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6.4.9 Tilsynsrapporten
No texto de Íon, o sentido seria de parresia política, sendo este o foco central, adquirida via nascimento, ligando-se à democracia ateniense, trazendo apenas como pano de fundo, a título instrumental as demais, a judiciária e a moral, as quais sequer são denominadas
parresia.
Segundo Focault: “Íon é verdadeiramente a representação dramática do fundamento do dizer-a-verdade político no campo da constituição ateniense e do exercício do poder em Atenas.” 53 E continua o A:
(...) Essa parresia é, portanto algo além do puro e simples estatuto de cidadão, não é tampouco uma coisa dada pelo poder tirânico, sendo de certo modo uma espécie de palavra mais alta, mais alta que o estatuto de cidadão, diferente do exercício puro e simples do poder. A parresia não é a palavra de comando, não é a palavra que põe os outros sob o seu jugo.
(...) é, portanto uma palavra mais alta, porém uma palavra que dá liberdade a outras palavras e que dá liberdade as que têm de obedecer, que lhes dá liberdade, pelo menos na medida em que só obedecerão se puderem ser persuadidos (ao invés de dobrar os outros à sua vontade). O exercício de uma palavra que persuada os que são comandados e que num jogo agonístico dê liberdade aos outros que também querem comandar, é, ao meu ver, o que constitui a parresia.54
Não há como não fazer menção novamente à Foucault quanto à obra Íon quando esclarece como a verdade é revelada: “a verdade não nasce de uma investigação, mas do choque das paixões”.55
Nasce do choque das paixões dos personagens uns em relação aos outros, é exatamente do choque das paixões entre Creusa e Íon que a verdade irá se fazer revelar.
Parresia se relaciona com a palavra “aleturgia”, que significa a descoberta ou a
produção da verdade. Para que a parresia política seja alcançada por Íon é necessária toda uma “aleturgia”, uma série de processos e procedimentos que vai desnudar a verdade.
52 “Altissima Povertà. Regole monastiche e forma di vita” (Homo sacer, IV, I), 3ª. ed., Vicenza: Neri Pozza, 2012.
53 Obra citada. p. 76 e ss.
54 Obra citada. p. 76 e ss. e.p. 97-99 e ss. 55 Obra citada. p. 105.
O tema parresia e a forma como está se dá por partes em Íon se relaciona com o próprio conceito de mito, já que o verbo “myein” envolve além do termo “iniciar” também o termo “calar”.
A verdade de Íon é dita de forma oracular, reticente, enigmática, e é no próprio adro do templo de Apolo que essa verdade vai ser dita.
Essa verdade se faz de certo modo metades por metades. Não é dita de uma só vez toda a verdade. Há três ignorantes na obra: Creusa, Xuto e Íon, sabendo da verdade apenas Apolo, Hermes, e o público que é esclarecido logo no início por Hermes. Mesmo no final da obra Xuto ainda permanecerá na ignorância da verdade do nascimento de Íon.
A mola propulsora do drama segundo Focault é: “a própria dificuldade de dizer a verdade, é uma reticência essencial.”
Explica o autor que essa reticência decorre do fato que o deus nunca é forçado pelos homens a dizer a verdade, já que sua resposta é ambígua, o deus é sempre livre para calar se quiser. Contudo, na peça há uma razão específica que faz que a reticência do deus seja de certa forma selada por outra cláusula: já que Apolo não se cala apenas porque é livre para assim agir, mas porque tem culpa, porque cometeu uma falta.
A resposta não pode vir do deus não por causa da estrutura do dizer-a-verdade oracular, mas porque sendo culpado teria de confessar seus atos e superar a vergonha que sente. Apolo, envergonhado e constrangido, talvez arrependido do seu ato com Creusa, mente e profere um oráculo enganoso. Ele não pode dizer a verdade.
Essa verdade que Íon busca que irá conduzi-lo a reintegrar-se a Atenas em que foi concebido e de onde nasceu, e assim lhe permita exercer um direito político fundamental: o direito de falar, de falar à cidade, de dirigir à cidade uma linguagem de verdade, uma das características essenciais da “politeía”, da estrutura política da constituição de Atenas.
Íon, por não conhecer sua mãe, tem enorme necessidade de saber quem é ela, preferindo que fosse de origem ateniense para poder adquirir, herdar desta a parresía, o direito de falar livremente.
Em “ Íon” aparece claro que no caso de um estrangeiro, ainda que a lei dele faça um cidadão, sua língua continuará sendo serva, não possuindo a parresia.
No caso, a cidade de Atenas não possuía mácula, significa que era uma cidade que preservava suas tradições, onde a constituição não fora alterada por um governo tirânico ou déspota. Esta situação de ser Atenas autóctone, pura de toda mistura estrangeira, se refere segundo Foucault à legislação própria de Atenas de meados do século V a.c., desde 450-451, inexistente na maior parte das demais cidades gregas, não reconhecendo o direito de cidadania
aos filhos nascidos de pai ateniense e de mãe não ateniense, requerendo-se a dupla ascendência ateniense.
Em Atenas a lei é igual para todos segundo o princípio da isonomia, ou seja, cada um tem o direito de voto e de externar sua opinião (“isegoria”), mas entendendo-se cidadãos como uma pequena parte da população, excluindo-se os estrangeiros e escravos.
O texto Íon traz as categorias de cidadãos de direito em Atenas, a multidão incapaz (impotentes), os bons e capazes, que seriam os que podem, por causa do nascimento, estatuto e riqueza, e dentre estes aqueles que se calam por sabedoria e fogem da política, que seriam os sábios, e, por fim, os que casam política com razão, os que representam a autoridade política, ou seja, não se trata da repartição quanto à riqueza entre ricos, pobres e médios, mas quanto a ocupar a primeira fileira da cidade, quanto à distribuição do poder, da autoridade e da influência.
Íon afirma querer a parresia, querer estar na fileira da frente dos cidadãos de Atenas. No entender de Foucault 56, a solução que Xuto propõe a Íon, um jogo de meias mentiras e meias verdades, aproximações, qual seja, que este aceite ser seu filho mesmo não sabendo quem é sua mãe, podendo ser uma mãe não ateniense, mas estrangeira, assim como Xuto, é recusada por Íon e desastrosa do ponto de vista do direito, já que em tal caso não poderia exercer Íon a função fundadora da cidade, havendo uma espécie de interdito jurídico ou de impossibilidade jurídica.
Íon recusa tal hipótese de Xuto, pois quer a verdade porque quer fundar o direito, quer fundar seu direito político em Atenas. Ele quer ter o direito de falar, de dizer tudo, de falar a verdade e de usar sua fala franca.
Foucault entende que Creusa, ao ficar furiosa com a injustiça praticada por Apolo, que tal fúria não é de maneira alguma de índole sexual ou sentimental, mas pela injustiça de que é vítima, já que com o reconhecimento por Xuto de um filho, tal qual filho natural, seu exclusivamente, e não filho também de Creusa, esta se verá destituída do seu papel de dona de casa, de mãe, e de seus direitos, de seu papel de parte do tronco da linhagem real. Vítima de uma injustiça dupla, tanto do seu marido Xuto como do deus Apolo, Creusa se vê na pior das situações, agindo no ápice da ilusão das meias verdades e ilusões, da vergonha, humilhação e cólera, já dizendo serem mortas suas esperanças. Michel Foucault descreve a situação de Creusa e sua parresia:
56 Obra citada. p. 87 e ss.
(...) Creusa se vê na pior das situações que pode se apresentar a uma grega nobre, de alta estirpe e que tem de continuar a linhagem dos seus ancestrais: ela não tem progenitura e seu marido lhe impõe o descendente de uma escrava. É a humilhação absoluta. Mas, por outro lado, é preciso entender que, se estamos no fundo da paixão, também estamos no fundo de todas as ilusões e de todas as mentiras, todas as ilusões e todas as mentiras que se adensam em torno de Creusa (...).
(....) É com essa cólera que Creusa vai falar, e falar numa cena que é exatamente uma cena dupla, uma cena de confissão, que se faz em dois registros: a confissão blasfematória, a confissão acusadora pronunciada contra Apolo; e por outro lado, a confissão de certo modo humana, a confissão penosamente arrancada palavra por palavra, num diálogo com o pedagogo. E essa dupla confissão que vai constituir um dos elementos essências da peça. Isso quer dizer que, para passar da reticência do deus oracular que se recusa a falar ao discurso que vai fundar para Íon a possibilidade de usar da parresia em Atenas, a necessária descoberta da verdade vai passar por um momento singular, muito diferente em sua estrutura, em sua função, em sua organização, em sua prática discursiva, do oráculo ao discurso político. (...) esse elemento de dupla face aliás, da confissão é essa cena na qual Creusa diz ao deus, ou antes, diz publicamente, lembra publicamente ao deus a falta que eles cometeram juntos: confissão pública. (....) logo, discurso de humilhação, discurso de pranto, discurso em lágrimas, discurso da falta em que vai ser preciso dizer com justiça a injustiça dos outros. Porém, mais uma vez, se se diz a injustiça dos outros não é, de modo algum, para virar a situação em seu benefício. É de certo modo para atrair sobre si, para recordar à sua volta todas as desgraças e todas as injustiças de que foi vítima. 57
57 Obra citada. p.102 ss, 110 e ss.
2. CONSIDERAÇÕES SOBRE NOSSA ATUALIDADE A PARTIR DA