3. BRUKSOMRÅDER
3.2 B UNDEN BRUK
3.2.1 Tilslag i konstruksjonsbetong
Outros elementos importantes do instrumental teórico de Lask são os conceitos de nudez lógica (logische Nacktheit), irracionalidade (Irrationalität) e irracionalismo (Irrationalismus), dos quais ele se ocupa na quinta seção da primeira parte386 e na terceira
seção do capítulo três da segunda parte387 de LPK.
Analisando a famosa passagem de Kant segundo a qual “pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas”,388 Lask afirma tratar-se de uma formulação
unilateral, pois se limita à esfera derivada da objetividade (Objektivität), ou seja, ao correlato subjetivo do sentido, o que tem o inconveniente de ocultar a dualidade original de constituição do sentido, além de levar à ilusão de uma diferença entre o objeto e o seu teor de verdade. Deslocando o ponto referencial dessa formulação, do sujeito para o sentido original da objetualidade (Gegenstandlichkeit), é possível, segundo Lask, observar que Kant, apesar de seu psicologismo, distingue os dois componentes do sentido: a simples forma (bloße Form) e o simples material (bloße Material), o que permite reelaborar a passagens nos seguintes termos: “a forma sem conteúdo é vazia, o conteúdo sem forma está nu”.389 Tal como Kant,
para Lask uma forma pura é realmente vazia, não passando de um conceito limite, eis que toda forma sempre se determina por um material. Já o material não é cego, mas está apenas logicamente nu (logisch nackt),390 ou seja, o material é envolvido em formas lógicas, mas não
esclarecido cognitivamente. A noção de nudez lógica diz respeito à ausência de conhecimento teórico e não a um material puro intocado pelas formas lógicas. Algo logicamente nu designa o estado pré-teórico em que se vivencia a conformação (Bewandtnis) forma/material do
386 LPK, 1910, p. 73-80: “5. Abschnitt. Logische Nacktheit und Irrationalität.” 387 LPK, 1910, p. 211-222: “3. Abschnitt. Irrationalität und Irrationalismus.” 388
Esta formulação aparece mais de uma vez na obra de Kant, por exemplo, na Crítica da Razão Pura (KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Trad. Vatério Rohden e Baldur Moosburger. São Paulo: Editora Nova Cultural Ltda, 1987, p. 92), e na Crítica da faculdade do juízo (KANT, Emmanuel. Crítica da faculdade do juízo. Trad. Valerio Rohden e Antonio Marques. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1995, p 76 e 77). Lask, entretanto, não deixa claro a qual obra está se referindo, falando apenas de “uma célebre passagem” (LPK, 1910, p. 73).
389
LPK, 1910, p. 74: “Form ohne Inhalt ist leer, Inhalt ohne Form ist nackt.”
objeto. A nudez lógica é o estado da vivência imediata do sentido, é o estado original da forma lógica em seu valer-para um material, independente do comportamento cognitivo que posteriormente ilumina a nudez desse objeto reconhecendo-o dentro de específicas formas lógicas. Para além da distinção de Kant, como escreve Lask, “É preciso distinguir entre a compreensibilidade dos teores lógicos da forma e o simples envolvimento do material, e também entre a claridade dos teores categorias e a simples iluminabilidade do material”.391 O
erro de Kant, quando afirma que “intuições sem conceitos são cegas”, está em imaginar um material intocado pelas formas categorias. Kant não percebe que o material irracional já se encontra envolvido em formas categorias e que é justamente este envolvimento que o permite imaginar e falar da irracionalidade dos dados da intuição. A irracionalidade do material (intuições sem conceito) não decorre da ausência de forma (conceitos), mas ao contrário, de uma relação com a forma. O material só é irracional porque ele se opõe à racionalidade da forma. Um material totalmente independente da forma é completamente desprovido de sentido, não se podendo enunciar nada dele, nem sequer que é irracional.
Com a noção de nudez lógica Lask introduz um novo conceito de irracionalidade (Irrationalität). Irracional não é o que está fora e intocado pelas formas lógicas, mas diz respeito à relação funcional do material com a forma lógica, é a opacidade e impenetrabilidade do material frente à forma categorial. A irracionalidade é intrínseca ao sentido. Irracional é tudo o que pode ser envolvido pela forma lógica, inclusive a própria forma.392 Isso mostra que todo sentido se constitui como uma gradação de irracionalidade,
pois trata-se da determinação da forma em face da opacidade de algum material. Não há sentido na forma pura, mas sim no contato da forma com o material. Mesmo atentando para a impropriedade de metáforas espaciais, pode-se dizer que o sentido se constitui no intervalo entre a forma pura e o material, como despedaçamento, modulação, contaminação da forma pelo material. Esse conceito de irracionalidade deve, por conseguinte, ser distinguido do significado que a palavra irracional tem em seu uso comum na filosofia desde a antiguidade. Se normalmente o irracional é compreendido como aquilo que está fora do logos, como aquilo que não tem nenhuma relação com a forma lógica, para Lask todo material, em sua irracionalidade, mantém uma relação de resistência em face da forma lógica, pois o logos é
391 LPK, 1910, p. 76: “Man muß somit unterscheiden, wie zwiechen der Begreiflichkeit des logischen
Formgehalts und der bloßen Umgreiflichkeit des Materials só auch zwischen der Klarheit des kategorialen Gehalts und der bloßen Umklärbarkeit des Materials.”
universalmente englobante e inseparável do material de que é valente. Os termos
Alogicidade e irracionalidade só abrangem aquilo que é estranho à significação quando os tomamos segundo a terminologia intelectualista da antiguidade, por logos e ratio deve-se entender o teor de validade e sentido em sua mais ampla extensão e não simplesmente como logos teórico e ratio intelectual.393
A irracionalidade significava simplesmente o fato de ser-diferente-do-racional, o fato de se encontrar completamente fora da significação lógica. Irracional era simplesmente o conteúdo não lógico por oposição ao conteúdo lógico. Agora, ao contrário, a irracionalidade não é mais entendida no sentido do não-racional, mas no sentido da não-racionabilidade, que tem por fundamento a relação funcional forma- material. Irracionalidade não é mais a característica de um conteúdo que serve de comparação com um conteúdo lógico, mas a indicação de uma posição funcional face a um conteúdo lógico, o qual é ele mesmo pensado no papel funcional de forma.394
Para Lask, o irracional é o material envolvido pela forma lógica, mas não esclarecido categorialmente com formas cognitivas. A irracionalidade é a função do material em sua relação constitutiva com a forma que lhe é valente, logo, não há que se falar num puro material amorfo e intocado pela forma lógica. Todo material, seja sensível ou não sensível, é sempre vivenciado em sua forma lógica constitutiva, o que de modo algum significa conhecimento. Não atentar para essa diferença é o que pode levar ao que Lask chama de “irracionalismo” (Irrationalismus),395 que são todas as posições teóricas que,
equivocadamente, falam de um material amorfo intocado pela forma lógica, como se isso tivesse algum sentido. Essas teorias não percebem que, se elas remetem a alguma pretensa instância oposta à racionalidade da forma, elas só o fazem em função da relação da forma com o material dessa instância. Falar da irracionalidade dos “dados da intuição”, da “facticidade do real”, da “vida”, da “existência”, da “vontade”, das “pulsões”, do “subconsciente” etc, é já pressupor uma relação com uma forma, que é o que nos permite experienciar, falar e, por último, conhecer essas instâncias. Do ponto de vista de Lask dissolve-se a fronteira que havia
393
LPK, 1910, p. 55: “Allein Alogizität oder Irrationalität würde sich mit Bedeutungsfremdheit nur dann decken, wenn gemäß der durch den Intellektualismus der Antike bestimmten Terminologie unter Logos und Ratio Geltungsgehalt und Sinn im weitesten Sinne und nicht bloß der theoretische Logos und die intellektuale Ratio verstanden wird.”
394
LPK, 1910, p. 77: “Da bedeutete Irrationalität lediglich das Anders-als-rational-Sein, das außerhalb des Inbegriffs logischer Bedeutung Liegen. Irrational war damals einfach der nicht logische Gehalt im Gegensatz zum logischen Gehalt. Jetzt dagegen wird die Irrationalität nicht im Sinne der Nicht-Rationalität, sondern der Nicht-Rationalisierbarkeit gemeint, wobei also das funktionelle Form-Material-Verhältnis zugrunde liegt. Irrationalität ist nicht ein Merkmal für einen Gehalt im Vergleich zum logischen Gehalt, sonderns eine Angabe für eine funktionelle Stellung gegenüber dem logischen Gehalt, der dabei selbst in der funktionellen Rolle der Form gedacht wird.”
no final do século XIX e início do século XX entre racionalistas e irracionalistas. A oposição entre pensadores como Rickert, Windelband, Cohen, Natorp, Frege e Brentano, por um lado, e Darwin, Nietzsche, Schopenhauer, Kierkegaard, Marx, Freud e James, por outro lado, decorreria muito mais de uma falsa concepção da racionalidade do que outra coisa. Enquanto os racionalistas viam o sentido na forma pura, os irracionalistas enxergavam o verdadeiro sentido em alguma instância material, não se dando conta, entretanto, que não há sentido nesses polos, mas apenas no espaço entre eles.
Estabelecida essas distinções, Lask combate a milenar tese segundo a qual o individual real é irracional enquanto que o universal ideal é racional.396 Analisando especificamente a
versão neokantiana de Windelband e Rickert dessa tese, Lask afirma tratar-se da perpetuação de um preconceito intelectualista introduzido por Platão.397 A diferença entre a forma e o
material não pode ser confundida com a diferença entre o universal e o individual. Tanto o universal quanto o individual se constituem como sentido, de modo que em ambos é preciso distinguir a forma racional e a irracionalidade do conteúdo.398 No real individual há tanta
irracionalidade quanto no ideal universal, pois ambos se constituem pela conformação entre a opacidade de um material e a validade de uma forma lógica. A validade da forma se determina sempre em função da opacidade de um material, seja este um material sensível ou um material categorial, logo, não é possível identificar, como faz Rickert, o que “é” com o irracional individual e o que “vale” com o racional universal. Tanto o que “é” (por exemplo, esta cadeira) quanto o que “vale” (por exemplo, o ser da cadeira) são objetos constituídos por um material irracional e por uma forma lógica.399
Para Lask, ser consequente com a mediação transcendental operada por Kant entre o racionalismo e sensualismo, entre o idealismo e o empirismo, implica mostra que racional e irracional não são duas dimensões distintas, mas duas faces da mesma moeda. No centro da forma racional está sempre a impenetrabilidade e opacidade de um material irracional. É preciso compreender a posição de mediação de Kant para além do próprio Kant: “Contra o sensualismo defende-se a impossibilidade de se dispensar o fator racional “a priori” da
396
LPK, 1910, p. 78.
397 LPK, 1910, p. 79. Lask cita o texto de Windelband “Geschichte und Naturwissenschaft” In: Präludien, 3º ed.,
Tübingen, Mohr, 1883-1884, p. 378 e o texto de Rickert, Grenzen der naturwissenschaftlichen Begriffsbildung, Tübigen: J.C.B. Mohr (Paul Siebeck), 2 vol. 1896-1902, p. 236 ss.
398 LPK, 1910, p. 79.
399 Como se mostrou no tópico 3.3, Rickert muda de posição depois da morte de Lask. O ser deixa de ser
ambiguamente definido por oposição ao valor e passa a ser considerado como uma forma fundamental do próprio valor, algo que o aproxima de Lask.
validade, contra o racionalismo defende-se a impossibilidade de se decompor o material”.400
7. A INSTÂNCIA DO VIVENCIÁVEL EM GERAL: AS CATEGORIAS