Proporcionar uma educação de qualidade a um número cada vez maior de sujeitos, é um desafio com que a escola se confronta no seu quotidiano.
O uso da tecnologia contribuiu para a “implementação de técnicas que possibilitam novas formas de projectar, desenvolver e distribuir material educacional para todos os que queiram aprender” (Ferreira et al., 2004: 443). Assim, têm sido observadas transformações no que concerne ao desenvolvimento de materiais didácticos, acompanhadas de uma utilização estruturada e organizada e que por isso mesmo permite a sua disponibilização na Web em variados formatos (Miranda & Costa, 2004).
“Os conteúdos de aprendizagem estão directamente relacionados com o conceito de objectos de aprendizagem – OA – que se pretendem granulares e autónomos” (Oliveira, 2004: 73) e que podem ser desde um simples ficheiro de texto, uma imagem, um gráfico a um módulo completo de um curso ou mesmo uma página Web. Wiley (2001) define os objectos de aprendizagem como os percursores de uma próxima geração do e-learning devido ao seu potencial de utilização e interoperabilidade.
“ (…) este capítulo definirá um objecto de aprendizagem como «qualquer recurso digital que possa ser usado para suportar aprendizagem». Esta definição inclui tudo o que possa ser entregue, a pedido, através da rede, seja grande ou pequeno. Exemplos dos mais pequenos recursos digitais incluem imagens digitais ou fotografias, vídeo gravado ou ao vivo, extractos de áudio, pequenos bits de texto, animações e pequenas aplicações como uma calculador Java. Exemplos de maiores recursos digitais reutilizáveis incluem páginas web inteiras que combinem texto, imagens e outros media ou aplicações para distribuição de experiências completas como um acontecimento instrucional completo.” (Wiley, 2000: 7)
35 A web semântica é a representação indexada da informação na World Wide Web, de forma substantiva (cf.
Entendemos que os OA constituem inúmeras vantagens quer para o aluno quer para o professor. O papel activo do aluno na aprendizagem, mediado pelas abordagens construtivistas, encontra nos ambientes interactivos um perfeito suporte para estimular o desempenho (Carvalho, 1999). Este durante todo o seu processo de aprendizagem e construção do conhecimento, estabelece relações entre novos conceitos e os já previamente adquiridos desenvolvendo novas formas de aprender aliadas a novos contextos para a realização das aprendizagens on-line (Dias, 2004b).
“Consideramos estar em face de uma mudança profunda nas abordagens e concepções dos ambientes educacionais na Web, cujo percurso é definido não só pela possibilidade de desenvolver a representação multidimensional e distribuída, mas também pela mediatização dos múltiplos contextos favoráveis à participação e colaboração no aprender a aprender a na construção do conhecimento numa perspectiva holística e integrativa, desenvolvida no âmbito de verdadeiras comunidades de aprendizagem.” (Dias, 2001b: 29)
O professor beneficia de igual modo pois tem à sua disposição uma vasta quantidade de objectos, dos mais diferentes tipos, dos quais pode tirar partido para as actividades que pensa realizar, adoptando métodos bastantes flexíveis que podem ir ao encontro dos diferentes ritmos de aprendizagem dos seus alunos. Transforma a transmissão do conhecimento numa actividade colaborativa, dando lugar a uma maior interacção por parte de todos os intervenientes (Gallotta e Nunes, 2004), nunca descurando o contexto em que os OA serão utilizados e tendo sempre presente os objectivos estabelecidos para a aprendizagem dos seus alunos.
Sob uma perspectiva mais geral, os OA podem ser entendidos como “segmentos” de informação autónoma que se destinam à utilização em situações de ensino e aprendizagem – à distância e/ou presencial – e que podem ser combinados com outros “segmentos”. Podem também ser utilizados e reutilizados diversas vezes em diferentes situações de aprendizagem e daí a indispensabilidade em descrever os recursos disponibilizados na Internet, tornando-se pois necessário pôr em prática processos que diminuam esta questão que tanto tempo nos faz perder. Para tal, é necessário que os OA estejam armazenados em bases de dados – repositórios – que forneçam ao utilizador vários benefícios em termos de recuperação de informações (Downes, 2001) e cuja procura constitua “um desafio, na medida em eu não basta localizá-los, mas seleccioná-los e agrupá-los por possibilidades pedagógicas” (Alves e Souza,
2005: 171). Segundo Pimenta e Baptista (2004: 103) “a facilidade de pesquisa, reutilização, transporte e interoperabilidade dos recursos da Web está directamente ligada ao conceito de metadados”. Os metadados são os dados que descrevem os conteúdos dos arquivos digitais, estes têm cada vez mais uma maior importância na pesquisa de conteúdos. No caso dos LO, os metadados são como “etiquetas” identificadoras de seu conteúdo, que descrevem como, onde e por quem foram desenvolvidos, para que segmento é destinado, o seu tamanho, a sua aplicação e outras informações que sejam relevantes.
Numa tentativa de definir os OA têm sido usadas diferentes analogias de entre as quais destacamos: o LEGO, o átomo e o ADN pela sua pequena dimensão e pela facilidade que estes têm em ser agrupados e reagrupados. O que estas metáforas têm em comum é a filosofia que está subjacente à concepção dos OA, isto porque quando se pensa em OA, entendem-se estes como unidades de aprendizagem de pequena dimensão, desenhadas e desenvolvidas de forma a fomentar a sua reutilização, eventualmente em mais do que um curso ou em contextos diferenciados, sendo passível de combinação e/ou articulação com outros OA de modo a formar unidades mais complexas e extensas (Pimenta & Baptista, 2004).
Apesar das inúmeras vantagens encontradas na reutilização dos OA esta questão não é unanimemente entendida pelos diferentes autores. Wilhem & Wilde (2005 em Carvalho, 2006) referem que criar um curso baseado em OA existentes não é tão fácil quanto tem sido sugerido. Carvalho (2006) refere as dificuldades mencionadas por estes autores:
“learning objects readily available at the present time are disparate, rather than course-specific, level specific, or learner-specific. Given the lack of skills-oriented learning objectives freely available online, designing a course for a skills-based self- paced university course remains problematic, time consuming, expensive, and unproductive.” (Wilhem & Wilde, 2005: 78, citados por Carvalho, 2006)
Strijker & Collins (2006 citados em Carvalho, 2006) identificam cinco dimensões a ter em atenção no desenvolvimento de estratégias para a reutilização dos OA: as culturas dentro do contexto, os cenários de aprendizagem, os incentivos à reutilização, os processos de trabalho e o modo como os OA são armazenados.
Não é possível pensar em reutilizar OA sem pensar nos sistemas de gestão que lhes estão subjacentes – os LCMS. Segundo Paulsen (2002) têm sido desencadeadas algumas actividades para o desenvolvimento de especificações standards, nas quais se destacam os
projectos SCORM (Sharable Content Object Resource Model) e IMS, concebidos no sentido de uniformizar os vários sistemas de educação on-line e facilitar a troca de informação no processo de ensino/aprendizagem. Para assegurar a interoperabilidade e a partilha de OA, bem como, a compatibilidade entre os sistemas de e-learning, a iniciativa ADL em colaboração com organizações como a ARIADNE, AICC, IMS e IEEE entre outras, desenvolveram o modelo SCORM como um conjunto de normas, orientações técnicas e especificações:
• Reutilização – capacidade de associar conteúdos em diferentes aplicações e contextos;
• Acessibilidade – facilidade de pesquisar e aceder aos OA;
• Interoperabilidade – possibilidade na permuta de conteúdos entre diferentes plataformas;
• Durabilidade – capacidade de garantir a adaptabilidade dos OA, apesar das mudanças a nível tecnológico (Lima e Capitão, 2003).
Na revisão de literatura efectuada no âmbito desta investigação, encontrámos plataformas (cf. 2.5.1) que possibilitam ao utilizador submeter, gerir, avaliar e comentar os OA disponibilizados, promovendo o trabalho colaborativo. Desta maneira, professores e alunos – consoante a plataforma em causa – poderão assumir o papel de autores, co-autores, críticos e participantes na construção, desconstrução e reconstrução de novos OA e de novos conhecimentos (Silva, 2004). O propósito da avaliação e dos comentários dos utilizadores36 é o
de “catalogar” qualitativamente os OA disponibilizados. Em todas estas plataformas encontrámos uma hierarquia na classificação dos OA por forma a facilitar a pesquisa dos conteúdos pretendidos, os quais se encontravam agrupados por temas/áreas. Mediante a selecção efectuada eram disponibilizadas listas com OA – com uma breve descrição (e.g. tema, subtema, nível) – e/ou hiperligações com a possibilidade de efectuar download.
Pimenta e Baptista (2004), entendem que a evolução destes sistemas e, em geral, de todos os serviços de suporte ao e-learning, coloca interessantes desafios a todos os intervenientes no processo de ensino-aprendizagem.
Tem sido preocupação de alguns investigadores aplicar teorias de ensino e aprendizagem aos objectos de aprendizagem, como Carvalho (2006) que os aborda de acordo com a Teoria da Flexibilidade Cognitiva (TFC) dando, particular, ênfase à desconstrução do conhecimento na exploração de materiais como os OA.
A TFC (Spiro et al., 1991) visa “ a aquisição de conhecimentos de nível avançado em domínios complexos e pouco-estruturados, mas também a transferência do conhecimentos para novas situações “ (Carvalho, 1999; 134). Segundo Hodgins (2000:7 em Carvalho, 2006) “the ability to capture knowledge such that it can be analyzed, reused, and shared with others, thus developing a spiral of more new knowledge creation, is perhaps the most powerful promise information technology can provide”.
Numa perspectiva análoga, Dias (2001) considera que:
“ (…) encontramos uma rede ideias e conteúdos com múltiplos percursos de apresentação, bem como múltiplas dimensões de representação para as relações entre as ideias. Por um lado, a flexibilidade hipertexto é o meio para a flexibilidade dos processos de construção da significação na aprendizagem, na medida em que a rede suporta o processo dinâmico da formação de relações no desenvolvimento da significação.” (idem: 30)
Os ambientes fundamentados na flexibilidade da representação hipertexto e hipermédia – assentes em domínios complexos e pouco estruturados – são uma excelente ajuda na contextualização das aprendizagens, pois “promovem o desenvolvimento da flexibilidade cognitiva na aquisição, organização e transferência do conhecimento” perante novos contextos e situações (idem).