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4. REINDRIFT OG KLIMATILPASNING

4.3 Tilpasninger i flokkstrukturen?

A construção do modelo teórico sugere a mobilização dos contributos de Simmel a propósito dos conceitos de sociabilidade e estilos de vida, de Weber a propósito da relação entre estrutura e ação, da sua formulação de “tipos ideais” e conceptualizações relativas à racionalização e burocratização das sociedades e do papel do estatuto, e de Marx a propósito do papel das classes sociais e do valor formal e simbólico das mercadorias, procurando globalmente localizar a temática do ato alimentar no binómio ação-estrutura e nas dicotomias indivíduo-sociedade e subjetivismo – objetivismo.

Durkheim é o primeiro dos autores clássicos a conceder sustentada atenção teórica à temática do alimento no seu livro “Formas Elementares da Vida Religiosa”. Neste aborda as crenças e práticas totémicas, de algumas sociedades primitivas, as quais integram o consumo ritual de animais ou plantas/vegetais em refeições místicas proibidas aos profanos (Durkheim, 1976: 130) e certos alimentos são tabu de acordo com a natureza sagrada ou profana que encarnam ou o género a que se destinam (Durkheim, 1976: 304) assumindo algumas espécies animais e vegetais, usadas na alimentação, um poder simbólico, quase mágico, estruturante das práticas religiosas e sociais das comunidades estudadas. Durkheim assume que é possível

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apreender a essência de um fenómeno social, estudando a elementaridade com que se manifesta, sendo que neste caso o estudo das experiências primitivas emerge sobretudo como opção metodológica para a definição de leis gerais da sociedade humana.

Vivemos em sociedades capitalistas com estados fortes (distintos do estado ‘abstencionista’ do séc. XIX) seja nos processos de regulação ou de monitorização social, mas o crescimento da desconfiança e incerteza, o surgimento de novos riscos e a incapacidade da ciência e da religião, para encontrarem respostas definitivas para as complexidades da vivência quotidiana, estimula a autorreflexividade, processo de gestão do self o qual favorece a mudança contínua e a busca de controlo individual. Neste contexto o corpo, e a forma como o alimentamos (material e simbolicamente), assume um papel muito mais ativo do que em períodos históricos anteriores, refletindo a tensão entre estrutura e ação. Numa lógica de meta narrativas o paradigma marxista sublinha a prevalência das instituições, ao serviço dos processos de exploração e manutenção da ordem social, e o paradigma interacionista dá relevo à profunda mudança social ocorrida, na fase tardia do capitalismo, com novos arranjos classistas, globalização dos mercados mas também das modas e tendências e da circulação de bens de consumo, com acentuação dos mecanismos e processos de racionalização em todos os planos do quotidiano dos indivíduos, constituindo a alimentação, e as práticas alimentares, uma janela da vida social; a “MacDonaldização” dos hábitos alimentares, nas sociedades modernas (Ritzer, 1993:2008), é sugerida como o expoente máximo da racionalização, burocratização e estandardização propostas por Weber.

O surgimento do capitalismo, e de duas classes antagónicas, é a resposta que Marx encontra para a seguinte perplexidade: Como é que após a instalação da igualdade política (revoluções liberais) persistem e mesmo se agravam as desigualdades económicas? O modelo conceptual marxista estabelece relações de dependência da superestrutura da sociedade (ideias, costumes, instituições) a partir da infraestrutura (forças económicas) (Marx, 2004: 73- 74), sendo que a apropriação privada dos meios de produção, no capitalismo, resulta em relações sociais de exploração do proletariado pelos capitalistas. Sendo o valor do trabalho igual ao somatório do valor dos elementos básicos, para a existência do trabalhador, incluindo-se nestes, aqueles ligados à subsistência (alimento, vestuário e abrigo), a adequada nutrição da força de trabalho, enquanto meio de produção, deverá ser assegurada podendo ser estabelecidas relações diretas entre a melhoria dos padrões alimentares e incrementos de produtividade (McIntosh, 1996: 187-88). Por outro lado a desigual repartição de alimentos, em muitos países (afetando desde logo milhões de desempregados e outros segmentos socialmente marginalizados), pode atualmente ser entendida como o resultado de uma

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estratégia, supranacional, de aplicação de medidas de austeridade de forma a garantir o adequado retorno ao capital financeiro utilizado no endividamento dos respetivos países. Não devendo o marxismo ser reduzido ao determinismo económico, de facto, um dos princípios fundadores do materialismo histórico é a localização da ação (homens) numa determinada estrutura (económica), no quadro da divisão social do trabalho, e do domínio coercivo e persuasivo-ideológico de uma classe sobre a outra e da luta de classes que daí resulta. No plano alimentar esta conceção é de particular operacionalidade ao permitir contextualizar a atual produção ideológica, sobre o papel do alimento (a produção científica e intelectual, os discursos periciais e os formadores de opinião), como não-neutral e ao serviço da reprodução do modo de produção dominante.

Max Weber refletindo sobre o impacto da mudança estrutural (capitalismo) na interação e identidade humanas, sustenta que as sociedades ocidentais são caracterizadas pela racionalidade, e completamente dominadas pela busca da máxima eficiência e regras de previsibilidade, calculabilidade, apurada divisão do trabalho, impessoalidade e tecnologias não-humanas que controlam os indivíduos gerando uma rede matricial de orientações e procedimentos alavancados em grandes estruturas formais. Weber ao sublinhar que o predomínio do ‘racional na vida’ enforma a experiência dos agentes propõe ser esta racionalidade que permite compreender e interpretar o sentido que a ação humana empresta aos objetos (Weber, 2004: 587) e explora o conceito de ‘tipo-ideal’ como uma referência que permite avaliar o distanciamento da ação concreta do conceito ‘puro’ (Weber, 2004:643). A relação entre o ‘racionalismo humanista e os seus ideais de vida’ (Weber, 2010[1930]:199) permite a ponte conceptual com a noção de ‘estilos de vida’ conduzidos por um racionalismo metódico e utilitarista que procura, no caso dos estilos de vida saudáveis, a máxima eficiência do corpo e da sua capacidade de resposta no presente e no futuro.

Nesta viagem por autores e conceitos é possível estabelecer pontes epistemológicas entre algumas das propostas dos sociólogos da contemporaneidade, (Giddens, Bourdieu), as quais sublinham que os indivíduos de forma autorreflexiva utilizam produtos de consumo (commodities) para construir e gerir processos de auto – realização, auto - imagens e mapas simbólicos na relação com o outro, e as propostas de Simmel relativas às relações complexas entre sujeito e objeto, e os conceitos de valor que daí emanam, já que o desenvolvimento pessoal dos indivíduos somente pode ser alcançado através da mediação de objetos. Os processos de gestão identitária alimentam-se da posse e fruição de objetos que representam desejo, e permitem concretizar motivações aspiracionais, e aos quais atribuímos valor “que é consumido no momento em que é desfrutado, o qual anula a oposição entre sujeito e objeto”

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(Simmel, 2004:63). O conceito de alimento é sociologicamente “polissémico” adquirindo muitos sentidos e significados dependendo da sua filiação cultural, ou religiosa, ou da sua localização histórica-temporal, mas assumindo enquanto objeto a capacidade de reconciliação entre as culturas subjetivas e objetivas. A sacralização ou deificação de certos alimentos, em épocas históricas anteriores (Durkheim, 1976), transporta-se nos tempos modernos para o papel mágico no emagrecimento ou na cura de algumas doenças atribuído a alguns alimentos, ou combinações alimentares, sendo a sua apropriação, enquanto ferramenta de gestão identitária, transversal às diferentes classes e estatutos sociais; os alimentos básicos para quem vive na angústia da exclusão social, os alimentos luxuosos para quem procura ascensão ou diferenciação social ou os alimentos, e experiências gastronómicas exóticas, para quem está no topo da escada social. Para Simmel a vida, em particular nas metrópoles modernas, é dominada pela fluidez, a dissolução de conteúdos fixos e a experiência de múltiplos fluxos dinâmicos, sendo um dos mais significativos a acelerada circulação monetária, e a gratificação do momento subsequente à troca, no qual os objetos se “transmutam” da sua existência física para o plano espiritual, numa sublimação metafísica do valor (Simmel, 2004:66), cumprindo eventualmente objetivos de “fetichização” consumista, conceito que partilha com Marx para quem existe uma evidente característica fetichista nos objetos e mercadorias produzidas pelos sistemas industriais capitalistas. Marx abordou o carácter místico da mercadoria, “coisas a um tempo sensíveis e suprassensíveis (isto é, coisas sociais) ” (Marx, 1974: 112) introduzindo a separação entre a natureza física dos produtos do trabalho e através da troca, a respetiva existência social, a qual incorpora valores somente decifráveis através de uma alocação individual de sentido.

Para Simmel, a ação consciente (por oposição á ação instintiva) é aquela que conduz a um fim preciso, sendo que a satisfação sentida pelos indivíduos é resultante das consequências que a ação produz, e não pela ação em si mesma, sendo que o ato alimentar pode refletir duas categorias comportamentais distintas (instintiva e intencional):” o ato de comer exclusivamente para satisfazer a fome enquadra-se na primeira categoria; comer para apreciar o sabor dos pratos cai na segunda” (Simmel, 2004:204).