos figurativos de uma cultura, ou de uma esfera mais ou menos autônoma da experiência cultural, que se pode traduzir em códigos que cristalizam uma problemática do imaginário. Assim como a imagem adquire especificidade segundo seu lugar nas redes de interações complexas que constituem a
realidade das culturas, a imagética é um campo, onde os objetos figurativos compõem uma rede também indissociável (LOPES, 2010, p. 36).
Temos então a imagem uma duplicidade nesta capacidade de mediação das imagens: a imagem como mediadora de: indivíduo-entidade e indivíduo-indivíduo. Ou seja, investigando o peso das imagens religiosas nas relações cotidianas, Lopes (2010) nos aponta como “no embate entre as formas tradicionais e hegemônicas do catolicismo brasileiro, os devotos apropriaram-se das brechas deixadas no campo religioso e redefinem também o catolicismo romanizado, a partir da experiência do culto aos santos” (LOPES, 2010, p. 98). Isso demonstra como a interesse pelas imagens é um poderoso aliado na compreensão das dinâmicas em torno das paisagens totêmicas.
As imagens dos santos vão sendo produzidas (escritas no espaço) embebidas de intencionalidades e significados e servem como mediação para se ter acesso ao plano do sagrado ao mesmo tempo que também subsidiam as relações entre os leitores daquela paisagem através da sua carga imagética e simbólica. Cada indivíduo constrói suas próprias representações a partir de uma leitura própria, podemos dizer que a paisagem é novamente escrita a cada uma de suas leituras. Porém, não é só a paisagem do totem católico que irá ser reescrita pelos leitores, ou seja, esta paisagem também muda alguma coisa na alma (leia-se espírito, mente, imaginário, etc.) de quem a comtempla (LOPES, 2010).
Levando em consideração os aspectos psicológicos, simbólicos e emocionais das imagens da paisagem geográfica e também cultural apresentados acima realizamos um movimento que nos levou da noção de paisagem cultural à noção da paisagem religiosa. Neste sentido, levando em consideração as discussões apresentadas acima percebemos que existem elementos suficientemente estruturados nas pesquisas em Geografia para que possamos traçar tais distinções entre estas categorias. O próximo tópico aborda o totemismo como um elemento dinamizador da paisagem, a partir da discussão proposta pelos autores – inclusive diversos “não geógrafos” – nos propomos a compreender como um elemento religioso arcaico pode ser incorporado às práticas contemporâneas e como ele poderá fornecer-nos aporte teórico para pensarmos uma paisagem profundamente impregnada de elementos religiosos.