Figura 6: Sala do 6°ano - Exposição no Bazar de Natal, 2013
Fonte: Acervo da pesquisadora
A educação musical não é tratada como uma matéria isolada das outras e o ensino de música não serve exclusivamente para a aquisição de conhecimentos e habilidades musicais, mas também para o desenvolvimento da vida social. Ora atuando e ora escutando, alternadamente, o aluno vivencia a música que deverá estar presente em todas as áreas do ensino. Exercitar o ouvido e a atenção são itens importantes para a educação musical nesta fase de crescimento (FEWB, 1999; FREIDENREICH, 1990).
O ensino de música visa uma formação humana mais global e exige do professor um conhecimento básico sobre as etapas de desenvolvimento dos seus alunos. Além disso, para poder irradiar um equilíbrio nas suas atividades, deve se apoiar nos três âmbitos anímicos, que permeiam toda a pedagogia: o pensar, o sentir e o querer. Sustentadas pelos sistemas neuro-
sensorial, rítmico e metabólico-motor, estas três atividades anímicas têm relação com os três elementos musicais: a melodia, a harmonia e o ritmo.
Friedenreich (1990), considerando a educação musical como uma formação pedagógica do sentimento e da vontade, orienta que o professor deve tatear constantemente o estado íntimo da alma dos alunos. Ele adverte sobre os poderes da música e metodologia de ensino. Por isso a importância da formação do professor, as escolhas e seu método de ensino que podem intervir “de forma impulsionadora, despertadora e harmonizadora na configuração físico-anímico-espiritual de seus alunos” (FRIEDENREICH, 1990, p. 25).
Um ponto relevante a observar é a escala tonal. A escala habitual diatônica, com seus caracteres de tonalidade maior e menor, tem uma qualidade mais terrestre do que uma escala pentatônica (com os cinco tons). Em tempos antigos a atmosfera de quintas estava mais presente e até hoje traz um ambiente mais cósmico, mais fluido e aberto, sem os estreitos semitons (HAES, 2012, p. 31).
Esta atmosfera de quintas vive na fantasia dos contos de fadas e lendas, próprio para a criança do ensino infantil e passagem ao segundo setênio de vida. Dentro da evolução da biografia humana, a sequência dos tons inteiros em quintas aparece num primeiro “estágio de percepção do universo”, conforme elucida Petraglia (2010), ”tendo sua origem na infância da humanidade, especialmente na antiga China e no antigo Egito.” (PEGRALIA, 2010, p. 91).
De acordo com o Projeto Pedagógico da FEWB (1999), a qualidade musical no ambiente de quintas vai atuar numa respiração livre quando a melodia se movimenta livremente ao redor do lá, onde a melodia, o ritmo e a harmonia estão inter- relacionados, flutuando sem uma tônica ou presos a um determinado compasso (FEWB, 1999).
Petraglia (2010) ressalta que a estrutura da escala com a ambiência do intervalo de quintas, sem a presença do intervalo da terça, que traz um sentimento de interioridade, atua em nós como uma “pele musical”, no próprio processo respiratório e com qualidade “aconchegante, segura e serena”. (PETRAGLIA, 2010, p. 91). Assim, a própria música nesta ambiência em quintas trará
a qualidade anímica que tanto a criança necessita, ainda na passagem dos primeiros anos do ensino fundamental. Esta é a própria atmosfera do mundo imagético do ensino infantil e, do ponto de vista musical, as crianças passam da atmosfera de quintas para a vivência de terças, nos primeiros anos do ensino fundamental.
O canto e também a música instrumental recebem atenção especial na pedagogia Waldorf. Visando a uma educação integral, o objetivo é desenvolver habilidades e para isso todos os alunos aprendem a tocar um instrumento desde o primeiro ano. O canto sempre estará presente na vida escolar do aluno Waldorf. Normalmente a iniciação da flauta doce soprano se dá a partir do primeiro ano.
De forma que o fazer musical está presente no planejamento e na atuação do professor, sendo comum encontrar uma orquestra e/ou coral na escola Waldorf. Na escola Waldorf onde eu estagiei na Alemanha, na década de 90, os alunos trabalhavam musicalmente com introdução à flauta pentatônica no primeiro e segundo ano e depois a passagem para a flauta diatônica no terceiro ano. A partir do terceiro ano os alunos também tinham aula de lira ou violino.
As canções acompanham as épocas do ensino, ambiente das estações do ano, ritmos do dia e são aprendidas por imitação. No segundo ano as canções já trazem uma determinada tonalidade, gradativamente do 1° para o 2° ano. O canto e os gestos expressam o anímico e formam uma unidade, despertando e harmonizando o sistema rítmico da criança. No Apêndice 9 apresento um resumo das orientações da FEWB (1999) para o ensino de música do Ensino Infantil, Fundamental e Médio. Considerei o conteúdo do Ensino Infantil, tendo em vista sua importância para a passagem dos primeiros anos do Ensino Fundamental. Convém ressaltar que o currículo de todas as disciplinas tem como pano de fundo o tema da época trabalhada na classe, intensificando os conteúdos. O canto e a música instrumental estão presentes no dia a dia, conduzidos pelo professor de classe, quando este tem habilidade musical, e pelos professores especialistas. Para a avaliação do aluno é considerada a dedicação para a beleza artística em si. O aluno deve se sentir envolvido para criar o belo. Na música isto se consegue mediante o esforço de um querer ativo.
5 A PROFESSORA DE CLASSE: PRÁTICAS E SABERES “Imbui-te com o poder da fantasia
Tem coragem para a verdade Aguça o teu sentir Para a responsabilidade da alma Sabedoria ilumina-me Amor incendeia-me Força compenetra-me Para que surja em mim Um benfeitor da humanidade Um servidor da causa sagrada Altruísta e fiel” Rudolf Steiner Todos os dias, ao chegarem à escola de manhã, os educadores se reúnem na Sala dos Professores e falam este verso antes de receberem os alunos em sala de aula. É um momento de encontro, harmonização e afinação entre todos os profissionais e tem como objetivo despertar para a tarefa diária do educador.
A minha primeira visita oficial como pesquisadora na Escola Waldorf Anabá foi numa manhã especial de Assembleia Geral, quando todos os alunos se reuniram na quadra de esportes para falarem juntos os seus versos da manhã, presenteando, cantando e comemorando no início do ano letivo o 33° aniversário da escola.
Neste capítulo, relato os resultados da inserção na escola. No começo caracterizo o lócus do trabalho, o perfil dos profissionais que compõem o Colégio de Professores e Pais, além de alguns itens do Regimento Interno da escola como, por exemplo, a política para inclusão e a avaliação escolar. Depois, caracterizo a professora de classe, o seu percurso de formação e experiência profissionais, a classe inclusiva do 2°ano e o Grupo de Apoio Pedagógico nesta escola.
Finalizando este capítulo, apresento as análises dos resultados nas três principais categorias: as práticas pedagógicas, as práticas inclusivas e as práticas musicais.