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“Quando [o comandante] me deu a arma, me perguntou como queria chamar-me desse momento em diante. Falei, sem pensar duas vezes: Melisa, porque admirava a Melisa Gilbert, que fazia o papel de Laura na ‘Familia Ingalls’, um programa de televisão que me encantava” (MOLANO: 1999:139). Na guerrilha, cada membro é impelido a romper com qualquer tipo de conexão social que possa interferir em seu processo de inserção. Quem ingressa deve suspender vínculos afetivos, familiares, políticos, profissionais, etc. A escolha do ‘nome de guerra’ com o qual se identificará dentro da organização sinaliza o começo do processo civilizador que conduz o indivíduo na direção da formação do habitus guerreiro.

Longe da esfera pública, desmembrado daquele contexto amplo da vida social, o guerreiro não pode fugir da interação constante com seus ‘companheiros de luta’. Ao experimentar as nuanças da vida cotidiana e participar das alegrias, esperanças, vitórias e fracassos dessa vida em comum, ele se insere no tecido social guerrilheiro e incorpora os traços militares que identificam essa coletividade. É próprio do guerrilheiro ser disciplinado, obediente, fiel; ter amor pela pátria e pela revolução, destreza para o combate e coragem para enfrentar o inimigo. Encoberto pela névoa do secreto, tão característica desse tipo de grupo, progressivamente o militante do grupo assume o desafio de construir para si uma nova identidade: a do guerrilheiro. Amparado pelo princípio segundo o qual na guerrilha ninguém conhece seu passado, percebendo-se livre das coerções do contexto familiar e social de onde veio, ele se abre para iniciar uma nova etapa da vida totalmente desconexa do seu passado.

A partir do ingresso na guerrilha, abre-se um novo horizonte a ser explorado. Dialogando com guerrilheiros, percebi que suas vidas se fragmentam no antes e no durante a vida guerrilheira. Com expressões do tipo “quando estava na civil”, “antes de me enmontar” [refugiar-se no mato], “quando era guerro” [guerrilheiro], referiam-se a dois momentos sem nenhuma conexão entre si, dando a entender que o curso de suas vidas foi interrompido com o

ingresso na guerrilha, como se esse fato tivesse dado começo a uma outra experiência que aniquilou qualquer junção com o passado.

No mundo novo que se abre, no mundo dos guerreiros, o indivíduo pode metamorfosear- se, desenvolver uma forma particular de se apresentar perante os demais, seja ela provisória ou permanente, sem temer que a realidade o desminta. Escondido no anonimato da vida guerrilheira, sem rosto identificável na esfera pública, ele não corre mais o risco de ser visto e reconhecido. Pode agir destemidamente e é livre de qualquer responsabilidade. Participando da uniformidade guerrilheira, suas ações não o denotam nem o comprometem, porque ele não age por si, mas em obediência aos mandos. Dizia o velho comandante Jacobo Arenas: “Entra um novo membro das

FARC-EP, entra um novo integrante e esse integrante pode ser homem ou pode ser mulher. Todos têm os mesmos direitos e as mesmas obrigações” (ARANGO:1984:41). Dados precisos

sobre a identidade de outrem têm pouca importância. Características raciais, de gênero, de idade ou de formação acadêmica são apenas dados secundários, objeto de uma descrição de pouca monta.

Os traços individuais dos novos componentes são regulados para que não interferem na organização interna do grupo, nem possibilitem algum tipo de deferência no tratamento militar. Despojado do passado, o sujeito encarna um uma nova forma de existir, sua identidade passa a se revelar a partir das informações que ele mesmo fornece: ele é o que deixa transparecer em suas ações e palavras. Quando desvela sua intimidade, nenhum de seus companheiros, com exceção dos comandantes, o pressiona para fazê-lo inteiramente, pois, assim como ele, todos os demais também são atores que, bem ou mal, estão representando um personagem que atua no grande enredo das lutas revolucionárias. Valendo-se da artimanha de esconder ou revelar o que considera conveniente no redemoinho das incessantes interações sociais guerrilheiras, o indivíduo não corre mais o risco de ser traído ou reconhecido pelo seu passado, pois só se leva em conta o que ele dá a conhecer do seu presente.

Liberto das restrições da esfera pública, o microcosmo social guerrilheiro lhe oferece um sem número de “eus” provisórios, os quais funcionarão como subsídios na tentativa de construir

uma nova identidade. E essa nova identidade não é mais que a sucessão desses ‘eus’, usados pelo indivíduo para revelar-se conforme o sabor das circunstâncias. Camarada, amigo, amante, combatente... Nesse mundo coletivo, de indivíduos relativamente anônimos, o ser social do guerreiro se constrói. Ali, no dia-a-dia, é-lhe oferecida a possibilidade de fazer novas revelações, exercitando uma experiência original de relativa liberdade, sem as coerções do passado. Em relação ao futuro, no processo de construção do habitus guerreiro, o horizonte se abre para que o indivíduo, conforme suas conveniências, dê os passos oportunos na tentativa de se integrar ao grupo. Assim como quem escreve sua própria biografia, aos trancos e barrancos a máscara simbólica do anonimato guerrilheiro se torna um estímulo ao relaxamento de toda civilidade pretérita.

Uma vez inserido na guerrilheira, o indivíduo não pode fugir da força centrípeta do grupo que o envolve e o ata à rede de interdependências que se estabelece entre os guerreiros. Para participar dela não precisa de qualquer tipo de especialidade funcional ou de algum requisito prévio. O que o grupo espera dele é que participe ativamente dessa vida em comum, que se integre e contribua com sua força singular para a manutenção e sobrevivência dessa coletividade. Com o tempo ocupado na execução de tarefas encomendadas pelos superiores, pensamentos e sentimentos que vinculam o guerreiro a seu passado gradativamente vão cedendo espaço às preocupações próprias da rotina militar guerrilheira. Interesses, anseios e projetos individuais vão ficando relegados a um segundo plano, face à urgência da luta revolucionária que não dá trégua. Assim, como efeito dessa força centrípeta da guerrilha, as marcas do passado, inscritas no corpo e no espírito do guerreiro, são ofuscadas pela visibilidade do guerrilheiro. Assimilado pelo grupo, ele não deixa vestígios de sua identidade individual, o que se veicula é o nome da organização como a única responsável de seus feitos no desenvolvimento da guerra.

A fim de assimilar a diversidade de seus membros, a guerrilha desenhou uma estrutura de dominação e de subordinação com hierarquia de comando e obediência, onde a autonomia individual, embora não totalmente aniquilada, é extremamente limitada. Cercado por uma série de coerções sociais, a alternativa que fica para o indivíduo é a de se esforçar para viver em conformidade com o que a coletividade espera do guerreiro. É perceptível que, enquanto os nexos com o grupo guerrilheiro se fortalecem, o contato com o a esfera da vida pública se rompe. Como

uma evidência desse fato, pode ser considerada a displicência com que os guerrilheiros se referiam aos laços que poderiam atá-los a sua vida anterior. Perguntei para alguns deles pelos documentos de identidade. Sua inexistência foi a constatação mais freqüente. Muitos nunca os tiveram, alguns tantos os perderam, mas todos admitiram que, durante o tempo de militância, nunca precisaram deles. Embora, para a maioria dos seres humanos, os documentos confirmem vínculos civis, familiares e profissionais, já que, para os guerrilheiros eles não eram necessários. Dessa forma, eles pareciam revelar que, na guerrilha, qualquer nexo com o resto do mundo circundante é preterido, pois para conduzir sua existência bastava ser guerrilheiro.

No balanço do indivíduo e da pessoa

Como se constrói a identidade do guerrilheiro? Questionar pela categoria identidade No interior das FARC-EP nos remete a uma multiplicidade de perspectivas interdisciplinares. No novo dicionário Aurélio, a palavra identidade é definida como o “conjunto de caracteres próprios e

exclusivos de uma pessoa: nome, idade, estado, profissão, sexo, defeitos físicos, impressões digitais, etc”. Para os antigos latinos, indentitate significava a consciência que uma pessoa tinha

dela mesma e a consciência daquelas características que a identificavam, no ato de relacionar-se com seus semelhantes. A identidade, portanto, implica e pressupõe a presença de outrem. É no fato de estabelecer vínculos relacionais de confrontação mútua, na incessante sucessão de interações sociais, na confrontação de olhares sobre as pessoas e as coisas, que o indivíduo pode determinar as diferenças entre ele mesmo e os outros.

O modelo sócio-cultural do modernismo tornou-se para nós lugar comum para refletir em torno da vida humana, dado que a percepção da existência parece precisar de um referencial que permita estabelecer os limites da identidade. Nesse diapasão, as categorias de lugar e tempo contribuem para a localização e estabilização da identidade. Essas comunidades definidas por Benedict Anderson no marco das ‘comunidades imaginárias’, alcançam sua homogeneidade quando referidas ao conceito de Estado-Nação79. A preponderância do coletivo manifestada na força do Estado se evidencia no ato de subjugar os interesses individuais mediante o exercício da

violência simbólica que emerge de seu discurso dominante, trazendo como efeito a dizimação das manifestações singulares que possam disputar o poder monopolizado. Nesse modelo, constrói-se uma história evolutiva inspirada nos fatos do passado, tendo como eixo o homem em sua condição de sujeito único e individual. Assim, o lugar e o tempo outorgam a substância que molda e define a identidade do indivíduo.

No mundo dos guerreiros, no processo de construção da identidade individual, as categorias de lugar e tempo, oferecidas pelo Estado-Nação como subsídios básicos para a construção da identidade individual, são substituídas por outras propiciadas pela criatividade humana, que na guerrilha parece não ter limites. Num contexto de conflito armado, artifícios de dominação do grupo sobre os indivíduos que o integram emergem como alternativas de sobrevivência para quem vive assediado por constantes ameaças. Temos, então, entre outros artifícios racionalmente construídos: o secreto como condição necessária no processo de configuração do grupo; códigos disciplinares e coerções grupais como instrumentos que tornam o indivíduo mais dócil e o colocam a serviço da guerrilha; interações comunitárias que ativam o processo de autocoerção individual; interdependências com grupos inimigos que reforçam a disposição para o combate; a negação da individualidade que, embora esteja na contramão do pensamento pós-moderno, é condição fundamental para a sobrevivência dos grupos revolucionários. A tudo isso se soma a lógica das máscaras que, nesse eterno carnaval dos grupos revolucionários, é levada até o extremo. As categorias de tempo e espaço do Estado-Nação, na guerrilha, foram substituídas por esses dispositivos, os quais, embora tenham sido criados em função do fortalecimento do grupo, seus efeitos são sentidos pelos indivíduos à medida que são induzidos no processo dinâmico de construção da identidade dos guerreiros.

Um traço característico da identidade dos guerreiros é sua disposição para o combate, traço esse que, à primeira vista, vê-se favorecido por uma aparente predisposição dos indivíduos que integram esses grupos guerrilheiros para realizar ações de ordem militar. De fato, no contato que tive com alguns guerrilheiros, quase todos afirmavam ter, se não disposição, pelo menos

‘inclinação’ para participar de algum grupo em estado permanente de conflito. A explicação para

esse fato provavelmente se encontra numa breve observação sobre o processo de configuração do Estado Colombiano. Tal processo foi caracterizado pela evidente fragmentação social. O mapa

geopolítico do país tem sido povoado por diversos grupos humanos, ligados entre si por processos de interdependência mútua. Mesmo que dividindo o mesmo espaço físico, esses grupos, constituídos por razões de raça, região ou cultura, encontraram nas características que os identificavam a causa para se diferenciarem e se separarem dos outros. Como foi mostrado no Capítulo I dese trabalho, as disparidades favoreceram a configuração de grupos excluídos do processo de desenvolvimento econômico e político no país. As diferenças desataram conflitos sociais profundos, cujo melhor indicador é a existência de tantos grupos armados em estado de guerra permanente.

Esses grupos irromperam com sua força e alteraram a inércia de uma sociedade alicerçada na tradição. A interação sociedade/guerrilha possibilitou que, em alguns setores da população, os traços de civilidade que contribuíam para a formação da identidade individual, como a família, a escola, a religião, etc., fossem substituídos por outros marcadamente militares. De fato, nas regiões onde grupos armados marcam presença há três ou quatro décadas, os moradores perceberam que nessa coletividade poderiam encontrar uma alternativa de inserção social que lhes permitisse uma forma de vida diferente, substitutiva daquela que propunha o Estado. No seio do estabelecimento, as FARC-EP emergem como um novo cenário social, onde cada indivíduo que ingressa encontra uma gama de possibilidades para construir uma outra identidade.

A noção de identidade80 se explicita em dois conceitos através dos quais é possível denotar a complexidade de duas realidades humanas predominantes: a do indivíduo como ser concreto e a do indivíduo como peça que conforma uma figuração social. O conceito de indivíduo nos remete àquela idéia enfatizada pelo ‘eu individual’, aquele ser possuidor de um cúmulo de emoções, sentimentos, anseios e espaços de intimidade, e capaz de discernir e fazer escolhas. Revestido por esses traços, o ‘eu individual’, na cultura ocidental, tornou-se o centro a partir do qual se ergueram saberes que proclamam a importância da parte sobre o todo, tais como a democracia e o direito. Não é estranho que, no senso comum, se assuma como defensável a assertiva de que a sociedade deve estar a serviço do indivíduo. Se, por acaso, este for colocado a serviço da sociedade, tal fato seria interpretado como prova de grande injustiça.

80 Na tentativa de abordar esse conceito, foi bastante iluminadora a leitura do IV Capitulo do livro de DaMATA (1990) titulado Você Sabe com Quem Está Flando? Um ensaio sobre a Distinção entre Individuo e Pessoa no Brasil.

No entanto, o indivíduo, embora possuidor daquele cúmulo de manifestações de sua singularidade, mesmo em situações de aparente isolamento, não deixa de fazer parte de uma coletividade conduzida através de uma ordem oculta e não diretamente perceptível pelos sentidos. Nessa ordem invisível que emerge da vida em comum, cada um está inserido num complexo funcional de estrutura definida. Nessa teia de interações sociais, o indivíduo, a partir do momento em que nasce, passa a se conformar a esse complexo funcional e a se desenvolver baseado nele. Mesmo sendo livre, em suas possibilidades de escolha terá que se moldar às funções preexistentes, as quais são apresentadas de forma bastante limitada. Nessa agitação da vida em comum a que chamamos de sociedade, as aspirações individuais cedem espaço para o aparecimento da primazia dos interesses coletivos. Amiúde, na vida em comum o critério é: entre mais igualdade para todos, melhor. A uniformidade se impõe.

Inserido no tecido social comunitário, a função do indivíduo é vista mais como necessidade de complementaridade do que como possibilidade de auto-realização. No cenário da vida social, cada indivíduo é peça necessária, e através da soma de todos é que se alcança a

formação daquela totalidade. Em vez de termos a sociedade contida no indivíduo, temos o oposto: o indivíduo contido e imerso na sociedade. É a essa vertente que corresponde a noção de

‘pessoa’. Entendemos como ‘pessoa’ aquela entidade capaz de remeter ao todo, e não mais à

mera unidade. Em outras palavras, a noção de ‘pessoa’ pode ser sumariamente caracterizada como uma vertente coletiva da individualidade, como uma máscara que é colocada sobre o indivíduo para oferecer-lhe uma gama mais ou menos restrita de funções e modos de comportamento possíveis, como subsídios necessários para que o indivíduo singular, revelando- se na esfera pública, se torne um ser social.

De fato, não há dúvida de que o melhor espaço de auto-afirmação e auto-revelação da individualidade é a esfera pública. Na medida em que se ampliam os círculos sociais, em que as interações dos indivíduos adquirem maior cobertura, haverá mais espaços para o desenvolvimento da individualidade. Na amplitude da vida social, os limites que fecham o círculo de ação individual são flexíveis, permitindo que as peculiaridades individuais se acentuem. É por isso que se afirma que, entre mais amplo seja o círculo social, maiores são as possibilidades para a manifestação da individualidade.

Entrementes, no mundo dos guerreiros o círculo se fecha. O cerco sobre o indivíduo aperta com todo seu rigor, incidindo diretamente sobre a configuração da individualidade dos guerrilheiros. É de supor que quem ingressa na guerrilha, ainda que o faça antes de entrar na vida adulta, já tem traços de uma individualidade formada. Sendo a família o primeiro grupo social do qual sai o indivíduo para ingressar na vida guerrilheira, ele leva consigo uma série de informações que lhe configuram como ser social, possuidor de uma diferencial provisório no turbilhão de relações da vida em sociedade. É do núcleo familiar que cada indivíduo tira as bases para delinear uma série de traços de pensamento e de sentimento, os quais lhe serão característicos quando alcance a configuração de uma individualidade relativamente estável.

No contato que tive com diversos guerrilheiros, percebi que, embora os traços individuais fossem evidentes, havia uma série de marcas do passado que lhes eram comuns. Na maioria dos casos, faziam parte de sua identidade a pobreza, a exclusão social, o subemprego, a falta de perspectivas, de afeto e apoio familiares, assim com também, em alguns casos, a violência

praticada por outros grupos armados. Condenados, na maioria dos casos, a sobreviver por seus próprios meios, desejavam ajudar economicamente a suas famílias, levar uma vida menos ingrata, alimentar-se devidamente, curtir certo tipo de aventura, possuir uma arma ou, simplesmente, a vivenciar um sentimento de pertença que lhes oferecesse status e visibilidade social.

Mesmo possuindo características comuns, cada guerreiro levava consigo uma história individual para contar; mas no mundo dos guerreiros o cerco é estreito e o que for patrimônio individual deve ser silenciado. Separado do núcleo social amplo, o guerreiro é inserido numa estrutura eminentemente militar. Nela, mediante coações calculadas, progressivamente os traços característicos do grupo vão penetrando a sua intimidade, tomando-lhe posse, moldando-o de acordo com as necessidades do coletivo. Assim, a incessante ação das coações sociais torna o indivíduo sempre disponível, prestativo, quase que instrumental à luta revolucionária. Mas só depois de um período de tempo bastante prolongado é o grupo poderá celebrar seu domínio sobre o indivíduo, e esse momento ocorrerá quando ele tenha sido possuído plenamente pelo automatismo dos hábitos e sua forma de pensar, sentir e agir passe a revelar os traços característicos do ‘habitus guerreiro’. Nessa viagem sem retorno, a identidade do camponês foi suplantada pela identidade do guerrilheiro.

A comandante Olga Lúcia afirmava:

Quando a gente decide ser guerrilheira das FARC-EP não pode sair mais [...]. É o regulamento [...]. Do contrário seria uma romaria de gente. Não haveria estabilidade na organização. Além do mais, tudo seria muito simples porque se você pisa na bola, e vê que a coisa ficou difícil, vai embora. Não, a decisão é séria. A gente tem que saber onde está entrando. (LARA, 2001: 105).

Entrar na guerrilha é uma opção que envolve e compromete a vida da pessoa por inteiro, ninguém pode entrar e sair conforme sejam suas motivações. Inserido nessa máquina de guerra, a dimensão individual é contida, reduzida a espaços mínimos. Mas o grupo guerrilheiro, mediante uma série de dispositivos disciplinares, oferece um cúmulo de possibilidades para que o indivíduo desenvolva plenamente a noção de guerrilheiro.

Confidenciou-me Rosa Flor:

No começo, foi terrível, eu não entendia nada do que acontecia. Éramos quatro mulheres, a mais velha se chamava Mariana. Comecei a falar com ela porque era muito legal comigo. Me aconselhava. Ela me dizia para evitar fazer reclamações do que não gostava, que não fizesse críticas nem comentários do que ouvia, se perguntavam como me sentia

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