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Tilrettelegging med bakgrunn i hørselstapet

5. Diskusjon

5.5 Tilrettelegging med bakgrunn i hørselstapet

A Terapia Comunitária, em sua história de construção, nasceu como resposta a uma demanda crescente de pessoas em sofrimento, que procuravam o serviço jurídico através de Aírton Barreto, irmão de Adalberto, nos Direitos Humanos da Favela de Pirambu, na Grande Fortaleza. Aírton identificava que a maioria apresentava um grande nível de sofrimento psíquico e acabava necessitando de atendimento psiquiátrico, pois sofria de depressão e outros males, solicitando medicamentos. Assim, Aírton pediu a colaboração de Adalberto, médico psiquiatra e professor no curso de medicina da Universidade Federal do Ceará.

Adalberto iniciou o trabalho de atendimento psiquiátrico individual juntamente com seus alunos da Universidade, no Hospital Universitário. Atendiam, em média, de 10 a 12 pessoas por dia. Percebendo o aumento crescente da demanda e a limitação de atendimentos diários, Adalberto decidiu realizá-los, diretamente na própria comunidade.

Terapia Comunitária ____________________________________________________________________________________________________

Como desafios, Adalberto encontra, primeiramente, a necessidade de atender, gratuitamente, uma demanda cada vez maior em busca de tratamento e aplicar o conhecimento científico de um modo criativo, de forma a permitir que um grande número de pessoas pudesse ser atendido:

“(...) como passar do atendimento individual, cuja segurança me era garantida pela observância de técnicas e métodos científicos no espaço protegido de um consultório ou de uma instituição respeitável; para o atendimento coletivo onde eu me sentia meio desprotegido? Um espaço em que eu não tinha o controle das pessoas que chegavam e que saíam, inserido num espaço estranho no qual me sentia apenas mais um dentre eles. Eu experimentava o desconforto de não me sentir em minha própria casa no sentido amplo da palavra” (RIVALTA

BARRETO, BARRETO & BAKMAN, 2003, p.35).

As expressões relatadas parecem refletir não somente o desafio de Barreto, mas as dificuldades e conflitos dos profissionais da saúde mental, diante dos desafios de atender às demandas de uma população desassistida e, ao mesmo tempo, ver-se impulsionado a mudar paradigmaticamente: sair do modelo privado pela observância das práticas terapêuticas tradicionais, para realizar atendimentos coletivos in loco. Especialmente no que se refere a médicos e psicólogos, os profissionais parecem tão habituados a pensar suas práticas em termos de atendimentos direcionados à busca de sintomas e diagnósticos, que não aceitam, com muita facilidade, a idéia de abrir mão do setting terapêutico e estar frente a frente com um grupo de atendidos (MILITÃO, 2003; DIMENSTEIN, 2001).

Para além dos desafios diante do atendimento psiquiátrico a esse grande número de pessoas, dentro da favela de Pirambu, Barreto encontrou outras dificuldades. Como sair de um modelo tradicional de atendimento psiquiátrico, calcado no intrapsíquico e passar para a inovação, criando um modelo capaz de gerar autonomia das pessoas atendidas? Como sair do modelo de formação verticalizado em que o profissional detém conhecimento e poder e passar para uma prática cuja informação e conhecimento são circulados para beneficiar tanto profissionais, como a comunidade atendida? Como respeitar as diferenças culturais, aproveitando o conhecimento tácito para gerar competências? Como sair de uma prática especializada e

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comprovada, mas limitante, para atingir o sistema amplo? Como ajudar as pessoas a acreditar em si mesmas e em sua autotransformação criativa? (BARRETO, 2005, P.18.).

A Terapia Comunitária, portanto, nasceu como resposta a essa grande demanda de atendimento a populações carentes de recursos de natureza econômica, de disponibilidade de serviços de saúde, de informação. Essa população, em geral, é profundamente afetada por problemas de ordem psicossocial e de acesso aos serviços de saúde de forma mais ampla. Muitas vezes, na carência de recursos econômicos e diante de todo um panorama político e social que exclui e desfavorece condições dignas de saúde, habitação, educação, saúde, alimentação e trabalho, a própria identidade individual fica ameaçada. Sentimentos de menos-valia e desapropriação cultural podem ameaçar a identidade dos indivíduos, excluídos da condição de pertencimento social. A desagregação e a exclusão social são, em geral, agravadas por migrações forçadas. Nessa empobrecida teia, a fragilidade de laços sociais e a dificuldade das pessoas em se organizar reforçam o rebaixamento da auto-estima, já tão abalada. A desvalorização da auto-imagem culmina na pobreza econômica e emocional.

Diante de um contexto de reconhecer cada indivíduo que sofre e vê sua identidade ameaçada, é que a Terapia Comunitária Sistêmico Integrativa começa a tomar contornos e vir a ser uma ferramenta poderosa no combate à “miséria psíquica”. BARRETO (2005) afirma que seu maior desafio enfrentado foi encontrar um meio para trabalhar, de forma a ajudar o grupo de pessoas atendidas a acreditar em si mesmas e em suas competências e seu objetivo era desencadear ações transformadoras significativas, capazes de colaborar para que elas, diante do sofrimento e dos problemas enfrentados, pudessem ter as rédeas de suas próprias vidas nas mãos, como uma “terapia da auto-estima”. É uma forma de atendimento em que os indivíduos pudessem sair mais fortalecidos para o enfrentamento da batalha social, um espaço de conversação dialógica no qual cada ser humano tenha a possibilidade de se reconhecer e reconhecer o outro.

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O desafio que Barreto revela na história de construção da TC encontra eco em outros autores também preocupados com a questão das adversidades sociais contemporâneas. É caso dos vários desafios enfrentados, por exemplo, por Charles Waldegrave e sua equipe do Centro de Família de Wellington, da Nova Zelândia.

Waldegrave e equipe queriam compreender os limites da prática terapêutica e aplicar uma nova crítica para intervir nas profundas experiências de sofrimento social, com o qual se deparavam. Buscavam uma forma de trabalho calcada na eqüidade e justiça social, capaz de conter simplicidade, destituída de excessos comuns aos modelos tradicionais de terapia, de suas limitações culturais e elitistas. Desenvolveram o Just Therapy: Terapia e Justiça Social – uma terapia justa e sem

excessos, modelo que nasce a partir da pluralidade de conhecimentos e

experiências presentes no próprio grupo do Centro de Família; do vasto conhecimento internacional das ciências sociais; da tradição de cura e dos processos de relações de saúde presentes entre os três grandes grupos: os maori, os samoa e os pakeha (europeus); das experiências distintas com gêneros diferentes, homens e mulheres; e do engajamento do grupo com a justiça social e a crença na espiritualidade universal que reconhece a sacralidade das histórias das pessoas, quando expõem seus sofrimentos (não como espiritualidade institucionalizada, mas aquela que se refere ao relacionamento em todas aquelas culturas).

A intensa demanda, criada pelas desigualdades sociais e culturais existentes na Nova Zelândia, revelam também, uma crítica direta aos modelos mentais médicos, positivistas, sexistas, brancos e rotuladores, que mais contribuíram para atitudes não-éticas do que para resolução de conflitos sociais e familiares (WALDEGRAVE, 2001, p.22).

O trabalho de Charles Waldegrave e de toda a equipe do Centro de Família tem sido uma referência para o estudo dos problemas de sofrimento psíquico, em contextos de grande desigualdade e vulnerabilidade. Esse modelo é também referência de um pioneirismo de um trabalho desenvolvido para atender as demandas, dentro de seu próprio país, ainda que possamos importar seus conhecimentos. Por último, é uma das provas de que é possível trabalhar conflitos sociais, culturais e terapia para o 71

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atendimento de sistemas amplos da população, de forma relativamente simples, quando estamos comprometidos com uma causa pautada na coletividade.

Penso que, no Brasil, os alcances de trabalho como a Terapia Comunitária desenvolvida por Adalberto Barreto e o Movimento de Saúde Mental Comunitária representam uma possibilidade concreta de lidar com o sofrimento de nossa população.