4.5 Avslutning
4.5.2 Tiltak som kan være aktuell i tilrettelegging
A representação dos signos:
No século XVI, considerava-se que os signos tinham sido depositados sobre as coisas para que os homens pudessem desvendar seus segredos, sua natureza ou suas virtudes; mas essa descoberta nada mais era que o fim último dos signos, a justificação de sua presença; era uma utilização possível, a melhor, sem dúvida; mas não tinham necessidade de serem conhecidos para existirem: mesmo se permanecessem silenciosos e se jamais ninguém os percebesse, nada perdiam de sua consistência. Não era o conhecimento mas a linguagem mesma das coisas que os instaurava na sua função significante.300
Portanto, o signo espera silenciosamente a “vinda daquele que pode reconhecê-lo”.301 A escrita detém a verdade, “o entrelaçamento da linguagem com as coisas, num espaço que lhes seria comum, supõe um privilégio absoluto da escrita.”302 O papel
298 FOUCAULT, 2011, p. 58.
299 Ibid., 2011, p. 55-6, grifo nosso. 300 Ibid., 2011, p. 81.
301 Id.
fundamental que a escrita ocupa no Ocidente vem apoiado pela imprensa, pela circulação dos manuscritos orientais que chegam à Europa; por uma literatura nova; desatrelada da fala; e pela interpretação dos textos religiosos sobre a tradição e o magistério religioso. No século XVI a linguagem tem “por natureza primeira ser escrita”.303
No século XVI, a semelhança era a relação fundamental do ser consigo mesmo e da dobradura do mundo.304 A função do signo na categoria da similitude, do século XVI, era reduzir e reunir.305 A relação com a Ordem é a relação da Interpretação, que implicava conhecimento da similitude, “assim a colocação em ordem por meio dos signos constitui todos os saberes da identidade e da diferença”306 e o saber “do século XVI condenou-se a só conhecer sempre a mesma coisa, mas a conhecê-la apenas ao termo jamais atingido de um percurso indefinido.”307
O sentido da similitude pelo jogo dos signos e das semelhanças, no século XVI, é carregado de sentido metafísico para conhecer o mundo, “a natureza como jogo dos signos e das semelhanças, fecha-se sobre si mesma segundo a figura redobrada do cosmos.”308 Como garantia do saber e de sua expansão, a epistémê da semelhança enrolada nos signos pensava a relação microcosmo e microcosmo, acolhia no mesmo plano erudição e magia:
Afigura-se-nos que os conhecimentos do século XVI eram constituídos por uma mistura instável de saber racional, e noções derivadas da prática da magia e de toda uma herança cultural, cujos poderes de autoridade a redescoberta dos textos antigos havia multiplicado. Assim concebida, a ciência dessa época aparece dotada de uma estrutura frágil; ela não seria mais o lugar liberal de um afrontamento entre a fidelidade aos antigos, o gosto pelo maravilhoso e uma atenção já despertada para essa soberana racionalidade na qual nos reconhecemos.309
A configuração fundamental do saber remetia à similitude e ao desvendar das marcas. Também à erudição, a forma mágica era inerente à maneira de conhecer. No pensamento do Renascimento, a categoria do microcosmo desempenha papel fundamental no saber, ela é aplicada a todos os domínios da natureza: “o jogo das semelhanças redobradas”. A investigação das coisas é garantida na reflexão do macrocosmo no microcosmo, a criação do mais alto, ou seja, de Deus, se encontra espelhada em todas as coisas criadas por Deus no
303 FOUCAULT, 2011, p. 53 304 Ibid., 2011, p. 94. 305 Ibid., 2011, p. 83. 306 Ibid., 2011, p. 79. 307 Ibid., 2011, p. 42. 308 Ibid., 2011, p. 43. 309 Ibid., 2011, p. 44.
mundo. O jogo das semelhanças se desenvolve sob essa analogia metafísica: “A natureza, como o jogo dos signos e das semelhanças, fecha-se sobre si mesma segundo a figura redobrada do cosmos.”310
O conceito do mesmo para Foucault é a verdade metafísica, que é em toda a parte a
mesma, sempre o jogo do signo e do similar, ou seja, as marcas da verdade instituídas por Deus. Para Foucault, a natureza e o verbo se entrecruzam ao infinito, formando um grande texto único, o mesmo texto que está em todas as coisas. É o conceito do mesmo de Foucault, como discurso da domesticação da sociedade Tupinambá, que estamos investigando na escrita e na linguagem do viajante Léry, em pleno século XVI, como forma de assimilação do corpo social Tupinambá.
Como já haviamos investigado, a produção de Léry fez parte da produção de um pequeno grupo de textos interrelacionados, ilustrando diferentes significados adquiridos pela Europa, que competiram e cooperaram na interpretação protestante do Novo Mundo, em confronto aos textos católicos franceses e à violência católica dos textos espanhóis na América.
Através do relato de Colombo, no qual já se vê a construção do outro como referência para os relatos que virão durante o século XVI, observamos a construção do imaginário sobre o Novo Mundo. E, é no jogo da semelhança e da diferença, que a criação desse outro desconhecido se legitima na assimilação do outro como o mesmo e, que a diferença perpetua a imagem da superioridade do europeu e a inferioridade dos americanos.
É nessa reciprocidade da análise histórica da escrita desses relatos que fazemos a pergunta: A assimilação da cultura dos indigenas, durante a descoberta e a conquista da América, no recorte dos Tupinambá, contribuiu para a condição de escravidão e de matabilidade no Novo Mundo? O corpo escravizado pertence ao dono do escravo, que tem o direito soberano de matá-lo sem julgamento.311
310 FOUCAULT, 2011, p. 43.
3.7 ESCRAVIZAR – A POSSE DO CORPO DO OUTRO
A investigação de Todorov se apoia num estudo que chega à totalidade das fontes escritas sobre a descoberta e a conquista da América espanhola, mesmo que centrado em Colombo, Cortez e Las Casas. Seu estudo procura abarcar em profundidade as dimensões e os paradoxos dos projetos pessoais e comuns desses personagens da descoberta e da conquista da América. O que escolhemos enfocar é o comum entre esses relatos, que são o projeto assimilacionista da cultura índigena, ou seja, torná-la europeia, e que se confunde com o desejo de cristianizar, e o paradoxo do desejo de extorquir suas riquezas, possuir suas terras e escravizá-los.
O aporte do estudo de Todorov abre horizonte mais amplo e fundamental para o estudo do objeto histórico em questão, quanto ao quesito de possibilidades de comparação do relato de Léry e os primeiros escritos europeus do encontro.
Voltando à questão da assimilação cultural, a investigação emerge das dimensões da escrita conquistadora do novo mundo no tratamento das políticas do corpo na relação dos primeiros encontros entre o europeu conquistador e o novo território a conquistar. Sob a construção verbal de Léry, e as similitudes com a experiência da alteridade nos outros relatos do século XVI, o espaço da diferença e os sujeitos selvagens que o habitam, houve um longo trabalho de construção das imagens verbais. Esse imaginário da experiência da alteridade se constituiu em representações da escrita como agente para a posse da corporalidade indígena.
Se pode-se distinguir duas atitudes na experência da alteridade, que continuarão presentes até o século XVII, e praticamente até nossos dias, em todo o colonizador diante do colonizado: o assimilacionismo e a diferença. O comportamento do Mesmo (europeu), ou seja, a projeção dos valores europeus do século XVI, que antropofagiza o corpo social indígena na recusa de uma substância humana realmente humana, baseados na convicção de que o mundo é um só, nesse espaço da semelhança, quando o espelhamento configura o índio como humano, porém num estado anterior ao civilizado, ou seja, selvagem, o espaço da semelhança instaura o espaço da diferença.
Percebemos, no comportamento de Colombo, a formação da dimensão de rede que vai tecendo gradativamente a trama das atitudes acima mencionadas com uma ideologia escravagista e, portanto, à afirmação da inferioridade dos índios. Isto já se nota nos primeiros
textos de Colombo: “Devem ser bons servidores e industriosos” de 11.10.1492; “Servem para obedecer”312 de 16.12.1492.
Na condição de seres inferiores aparecem distinções para a condição de escravização, Todorov cita as intenções de Colombo:
[…] entre índios inocentes, cristãos em potencial, e índios idolatras, praticantes do canibalismo; ou índios pacíficos(que se submetem ao poder dele) e índios belicosos, que merecem ser punidos; mas o importante é que aqueles que não são cristãos só
podem ser escravos; não há uma terceira possibilidade.313
Colombo não é nem um pouco sutil, tentando vender sua idéia de comércio humano, quando sugere aos Reis da Espanha o lucro em reutilizar os navios, que transportam a carga de animais que vem do sentido Europa-América, carregarem na volta à Europa a carga humana escrava, como transparece no relatório de Antonio Torres: “Os transportadores poderiam ser pagos em escravos canibais, gente feroz mas saudável e de ótimo entendimento, os quais, arrancados de sua desumanidade serão, cremos, os melhores escravos que há (Relatório para Antonio Torres, 30.1.1494).”314
A insistência de Colombo, durante os anos de 1494 a 1498, nas cartas aos reis, que não aceitam as primeiras sugestões de Colombo, preferindo ter vassalos em vez de escravos; súditos que possam pagar impostos. Colombo insiste na escravidão não só aos reis, mas aos comerciantes, utilizando a persuasão religiosa. Em seus relatos, transparece a intensão da fé intimamente ligada a intensão de continuidade e expansão da escravização do indígena americano:
Daqui poderíamos em nome da Santíssima Trindade, tantos escravos quantos se possam vender, e também brasil (madeira). Se as informações de que disponho são boas, dizem que poderiam ser vendidos quatro mil escravos, que poderiam valer milhões ou mais. Os deslocamentos podem apresentar alguns problemas no início, mas estes serão rapidamente resolvidos.”É verdade que muitos deles morrem no momento, mas não será sempre sempre assim. Os negros e os canarinos tinham começado da mesma maneira. (Carta aos reis, setembro de 1498).315
Para Todorov, “a história da descoberta da América, no primeiro episódio da conquista, é marcada por esta ambigüidade: a alteridade humana é simultaneamente
312 COLOMBO apud TODOROV, 2011, p. 64, 313 TODOROV, 2011, p. 64, grifo nosso. 314 Ibid., 2011, p. 65.
reveladora e recusada.”316 Se a escravidão, nos relatos de Colombo, fica duramente explícita, nos de Léry ela é velada – como no texto sobre a nudez das índias, que aparecem como natural, o que revela que ela já é parte da história do Brasil. Por outro lado, a contribuição da dominação francesa no século XVI, que ocorreu no período da França Antártica, com relação à ecravidão do indígena, embora breve, é Léry quem nos dá notícias, em seu relato de chegada ao forte francês de Villegagnon:
Esse foi o bom tratamento que nos deu Villegagnon desde o primeiro dia de nossa chegada. À noite quando se tratou de arranjar aposento, foram o senhor Du Pont e os dois ministros acomodados em uma sala igual à do meio da ilha e nós, por gentileza, num casebre coberto de palha, que um escravo construíra a seu modo à beira-mar.317 Apesar de relatar a escravidão, Léry não concorda com a conversão e a escravidão dos indígenas. Não crê na conversão, mas deseja que os indígenas permaneçam em contato com os brancos. A escravidão na França Antártica era prática dos católicos.
Lévi-Strauss, em Tristes Trópicos, comenta a respeito da morte de 800 indígenas por epidemia:
A fome e a doença instalam-se no Forte. Villegagnom principia a manifestar seu temperamento tirânico; os forçados se revoltam: são massacrados. A epidemia passa para terra firme: os raros índios ainda fiéis à missão são contaminados. Oitocentos índios morrem assim (LÉVI-STRAUSS, 1996, p. 89) 318.
Nas reflexões acima, fica posta a projeção de um ideal cristão, seja católico ou protestante, no encontro das culturas do novo mundo. Poderíamos dizer que esse encontro se deu num ambiente cultural e político de estado de exceção? O europeu não via o índio, submetia-o à cultura européia, ignorando a identidade indígena. As guerras da conquista e a dominação dos povos indigenas, com suas diferenças estratégicas ao longo dos continentes americanos, se caracterizou pela justificativa da evangelização. A convição de possuir a verdade é já uma violência, e as ações da conversão quando se mituram às ações de massacre adquirem aspecto absurdo.319
316 Ibid., 2011, p. 69.
317 TODOROV 2011, p. 69, grifo nosso. 318 LÉVI-STRAUSS, op. cit., 1996, p. 89. 319 Ibid., 1996, p. 38.
Sugerimos, para aqueles que queiram se aprofundar no estudo do corpo matável e em suas representações, o trabalho de Christine Greiner.320
A estimativa para o genocídio indígena no Brasil tenha sido de 70% da população, no século XVI. A imposição de um novo sistema sóciocultural e o confinamento em aldeias de catequese foram técnicas portuguesas, no Brasil do século XVI, que promoveram a dominação, o apagamento e o genocídio cultural índigena, e que fazem parte do sistema de matabilidade, ou seja, da política de soberania sobre a vida do corpo. As técnicas da política da vida utilizadas foram: chacinas, contaminação dos alimentos com doenças contagiosas, estupros, disseminação de bebidas alcóolicas, invasão e apropriação de territórios, devastação do meio ambiente, entre outras. É esta a imagem que fica do indígena brasileiro no século XXI, na contrapartida da criação de maravilhas nos relatos das viagens ao Novo Mundo.
Compartilhamos o sentimento de Lévi-Strauss diante da realidade do presente e dos vestígios do passado histórico dos filhos desta terra Brasil, passível de ser conhecido e representado na literatura de viagem:
Viagens, cofres mágicos com promessas sonhadoras, não mais revelareis vossos tesouros intactos! Uma civilização proliferante e sobre-exitada perturba para sempre o silêncio dos mares! Os perfumes dos trópicos e o frescor das criaturas estão viciados por uma fermentação de bafios suspeitos, que mortifica nossos desejos e fada-nos a colher lembranças semicorrompidas.321
Os cacos da cerâmica vermelha e negra que o tempo não destruiu são os vestígios da cultura Tupinambá, da Guanabara. Entretanto, a força da escrita conquistadora dos relatos de viagem ao Brasil do século XVI deixou as marcas da violência, subjetiva e objetiva, sobre o corpo Tupinambá. A tessitura dessa história, como vimos, é feita à imagem de um grande palimpsesto.322 As imagens verbais sobre o outro e seu corpo, sobre a natureza e as coisas desse Novo Mundo descoberto constroem a representação subjetiva do desconhecido. Há, nessa representação, uma violência implícita que vai soterrando, passo a passo, a alteridade indígena. Assim, uma paisagem móvel, de textos sobre textos, configura-se aos nossos olhos.
Contudo, essa paisagem vai se tornado imóvel e as imagens da criação do outro, diferente e selvagem, que precisa ser salvo e domado com a cristianização e a civilidade,
320 GREINER, Christine. O corpo em crise. Novas pistas e o curto-circuito das representações. São Paulo: Anablume, 2010. Pesquisadora do corpo, a autora se detém nas reflexões de Giorgio Agamben sobre zonas de indistinção entre a vida e a morte, estados de execeção e processos de desumanização.
321 LEVI-STRAUSS, 1996, p. 38.
322 Palimpsesto: “aquilo que se raspa para escrever de novo”. Disponível em: <PT.wikipedia.org/wiki/Palimpsesto>. Acesso em: 15 jul. 2014.
tornma-se uma única imagem. E é essa última imagem que perdura e engendra a violência física sobre o corpo selvagem. Léry, ao tentar representar o Tupinambá, deixa escapar um rasgo de alteridade. O canto Tupinambá, como mostra a imagem abaixo, que é o da manifestação e da linguagem do corpo índio, nas entrelinhas da escritura do viajante, não encontra um lugar na galeria de imagens dessa imensa taxonomia323 do outro.
Figura 10: Partitura, LÉRY, 1578. Fonte: LÉRY, 2007.
323 Taxonomia: “ciência que classifica os seres vivos”. Disponível em: <PT.wikipedia.org/ wiki/Taxonomia>. Acesso em: 15 jul. 2014.
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