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A concepção integradora do ISD vem, segundo Bronckart (2007:20), da concepção que visa a desenvolver uma “ciência integrada do humano, centrada na dinâmica formadora das práticas de linguagem”. Desse modo, o ISD se opõe à fragmentação atual que ocorre nas diversas áreas do saber: à Linguística cabe estudar a linguagem humana; à Psicologia compete o estudo do comportamento e dos processos mentais humanos, à Sociologia cabe observar o homem inserido no meio social. De acordo com Bronckart (2006:10), as várias áreas que integram as Ciências Humanas acabam por estudar o humano sem conexão clara entre o cognitivo, o social, o linguístico, o cultural.

Para desenvolver o projeto de estudar o ser humano como um todo, Bronckart (1999, 2007, 2008) congrega áreas como a Linguística, a Psicologia e a Sociologia, não com o propósito de criar uma corrente linguística, tampouco uma corrente psicológica, muito menos uma corrente sociológica; mas uma corrente da ciência do humano em que haja a integração de disciplinas. Para isso, o ISD assume pressupostos oriundos do interacionismo social proposto por Vygotsky (1934/1997); e da concepção de linguagem sob a visão de Bakhtin (1986).

Para o interacionismo social, o desenvolvimento humano é descontínuo e pode ser explicado pela história social e humana, o que implica a necessidade de analisar as condições sócio-históricas em que ocorrem o desenvolvimento humano e a significação das diferentes formas interacionais em que ocorre esse desenvolvimento.

De acordo com Bronckart (1999:21), o interacionismo social de Vygotsky entende que o ser humano é um “organismo vivo”. O homem é um ser biológico e social, porque as influências do meio contribuem para o seu desenvolvimento, negando-se, portanto, a ver o desenvolvimento humano apenas pelo ângulo biológico. Esse desenvolvimento ocorreria nas trocas entre parceiros sociais, através de processos de interação e mediação. Nesse processo, a dimensão sócio-histórica e a linguagem têm papel fundamental.

O ISD compartilha os princípios fundadores do interacionismo social, anteriormente mencionados, mas Bronckart (1999:28) sustenta que Vygotsky, apesar de ter se proposto a estudar o ser humano pela união de disciplinas distintas, encontrou dificuldades em desenvolver esse olhar unificador por três razões: não conseguiu definir o objeto de análise da psicologia; não conseguiu distinguir o que era da ordem psicológica e o que pertencia ao social; e, por fim, não conseguiu relacionar a linguagem às ações sociais. Segundo Bronckart (1999:31), para desenvolver esse projeto seria necessário considerar “as ações humanas em suas dimensões sociais e discursivas constitutivas”, como se propõe o ISD.

Outros pressupostos em que se baseia o ISD, ainda segundo Bronckart (2006:126), provêm da concepção de linguagem proposta por Bakhtin (1986). Para o pesquisador russo, a linguagem não é neutra, e sim o resultado da interação social. É na e pela linguagem que a pessoa representa e transforma o universo em que vive; é também por meio da linguagem que a pessoa age no mundo. Bronckart (2008:72) remete a Habermas (1997) e a Coseriu (2001) ao lembrar que ambos concordam com a visão da linguagem como uma atividade humana. Além disso, Habermas acrescenta, ainda, o caráter comunicativo da linguagem – é pela interação verbal entre as pessoas do grupo que são construídas as representações do mundo em que vivemos. Para Bronckart

(1998), essas representações são propriedades próprias do ser humano, sociais em sua essência e percebidas nos textos. Ele as define como:

[...] as capacidades de representação especificamente humanas são produtos da interiorização de formas particulares de interação que são desenvolvidas na espécie humana no decorrer da História. (BRONCKART, 1998:03)15

Segundo Bronckart (2008:71), a atividade de linguagem é produtora de objetos de sentido; ela é também, necessariamente, constitutiva das unidades representativas do pensamento humano, e na medida em que a atividade de linguagem é atividade social, o pensamento ao qual ela dá lugar é também semiótico e social. Embasado em Coseriu, Bronckart (2008:72) expõe algumas teses que nos ajudam a compreender a linguagem para o ISD:

 A linguagem existe no ato de falar com o outro, mostrando que a essência da linguagem é o diálogo;

 A atividade de falar se concretiza apenas por meio da língua, que é determinada historicamente, e pelos falantes que a adotam, que também estão situados historicamente;

 A linguagem é uma atividade criativa, porque produz, cria, constrói objetos, por estar em constante transformação e ser livre (pode se referir a qualquer objeto);

 A atividade da linguagem é significante, porque cria conteúdos e expressões, além dos signos.

Em suma, na concepção do ISD proposto por Bronckart, a linguagem:

[...] não é (somente) um meio de expressão de processos que seriam estritamente psicológicos (percepção, cognição, sentimentos, emoções), mas que é, na realidade, o instrumento fundador e organizador desses processos, em suas dimensões especificamente humanas. (BRONCKART, 2006:122)

Retomando os pressupostos do ISD, de acordo com Bronckart (1999, 2006), o ISD ainda faz empréstimo de aportes da Teoria de Comunicação de Habermas. Para o autor, Habermas também defende a ideia de que o ser humano deve ser estudado em sua totalidade, em conexão com outras ciências, e reconhece o caráter comunicativo da linguagem – é pela interação

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... les capacites de représentation spécifiquement humaines sont le produit de l‟intériosation des formes particulières d‟interaction qui se sont développées dans l‟espéce au cours de l‟Histoire.

verbal entre as pessoas do grupo que são construídas as representações do mundo em que vivemos.

Sintetizando, o ISD defende que o humano deve ser estudado pela integração de várias disciplinas, considerando o contexto social em que está inserido, seu comportamento nesse contexto, a linguagem desse humano e a situação de uso dessa linguagem no contexto x ou y. Retomando o projeto do ISD, segundo Bronckart (2007:20) essa ciência é “centrada na dinâmica formadora das práticas de linguagem”, porque é pela linguagem que representamos o universo dinâmico em que estamos inseridos.

Assim, no ISD são desenvolvidos trabalhos teóricos e empíricos que destacariam o papel fundador das atividades linguageiras no desenvolvimento humano. Segundo Bronckart (2006:129), para explicar o funcionamento psicológico e o desenvolvimento humano, é necessário fazer uma análise de três níveis:

 o dos pré-construídos: como os fatos sociais, as atividades coletivas gerais e as atividades de linguagem;

 o dos processos de mediação formativa, sobretudo, esses relacionados à educação nas instituições escolares;

 o do desenvolvimento, relativo ao desenvolvimento das pessoas e de suas capacidades.

Buscando esclarecer a unidade de análise proposta, Bronckart faz uma extensa pesquisa bibliográfica constando que os termos ação e atividade têm acepções muito diferentes nas Ciências Humanas. Assim, para ter uma coerência metodológica no uso dos termos, Bronckart (2006: 212) propõe utilizar o termo agir “em um sentido genérico, para designar qualquer forma de intervenção orientada no mundo, de um ou de vários seres humanos, e, portanto, para dar o nome ao „dado‟ observável.”

Esse agir humano pode ainda ser considerado em relação aos elementos do plano motivacional, do intencional e dos recursos para o agir. No primeiro, podemos ter determinantes externos, de origem coletiva, motivos desse agir, de um indivíduo, interiorizadas pela pessoa. O plano intencional envolve as finalidades do agir de origem coletiva e as intenções do indivíduo. O

terceiro e último está ligado aos instrumentos de que a pessoa poderia dispor e as capacidades atribuídas a uma pessoa para aquele agir.

Quanto à terminologia adotada pelo ISD, interessam-nos os termos relacionados às pessoas que intervêm no agir. De acordo com Bronckart & Machado (2004:156), actante é aquela envolvida em qualquer tipo de agir. O termo ator, por sua vez, designa a pessoa dotada de capacidades, intenções e motivos e fonte principal no processo do agir. Já o agente participa do processo de agir, mas não lhe são atribuídas capacidades, motivos e intenções.

Concordando com o quadro epistemológico do ISD, compreendemos que para se investigar a autonomia docente de professores universitários que ministram aulas de LI e fazem uso das TICs no trabalho, é pertinente considerar a integração entre as áreas do saber, já que essa integração nos permitiria perceber um ser mais completo, inserido em um contexto social, dotado de capacidades e conhecimentos e que constrói suas representações do mundo na e pela linguagem.

Para a investigação da autonomia docente, especificamente, o ISD nos permite pesquisá-la congregando aportes teóricos das Ciências do Trabalho e de definições de autonomia oriundas do Direito, da Sociologia e da Psicologia. Além disso, interessa-nos, nessa vertente do interacionismo, a concepção da linguagem que exerce um papel essencial, ou seja, que é na e pela linguagem que são construídas as representações do mundo, incluindo aqui as representações sobre a autonomia docente. Para detectá-las, assumimos os procedimentos de análise do ISD, para qual nos voltamos a seguir.