Rodrigo Machado7
Marcos Sorrentino8
Eixo Temático e Tema: Educação Ambiental na construção de sociedades sustentáveis - Espaços de Construção de Saberes, Fazeres e Sentires.
Palavras-Chave: Ernst Bloch; Antonio Gramsci; Conselhos; Gestão Ambiental Pública.
Resumo Expandido: O artigo trata de pesquisa de pós-graduação em Ciência Ambiental
em andamento. O estudo visa refletir teoricamente sobre práticas em realização no Sistema Ambiental Paulista desde 2013: situações formativas em Conselhos de Unidades de Conservação (UC) voltadas ao desenvolvimento de interações com a dinâmica dos territórios de influência das UC. A reflexão teórica busca na obra dos pensadores Ernst Bloch e Antonio Gramsci subsídios para conferir maior sentido filosófico e político e contribuições objetivas para método de intervenção educadora junto a Conselhos Gestores de Políticas Públicas. A revisão de literatura torna-se, portanto, o principal procedimento metodológico para reflexão, visando colher elementos de estudo para aproximações e inspiração às práticas formativas já desenvolvidas nos mencionados espaços de participação social, contribuindo à Gestão Ambiental Pública (QUINTAS, 2006). Conselhos abertos à participação da sociedade na gestão pública configuram uma conquista do processo de redemocratização no Brasil (JACOBI, 2001). Considerando que participação diz respeito a “tomar parte” e que isso não é algo espontâneo ou dado, e sim aprendido, conquistado e vinculado a um projeto de sociedade (BORDENAVE, 1987; DEMO, 1999; DAGNINO, 2004), tais espaços representam a possibilidade de elaboração legítima de discursos e práticas que incidam no território visando à justiça ambiental (ACSELRAD, 2010) e a sociedades sustentáveis (DIEGUES, 1992). Isto posto, observa- se, a priori, que a obra do filósofo alemão Ernst Bloch (2005) potencializa a utopia e a esperança como princípios a orientar trabalhos que almejem a emancipação de grupos sociais alheios à participação política e à margem de decisões que afetam suas vidas. Já o teórico político italiano Antonio Gramsci oferece categorias atinentes à formação e atuação de Conselhos e conselheiros: a ideia de Estado Ampliado, que valoriza sua dimensão de sociedade civil como o palco das disputas por hegemonia entre diferentes visões de mundo e projetos de sociedade (SEMERARO, 2006); o conceito de hegemonia que, tendo seu caráter pedagógico devidamente reconhecido, expressa transformações de ordem intelectual e moral (GRAMSCI, 1999) e, não sendo apenas política, é também um fato cultural, de concepção de mundo (GRUPPI, 1978). Outra categoria gramsciana
7 Universidade de São Paulo; PROCAM-OCA/ESALQ. E-mail: [email protected].
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o revista brasileira deeducação
ambiental
inspiradora é a de catarse, que nos remete à passagem do entendimento dos problemas ambientais mais aparentes ou fenomênicos para a identificação de sua essência, de natureza socioeconômica e culturalmente estrutural, observada no território de influência do Conselho. Assim como dessa compreensão àquela que observa questões fundamentais nacionais e planetárias. Ambos os autores têm como abordagem filosófica, política e metodológica a dialética marxista, sem com isso serem dogmáticos ou ortodoxos. Pelo contrário, Ernst Bloch afirma a importância do “materialismo dialético- utópico”: a pré-visão consciente de horizontes ainda não existentes, em sua relação dialética com a dimensão concreta vivida pelos sujeitos, tornando o presente mais dilatado que em situações que visam transformar o futuro sem trabalhar o “hoje”. Nos oferece a noção de “corrente fria do marxismo” que corresponde ao ato analítico- situacional e o entrelaça dialeticamente com a “corrente quente”, relativa ao ato prospectivo-entusiástico, à construção de utopias fundadas na práxis histórica, de horizontes a serem buscados pela ação política, coletiva, consciente e organizada. Para Gramsci, em sociedades com o capitalismo mais desenvolvido há grupos e organizações sociais produtores de valores, compreensões de mundo e projetos de sociedade que disputam hegemonia em sua relação com a dimensão de “sociedade política” do Estado (governo, leis, aparelhos) (COUTINHO; MARTINS, 1993). Os Conselhos emergem, assim, como espaços estratégicos para ambas as abordagens, que contribuem à atribuição de sentidos filosóficos e políticos à atuação dos Conselhos. Para se construírem formas de produzir/consumir, viver/conviver, superiores àquelas tidas como alienantes, opressoras, injustas e insustentáveis, tendo como referência o território. Têm o potencial de serem lócus formativo com perspectiva crítica e orientação socioambientalista, visando apreender e analisar a crise civilizatória em que já vivemos, a conjuntura e circunstâncias políticas hegemônicas que a alimentam e que precisam ser suplantadas, produzindo, assim, utopias. Os Conselhos podem, portanto, ter como papel subsidiar a expansão de contra-hegemonia, interferindo em políticas públicas e nas dinâmicas territoriais, fortalecendo a sociedade civil como germinadora de outro Estado (SORRENTINO; TRAJBER; FERRARO JR., 2005), de outro modo de produção, de cultura e de outras concepções e possibilidades de viver e conviver.
Referências
ACSELRAD, H. Ambientalização das lutas sociais – o caso do movimento por justiça
ambiental. Estudos Avançados, v. 24, n. 68, p. 103-119, jan. 2010.
BLOCH, E. O Princípio Esperança. Vol.1. Trad. Nélio Schneider. Rio de Janeiro: Eduerj; Contraponto, 2005.
BORDENAVE, J. E. D. O que é participação? 5ª ed. Coleção Primeiros Passos, São Paulo: Brasiliense, 1987.
COUTINHO, C. N.; NOGUEIRA, M. A. (orgs.). Gramsci e a América Latina. 2ª
ed. São Paulo: Paz e Terra, 1993.
DAGNINO,. ¿Sociedade civil, participação e cidadania: de que estamos falando? In: MATO, Daniel (coord.). In: MATO, D. (coord.). Políticas de ciudadanía y sociedad civil
en tiempos de globalización. Caracas: FACES, Universidad Central de Venezuela,
2004. p. 95-110.
DEMO, P. Participação é conquista. São Paulo: Cortez, 1999.
DIEGUES, A. C. Desenvolvimento Sustentável ou Sociedades Sustentáveis. Da Crítica dos Modelos aos Novos Paradigmas. São Paulo em Perspectiva. 6(1-2):22-29, janeiro/junho 1992.
GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, Vol. 1, 1999. GRUPPI, L. Conceito de hegemonia em Gramsci. Rio de Janeiro: Graal, 1978.
JACOBI, P. R. Reflexões sobre as possibilidades de inovação na relação poder público- sociedade civil no Brasil. Organ. Soc. 2001, vol.8, n.22.