se um dos objectivos de uma investigação residir na descrição e análise do conteúdo mediático de uma forma mais compreensiva e menos sujeita às idiossincrasias subjectivas, é necessário aplicar um método sistemático (cfr. Hansen et al., 1998: 91) – como a análise de conteúdo. esta metodologia pode ser definida como qualquer técnica de realização de inferências através da identificação objectiva das características das mensagens (cfr. Holsti apud berg, 2004: 267).
o seu objectivo consiste, assim, em contabilizar a ocorrência de características específicas ou da dimensão dos textos e, deste modo, ser capaz de dizer algo sobre as mensagens, imagens, representações desses mesmos textos e sobre o seu significado social a nível mais abrangente (cfr. Hansen et al., op. cit.: 95), tornando, por isso, possível a captação dos padrões ou das frequências de sentido através de uma amostra de textos (cfr. richardson, 2007: 21). os critérios de selecção utilizados em qualquer análise de conteúdo devem, assim sendo, ser suficientemente rígidos e aplicados de forma consistente, de forma a que outros pesquisadores, olhando para as mesmas mensagens, possam obter os mesmos resultados (cfr. berg, op. cit.: 268).
na análise de conteúdo, os investigadores examinam os artefactos da comunicação social reproduzidos num suporte material (cfr. berg, op. cit.: 267), ou seja, documentos escritos, permitindo um controlo posterior sobre o trabalho de investigação (cfr. Quivy et al., 1992: 228). no entanto, a análise de conteúdo apenas estuda o conteúdo manifesto da comunicação, como assim a definiu berelson (apud Hansen et al., 1998: 94), e não os factores sociais ou contextuais fora do texto em si mesmo (cfr. richardson, op. cit.: 17).
na presente pesquisa, utilizámos a análise de conteúdo das cartas dos leitores, nos jornais/revista seleccionadas. no total, foram examinados 371 textos dos leitores, 207 publicados e 164 não publicados, cuja recolha coincidiu com os períodos atrás referenciados de contacto com as publicações analisadas.
a maior parte dos estudos sobre as secções de correspondência dos jornais apenas analisam as cartas publicadas, mas alguns investigadores apelaram para a necessidade de estudar também as cartas não publicadas, como única forma de extrair conclusões sobre os textos e sobre os seus autores (cfr. renfro, 1979: 822; grey et al., 1970: 453) – e um dos nossos objectivos de partida foi, aliás, desde sempre, adquirir uma perspectiva global sobre as cartas enviadas para as publicações (e não, meramente, as que foram publicadas pelas mesmas), de forma a obter informações não só sobre os critérios de selecção, mas também sobre os temas focados na totalidade dos textos dos leitores, entre outros aspectos. ao contrário do que sucedeu no nosso estudo de caso sobre o jornal Público, em que apenas tivemos acesso a uma parte das cartas excluídas de publicação (47%), foi possível aceder à totalidade dessas mesmas cartas, nas quatro publicações analisadas, tal como nos foram fornecidas pelos editores responsáveis pela gestão da secção.
pensar nas categorias apropriadas da análise de conteúdo requer uma imersão no material textual de forma a ganhar uma impressão sobre o mesmo, a nível de conteúdo e da estrutura, antes da construção propriamente dita das categorias (cfr. Hansen et al., op. cit.: 107). Tivemos, também, a preocupação de obter uma perspectiva geral do corpus a analisar, através de uma leitura prévia do mesmo, de forma a que as variáveis, e as respectivas categorias de análise, correspondessem às cartas examinadas.
Foi desenhada uma grelha de análise de conteúdo, especificamente concebida para este estudo, partindo, no entanto, de algumas variáveis que já tinham sido incluídas no nosso estudo de caso sobre o jornal Público, mas eliminando, modificando ou acrescentando as que considerámos pertinentes para a presente pesquisa4. os dados foram tratados com o programa de análise estatística spss
4) optámos, por exemplo, por construir uma grelha de análise de conteúdo que fosse aplicada, quer às cartas publicadas, quer às cartas não publicadas, em vez de desenhar duas grelhas, aplicáveis aos dois universos, como fizemos no nosso estudo de caso, de forma a obter uma visão
(Statistical Package for the Social Sciences), utilizando apuramentos estatísticos univariados e bivariados.
na grelha de análise de conteúdo, procurámos incluir variáveis que nos fornecessem informações sobre aspectos que considerávamos essenciais para a percepção dos critérios de selecção das cartas, bem como da forma e conteúdo destas últimas. assim sendo, optámos por utilizar variáveis de carácter mais formal, como as que incidissem sobre os modos de escrita e de envio da carta, o seu tamanho, a existência (ou não) de destaque gráfico, a quantidade de cortes que sofreu (se indicados pela publicação), o autor da carta (incluindo as variáveis de género, identificação, proveniência geográfica e função social/estatuto); e, por outro lado, variáveis relacionadas com o conteúdo e estilo da carta, como o seu tema (principal e secundário), a associação a um acontecimento, a orientação, o estilo discursivo, os interlocutores interpelados pela carta, a existência de uma referência a uma notícia publicada no jornal/revista ou de uma nota de redacção/ direcção a acompanhar a carta, bem como, no caso dos textos não publicados, os motivos invocados (principal e secundário) pelos responsáveis para a não inclusão nas páginas do jornal/revista, incluindo, deste modo, na nossa grelha, aspectos “fora do texto”, obtidos através dos contactos nas publicações analisadas, mas que nos poderiam fornecer uma perspectiva mais abrangente sobre as “regras” de exclusão das cartas dos leitores.