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5.5 Tiltak

O telemóvel detém uma dimensão simbólica para as crianças que pode advir da personalização que lhe é investida e dos sentidos que lhe são atribuídos. A personalização do telemóvel é um exemplo de padrões de domesticação mais caracteristicamente infantis. As crianças além de utilizarem o telemóvel de forma utilitária, usam-no de maneira expressiva, fazendo parte de uma cultura móvel que contribui para a construção da identidade. Ou seja, é um dispositivo que serve para comunicar, mas que, como objeto, é uma forma de comunicação e expressão de significados simbólicos que por sua vez são apercebidos e interpretados pelas outras crianças. Neste âmbito, apoiando-nos em Ling (2000a), podemos ver, simultaneamente, na exibição do telemóvel: os significados e as imagens que um dado indivíduo pretende transmitir; os sentidos que resultam da interação entre as formas de expressão intencionadas pelas crianças e os significados interpretados pelos pares; e uma forma de coordenação, partilha de valores, significados e formas de expressão entre as crianças que caracterizam e aumentam a integração social de um grupo. A tecnologia móvel é, como assinala Dias (2008), próxima do corpo, sempre disponível, o que estimula os sentidos através do toque, da visualização ou de outras sensações. Segundo os dados do inquérito presencial, a personalização do telemóvel com uma fotografia, um protetor de ecrã e/ou um toque favorito é uma realidade para 63,2% das crianças. Estas personalizações podem ser entendidas como sinais da importância destes dispositivos no projeto individual da identidade, na perspetiva da individualização, e como estímulos que chamam a atenção do utilizador e promovem investimentos emocionais num aparelho. Isto pode ser entendido, ao mesmo tempo, como uma causa e uma consequência da centralidade do telemóvel na vida das crianças. É maior a probabilidade de um rapaz ter o seu telemóvel personalizado (72,2%), do que uma rapariga (54,5%). É também entre os inquiridos dos 16 aos 18 anos que se verifica a maior fração de respondentes que personaliza o telemóvel (68,1%), em comparação com 58,7% das crianças dos 8 aos 12 anos. Estes dados poderão ser explicados por alguns fatores. Com a personalização, o telemóvel torna-se assim uma extensão da identidade pessoal, do “eu”, implicado na expressão de emoções e na gestão de uma imagem pública (Townsend, 2001). Assim sendo, se uma criança perder o seu telemóvel, isso poderá significar não só um custo monetário e temporal (por exemplo, refazer a agenda), mas poderá representar igualmente um custo emocional pela carga afetiva que lhe é atribuída.

É uma forma de expressão corrente que os indivíduos mais novos utilizam virada para o “eu”, mas também para os outros. É uma expressão das suas disposições e dos seus gostos pessoais, uma extensão da sua personalidade, do seu estilo de vida e expressão do seu estatuto social, em que uma criança assume um lugar distintivo no espaço social no seio dos quadros infantis. Quanto à exibição pública do telemóvel, esta pode ter duas componentes, ao nível da exposição das chamadas, que Plant (2001) designa de “stage- phoning”, e mensagens ou ao nível da exibição do próprio dispositivo enquanto objeto. No segundo nível, a exposição do telemóvel está relacionada com a moda e os diferentes estilos aos quais os adolescentes estão particularmente sensibilizados, que denotam, seguindo Bourdieu (1994), volumes de capital diferenciados (económico, simbólico, social) entre as crianças. Neste sentido, 44,1% das crianças mostra a sua concordância ou concordância total com a frase “o telemóvel hoje em dia permite identificar o estatuto social”. Ademais, certas práticas comunicativas de rotina ligadas ao consumo ou a determinados estilos de vida podem ainda ser entendidas como um constrangimento social durkheimiano, situação que pode gerar mais ansiedade que segurança pela consciência do ator de se sentir “desconfortável” ou de não conseguir alcançar e desempenhar o estilo de vida almejado.

Campbell (2007) enquadra o telemóvel em tecnologias que apelida de tecnologias de comunicação pessoal (TCP) – não só porque têm um uso individual, mas porque são personalizadas para transmitir características pessoais e servem também como marcadores sociais de estilo e de estatuto. Em primeiro lugar, o autor aplica o enquadramento teórico de Katz e Aakhus (2002) para prever que usos relacionais do telemóvel são ligados a percepções das TCP como moda, e não tanto entendidas nas suas funções logísticas e de segurança. Isso implica que, tal como todos os outros produtos, se insira numa lógica de comercialização e de publicidade que o torna um objeto apetecível, impulsionando toda uma indústria que gira em torno das novas tecnologias, com aparelhos ou produtos que se querem comprados e utilizados pelo indivíduo. Em segundo lugar, o telemóvel torna-se crescentemente um objeto de moda personalizado. Diferentes capas, diferentes toques, diferentes cores, diferentes écrãs, diferentes fotografias no visor, tudo no telemóvel pode ser moldado de modo a constituir-se como acessório de moda ao mesmo tempo que se torna instrumento identitário35. O telemóvel personalizado

35 Licoppe 2004) identifica uma dimensão dos toques de telemóvel que apelida de “presença conectada”.

Embora os toques sejam aparentemente formas de apresentação pessoal, também são um meio de ligação com os outros – que denota uma preocupação com os laços sociais –, o que contraria a noção de que

representa a individualidade e personalidade própria do self em oposição aos outros. Outra forma de expressão reporta-se à transformação da linguagem encetada pelos mais novos nas mensagens SMS, o que tem gerado preocupações, nomeadamente, quanto à sua possível influência sobre a capacidade de escrita das crianças. A escrita SMS insere- se numa cultura de mobilidade e velocidade onde importa comunicar em qualquer lugar e momento, no mínimo espaço de tempo. Poderá ser faticamente usada e entendida como forma de demarcação das culturas infantis e juvenis. Uma maioria de 70,2% das crianças costuma utilizar sempre ou às vezes uma linguagem diferente quando escreve SMS, usando, abreviaturas, letras diferentes ou símbolos e caracteres específicos. Estas modalidades linguísticas emergentes tomam a forma de produção social em que todos os membros de um grupo participam, sendo passível de ser transposta para lá das mensagens. Verifica-se ainda uma maior fração de raparigas que utiliza, sempre ou às vezes, uma linguagem diferente quando escreve mensagens SMS (74,4%), em comparação com 66% dos rapazes. Contudo, há uma percentagem maior de rapazes que escreve sempre com uma linguagem diferente (43,2%), do que de raparigas (32,7%). Há uma fração maior de inquiridos dos 16 aos 18 anos (86,2%) que utiliza abreviaturas, letras diferentes e símbolos nas mensagens, em comparação com 51,3% dos inquiridos mais novos. Esta novilíngua, para usar a expressão de Orwell, marcada por símbolos e abreviaturas, reforça a coesão entre as crianças que partilham os mesmos símbolos e a mesma cultura móvel.

É importante perceber o impacto das tecnologias móveis nas culturas infantis considerando três dimensões: o modo como se refletem nas regras e no comportamento individuais; como é que se refletem nas relações sociais das quais essas tecnologias participam; e como é que estas alteram as mesmas relações. O telemóvel veio trazer novos sentidos à vida social, introduzindo inovações comportamentais e efeitos nas formas de relação entre as crianças. Quer seja utilizado de uma forma mais ponderada ou mais impulsiva, ele é encarado como uma companhia multifuncional, como um companheiro interativo, como sublinha Plant (2001). Já Dias (2008), inspirada na psicologia social de Maslow, enumera alguns fatores associados à satisfação das necessidades humanas proporcionada pelo telemóvel, a saber: de afiliação, de pertença, de comunicação, de segurança e de estima. As crianças podem assim sentir uma dependência sobre este

vivemos numa sociedade atomizada e que se desagrega nos espaços sociais impessoais. As irrupções do toque do telemóvel, que anunciam uma música ou uma melodia particular, podem ser entendidas como expressões do self contra a rotina do quotidiano. Aqui o objetivo também não é tanto a comunicação pura mas sim a afirmação de um self que se quer fazer ouvir em vez de se diluir.

aparelho, o que poderá causar sentimentos negativos de desorientação, vulnerabilidade e isolamento caso estejam impossibilitadas de utilizá-lo. Virtualmente, todos os indivíduos se tornaram dependentes do telemóvel, no sentido que é, hoje em dia, imprescindível na condução das nossas vidas quotidianas. Logo, aqui a questão central não é tanto a habituação em si mas a influência ou o impacto dessa dependência sobre os estados emocionais das crianças.

A domesticação do telemóvel faz parte de um processo de naturalização da vida social padronizada, dando azo à formação dos elementos morais da vida compostos por um conjunto de factos da existência diária que constituem tanto o mundo real como o produto das atividades nesse mundo. Há uma inteligibilidade dos atores face às suas atividades rotinizadas, incluindo as comunicativas, ainda que não esteja prontamente acessível à consciência discursiva dos agentes. As ordens morais assentes na ação comunicativa rotinizada não são meramente fruto de uma internalização normativa. Fazem parte de um estoque de conhecimentos que os agentes vão adquirindo e sustentam um elemento estratégico (racional e até mesmo instrumental), como Goffman sugere (1993), para que se possa levar a cabo interações (neste caso, mediadas ou relacionadas com o uso dos media) bem-sucedidas. A quebra da ordem moral da conetividade permanente pode causar desorientação ou mau estar quando a ligação às redes móveis deixa de estar acessível, o que remete para a indagação, inspirada em Giddens, das motivações da ação comunicativa rotinizada36, nomeadamente no que se prende à manutenção da confiança e da segurança ontológica37 dos agentes face ao uso de dispositivos como o telemóvel.

Neste âmbito, é de assinalar que a grande maioria das crianças (85,2%) concorda ou concorda totalmente com a noção de que se sente muito mais tranquila quando tem consigo o seu telemóvel. Se procurarmos a interpretação giddeniana deste indicador, podemos dizer que a estabilidade social ao nível das rotinas de comunicação significa estabilidade pessoal e a disrupção dessa situação pode trazer um profundo sentimento de insegurança e ansiedade. Daí que, em concomitância, 57% das crianças inquiridas concorda ou concorda totalmente com a frase “sinto-me muito ansioso/a quando não posso ter o meu telemóvel”. Porém, apenas 14,5% das crianças afirma que, se não tivesse

36 Podemos entender, na senda de Giddens, as rotinas comunicativas proporcionadas pelo telemóvel como

estilos ou modos de conduta familiares que suportam e são suportados pelo sentido de segurança ontológica dos agentes (1984: 60-4).

37 Que podemos entender como uma âncora cognitiva e emotiva que toma como garantidos determinados

telemóvel, realizaria a maioria das chamadas que efetua através de um telefone fixo. Este indicador sugere que a rotinização da comunicação móvel veio trazer alterações substantivas na vida quotidiana. Em geral, os dados retratam o profundo impacto das tecnologias móveis nos quadros de existência infantis. Como Townsend (2001) assinala, a utilização do telemóvel naturalizou-se. Instituiu-se uma rotina de conectividade e coordenação que estimula a sua utilização frequente. A perda, mais ou menos momentânea, do telemóvel exige assim uma reestruturação no “normal” funcionamento da vida quotidiana. Nesta linha, Levinson (2004) fala de uma dependência impercetível que só se torna evidente no caso de estarmos impossibilitados de usar o telemóvel. Daí que não seja surpreendente que 74,3% das crianças concorde ou concorde totalmente com a noção de que o seu telemóvel só lhes é útil se estiver constantemente ligado.

Como os telemóveis se tornaram poderosas ferramentas de conectividade e de coordenação do tempo e das deslocações no espaço, bem como das relações com os outros, das tarefas diárias e dos tempos de lazer, cria-se a perceção de que é algo indispensável. A noção de que o telemóvel permite gerir a vida privada e familiar de um modo muito mais eficaz recebe a concordância ou a concordância total de 62% das crianças. De modo concomitante, a ideia de que a vida das pessoas sem telemóvel, em geral, seria muito mais feliz e tranquila acolhe a discordância ou a discordância total de mais de metade dos inquiridos. O telemóvel penetrou sub-repticiamente nas práticas do dia-a-dia, podendo servir várias “necessidades”. Todavia, quanto às crianças inquiridas online, uma minoria de 28,6% é da opinião que a sua vida mudaria para pior se ficasse duas semanas sem telemóvel enquanto 66,9% acha que não mudaria nada. É curioso verificar aqui um efeito de género, visto que há claramente uma maior fração de raparigas (36,6%) que considera que a sua vida mudaria para pior se ficasse duas semanas sem telemóvel, enquanto essa fração entre os rapazes é de apenas 22,5%. Estes dados são coerentes com a tendência de as raparigas conferirem maior valor afetivo e subjetivo ao telemóvel face a outros media. A importância que o telemóvel assume com o avanço da adolescência é confirmada pelo facto de 30,5% dos inquiridos dos 16 aos 18 anos considerar que a sua vida mudaria para pior se ficasse privado do telemóvel durante um par de semanas, face a 20,8% das crianças dos 9 aos 12 que considera o mesmo. Daqui podemos lançar a hipótese de que quanto mais o telemóvel estiver presente na vida das crianças, quanto mais depositarem afetos e assentarem as suas relações sociais e a sua autonomia pessoal na utilização desse dispositivo, maior será a perceção de dependência e menor a capacidade de imaginar um quotidiano alternativo sem telemóvel.

Tanto as chamadas de voz como as mensagens de texto podem servir para manter uma perceção dos outros de forma constante, mantendo-se múltiplos canais de comunicação abertos em pano de fundo. Desta forma, uma rede de relações mantida pelo uso do telemóvel pode ser entendida como uma “comunidade íntima a tempo inteiro”. Das crianças respondentes do inquérito presencial, 42,5% já utilizou o telemóvel enquanto esperava por alguém e se encontrava sozinho para se sentir mais acompanhado e 37,3% enviou mensagens SMS para amigos, familiares e conhecidos sobre nenhum assunto específico, nas mesmas circunstâncias. Acrescente-se que 31,3% das crianças utilizou o telemóvel numa situação similar para resolver assuntos pendentes que consideravam urgentes e 29,5% usou o dispositivo móvel para que ninguém a incomodasse. Verifica-se ainda que há uma maior percentagem de raparigas (45,6%) do que de rapazes (39,3%) que usa o telemóvel para se sentir mais acompanhada. Uma maior fração de raparigas (40,9%) do que rapazes (33,5%) tende também a enviar mensagens SMS para amigos, familiares e conhecidos sobre nenhum assunto específico na mesma situação. Além disso, também se observa que 36,9% das raparigas utiliza o telemóvel quando está sozinha à espera de alguém para que ninguém as incomode, enquanto entre os inquiridos do sexo masculino essa percentagem decresce para os 21,8%.

Para além da companhia, o telemóvel poderá dotar as crianças e, em particular, as raparigas, de um meio de disputa para a demarcação da própria personalidade, como defende Plant (2001). Deste modo quando uma dada rapariga se encontra sozinha na rua pode utilizar o telemóvel como uma construção cultural e um meio de negociação do género e do poder no espaço público, transmitindo assim o modo como quer que os outros apreendam o seu tipo de pessoa, desviando as atenções indesejáveis: “estou sozinha, mas não estou desacompanhada!”. Em todas as faixas etárias, o principal motivo adiantado pelas crianças da utilização do telemóvel prende-se com a sensação de se sentirem mais acompanhadas. Ademais, os dados acima sugerem a seguinte reflexão: o telemóvel pode servir para adiar ou evitar uma interação face-a-face não desejada, trocando-se essa interação por uma menos comprometedora à distância. De certa forma, este argumento enfraquece a ideia de Peters (1999) que o telemóvel é propiciador da comunicação pura. Muitas vezes é antes propiciador da ausência de uma comunicação face-a-face que não se deseja. Mais do que propiciadores da comunicação, os dispositivos de comunicação móvel podem ser entendidos como manipuladores da comunicação, regulando o quando e o como de uma interação mediada, e o quando e o como de uma interação face-a-face, que pode ser anulada ou revitalizada pelo seu uso.

Segundo Gersen (2002), o transporte de conversas privadas para o espaço público implica a atenuação da fronteira entre público e privado. Daí que Fortunati (2001) veja na privatização do espaço público proporcionada pelas tecnologias móveis uma “intimidade nómada”. A maioria dos inquiridos (60,2%) corrobora ou corrobora totalmente a ideia que desde que usam o telemóvel deixaram de percorrer distâncias tão grandes para resolver os seus problemas. A sua vida pode ser gerida em movimento. A par do que sugere Dias (2008), a privatização do espaço público altera os estados emocionais dos mais novos, que sentem que controlam o seu ambiente, tendo o poder de se ligarem à sua rede de relações próximas, em particular, quando estão sozinhos ou se sentem mais isolados e desacompanhados. No entanto, o uso desta conetividade permanente e móvel, e os seus efeitos na confiança e na segurança ontológica, comporta riscos no entender de Plant (2001), visto que as crianças poderão passar a ter menos confiança em si próprios, tornando-as menos capazes de agir segundo o seu próprio julgamento, deixando-as dependentes da companhia, assistência e conselhos proporcionados por terceiros através da rede móvel. Antes de mais – e talvez para a maior parte das crianças e dos adultos – o telemóvel é um instrumento de segurança. Muitas das redes sociais que amparam o indivíduo podem ser ativadas através do telemóvel. Representa uma salvaguarda contra o imprevisto, o acidente, a vulnerabilidade a que todos estamos sujeitos. Por isso, o telemóvel, é um instrumento que pode suster o sentimento de integridade física e pessoal do self.

Outra das influências do telemóvel é respeitante ao comportamento em público e à redefinição e negociação das regras sociais. Como indicam Burns e Flam (2000), o comportamento social é orientado por uma gramática de regras e os sistemas de regras sociais tanto estruturam e regulam as interações como lhes conferem significado. O uso do telemóvel por parte dos indivíduos mais jovens tem subjacente definições implícitas, ou uma consciência prática, de um comportamento social apropriado ou inapropriado. A presença do telemóvel pode ser sentida em tempos e espaços do quotidiano, nas aulas, nos transportes públicos, nos tempos de refeição. Os espaços, tempos e situações diárias podem ser entendidos pelas crianças como um constrangimento à conectividade permanente, mas também remetem para a consciência das responsabilidades que implicam o uso dos respetivos aparelhos. Deste modo, introduz-se nos quadros quotidianos infantis uma gestão de limites entre o correto e o incorreto, mas também entre o espaço público e o espaço privado, entre a fachada pública e os bastidores da vida pessoal. A monopolização da atenção numa chamada poderá interferir nas interações

sociais estabelecidas pré-chamada, pois captam a atenção do recetor e podem criar sentimentos de desconforto, abandono ou de desinteresse nos outros. No entanto, para muitas crianças, amplamente socializadas na utilização do telemóvel, a intrusão deste dispositivo nas várias situações quotidianas poderá ser algo integrado na rotina. Neste sentido, somente 27,8% concorda ou concorda totalmente que tem frequentemente necessidade de desligar o telemóvel para que as chamadas que recebe não interfiram com as suas relações interpessoais mais próximas.

Um elemento particularmente intrusivo do telemóvel é o seu toque. O modo como as pessoas falam e o volume da conversa também podem constituir elementos disruptivos nas situações quotidianas. São ruídos que podem violar territórios, afetando a forma e o estilo das interações diárias. Porém, mais uma vez, apenas 28,3% dos inquiridos concorda ou concorda totalmente que atender o telemóvel em público os incomoda. Portanto, as gerações mais novas poderão constituir um grupo social que está a redefinir fronteiras, a renegociá-las no quotidiano, quanto à forma como se entende o espaço público e o privado, como as pessoas se devem expor em público, e à imagem que devem transmitir. Plant (2001) relembra que quando se estabelece uma conversação ao telemóvel em locais públicos, há sempre um terceiro elemento nessa conversa, que participa como ouvinte ou potencial ouvinte. Os utilizadores, cientes desse público potencial, podem adotar

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