A evolução dos conceitos é evidente nos documentos das Conferências Internacionais de Educação de Adultos da UNESCO. De um discurso centrado nos analfabetos e na alfabetização, passa-se, progressivamente, para um discurso centrado nos públicos desfavorecidos. Num livro publicado pela OCDE (1993), reconhece-se que “a alfabetização é um conceito social cuja definição tem evoluído ao longo dos tempos, muitas vezes como reacção a
profundas mutações económicas” (p.17). Nas primeiras Conferências surgem os conceitos de alfabetização e de alfabetização funcional. No primeiro caso, trata-se de acções orientadas para aquisição de competências de leitura e escrita; no segundo, já se considera também a importância do uso social das competências de leitura e escrita recém-adquiridas. No relatório da IV Conferência, surge a referência a novos conceitos, mas alguns não são claramente definidos, o que dificulta a análise comparativa com os usados nas Conferências anteriores. Nesta Conferência, faz-se referência à alfabetização primária e à alfabetização cultural e tecnológica. Entende-se que a alfabetização cultural “tem por finalidade promover um nível educativo e cultural que permita adquirir capacidades básicas de ler, escrever e fazer contas e participar no desenvolvimento da sociedade e na renovação das estruturas, o que constitui um incentivo social e cultural indispensável para continuar a aprender e para melhorar a qualidade de vida” (UNESCO, 1985, p.62). Apesar de não se explicitar, ao que tudo indica, a alfabetização primária é dirigida às situações de analfabetismo, referentes essencialmente aos Países do Terceiro Mundo e a alfabetização cultural e tecnológica, destinada às situações de analfabetismo funcional dos Países desenvolvidos e industrializados.
Define-se também o conceito de alfabetização funcional e o conceito de alfabetização social. Entende-se que a alfabetização funcional “para além do ensino básico deve contribuir para que os trabalhadores dominem mais o seu ofício, aumentem os seus conhecimentos teóricos e práticos, possam ter perspectivas de carreira e de continuidade educativa” (UNESCO, 1985, p.62). A alfabetização social “deveria ser um meio de adquirir os instrumentos necessários para dominar mais a palavra escrita e de abrir caminho à integração do novo alfabetizado no seu meio cultural, social e político” (UNESCO, 1985, p.62). A profusão lexical e semântica é uma estratégia usada na construção do problema do analfabetismo, propondo os vários intervenientes as próprias definiçõe, adoptando diferentes terminologias, o que origina “as diferentes definições desde as mais restritas e precisas, às mais amplas e imprecisas” (Lahire, 2003a, p.22). Lahire (2003) referindo-se ao discurso sobre o analfabetismo, considera que “as definições são flexíveis, apresentando um infinito de variações, segundo as necessidades e os interesses conjunturais daqueles que as produzem” (p.23), o que é bastante evidente no relatório desta Conferência.
O discurso da V Conferência foi estruturado em torno de dez temáticas, numa tentativa de se abordar a educação de adultos na sua diversidade e complexidade. A alfabetização e educação de base de adultos constituíam uma dessas dez temáticas. Nesta Conferência, continua-se a considerar, no plano dos princípios, a alfabetização enquanto prioridade, mas na realidade percebe-se uma grande erosão do discurso, neste domínio. As temáticas do
analfabetismo e da alfabetização ficaram um pouco silenciadas e muitas outras temáticas foram tratadas com igual destaque. Na V Conferência, atribuiu-se “claramente à educação de adultos um papel fundamental na procura de soluções para muitos dos problemas e desafios que afectam as sociedades actuais” (Melo, Lima e Almeida, 2002, p.17), o que justifica a diversidade de temáticas tratadas. A alfabetização e a educação de base continuam a ser identificadas como áreas de intervenção mas perderam o lugar de destaque e a prioridade que lhes foi atribuída em anteriores Conferências da UNESCO. Fala-se muito pouco do analfabetismo e da alfabetização nos países em vias de desenvolvimento. O discurso sobre os públicos alvo prioritários é quase ausente nesta Conferência, o uso dos termos “analfabetos” e “analfabetismo” é muito raro, poucas vezes se mencionam, explicitamente, os indivíduos com baixos níveis de escolaridade. Opta-se, manifestamente, por usar a expressão “indivíduos desfavorecidos”, à semelhança do que acontece nos documentos da União Europeia, como é o caso do Livro Branco da Educação e Formação e do Memorando sobre a Aprendizagem ao Longo da Vida. Esta mudança de terminologia coincide com o período de um maior enfoque na perspectiva da aprendizagem ao longo da vida, por parte do discurso político. A mudança de perspectivas educativas também originou alterações nos públicos tidos como prioritários. Neste caso, as políticas de educação de adultos, baseadas na perspectiva da educação permanente, identificavam problemas que são omitidos nas políticas educativas baseadas na perspectiva da aprendizagem ao longo da vida.
Ao longo das Conferências da UNESCO, nota-se uma evolução nos públicos da educação de adultos. Na I Conferência, falava-se, essencialmente, dos operários e da formação orientada para a promoção social, em resultado da influência da educação popular. A partir da II Conferência, surge a ênfase nos analfabetos e na alfabetização, o que se mantém na III Conferência. Nas II e III Conferências o enfoque é colocado na erradicação do analfabetismo, nos países em vias de desenvolvimento. Na IV Conferência, fala-se dos analfabetos dos países em vias de desenvolvimento, mas também se reconhece a existência deste fenómeno nos países industrializados, nomeadamente, nos meios rurais e suburbanos. Na V Conferência, deixa de se referir os analfabetos e opta-se por falar em pessoas desfavorecidas, sem que se explicite o seu significado. O facto desta expressão apresentar um significado muito amplo, incluindo todo um leque de situações em que as pessoas são consideradas desfavorecidas social e economicamente, pode ter consequências na diminuição de medidas, especificamente, orientadas para os analfabetos e para os adultos pouco escolarizados.