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Willem Lodewycksz embarcou no navio Amsterdam a 1 de abril de 1595, na véspera da partida da frota. Mais tarde, à partida de Madagáscar a 13 de dezembro de 1595, Lodewycksz afirma que, devido a uma tempestade, se tinham perdido do

Amsterdam, do Hollandia e da pinaça, informação que o coloca, portanto, a bordo do

Mauritius.387 Não se sabe as razões pelas quais mudou de navio.388 A 19 de janeiro de 1957, ao navegar entre Bali e Java, escreveu «o Hollandia acercou-se de nós».389 Como por essa altura o Amsterdam tinha ardido, estaria na viagem de regresso ainda a bordo do Mauritius. Sendo este o navio-almirante, Lodewycksz estaria assim numa posição privilegiada para aceder aos acontecimentos relevantes que se foram desenrolando durante a viagem.

Desconhecem-se as funções que Lodewycksz desempenhou a bordo. Admite-se que possa ter sido um comerciante, pois em Java encontrava-se frequentemente entre aqueles que se deslocavam a terra para comprar pimenta. Seria um viajante experimentado, com experiência prévia do Mediterrâneo e da costa ocidental de África.390 Não se sabe se terá estado no Índico antes desta viagem mas, ao que tudo indica, teria em seu poder informações de origem portuguesa sobre a Insulíndia, como veremos mais adiante.391 Depois do seu regresso à Holanda, Lodewycksz voltaria a embarcar no outono de 1598, mas desta vez em direção à Guiné ao serviço de Balthasar de Moucheron. Rouffaer e Ijzerman descrevem-no como sendo um «apaziguador»392

385 Sobre este assunto, cf supra o capítulo 3, ponto 2.

386 Designada em javanês Bantam e em português Bantam ou Bantão. Thomaz 2002: 388. 387 Lodewycksz, De Eerste Schipvaart, p. 20.

388 A 26 de outubro, por ter morrido quase metade da marinhagem dos navios Hollandia e Mauritius,

houve uma restruturação das tripulações, sendo possível que Lodewijcksz tenha passado para o

Mauritius. Lodewycksz, De Eerste Schipvaart,1915: p. 20, nota I.

389 Lodewycksz, De Eerste Schipvaart, p. 183. 390 Parmentier 1988: 154.

391 Cf. infra o capítulo 5, ponto 5.

entre a tripulação do navio Mauritius, do qual era comandante Cornelis de Houtman à saída de Texel, e o Hollandia, que tinha como capitão Gerrit van Boninghen, pessoa com quem Houtman não mantinha boas relações. Terá sido por esta sua qualidade que os despachantes lhe pediram para ser o relator «oficial» da viagem.

Em 1598, Cornelis Claesz publicou em Amesterdão, um livro intitulado Teerste

boek -Historie van Indien: waer inne verhaelt is de avontueren die de Hollandtsche Schepen bejeghent zijn: Oock een particulier verhael der Conditien, Religien, Manieren ende Huys-houdinge der volckeren die zy beseylt hebben, wat Gelt, Specerye, Drogues ende Coopmanschappen by haer ghevonden worden, met den prijs van dien, etc. 393

É este o chamado Primeiro Livro, que descreve na íntegra a Primeira Viagem ao Índico, através da rota do Cabo utilizando o diário de Lodewycksz. Além desta, tinha surgido em 1597 em Midelburgo, uma edição anterior do mesmo relato intitulada Het

Verhaal van de Reyse.394 Posteriormente, entre os séculos XVII e XIX, várias edições de diários e documentos relacionados com a Primeira Viagem foram dados à estampa. A Linschoten Vereeniging fac-similou e reeditou a maioria destes relatos em 1915 com o título De Eerste Schipvaart der Nederlanders naar Oost-Indië onder Cornelis de

Houtman 1595-1597, Journalen, Documenten en anderen Bescheiden,395 em três volumes. Por verificar ser a versão de Willem Lodewycksz de 1598 a mais completa, foi-lhe dedicado o primeiro volume desta coletânea com o título De Eerste Schipvaart

der Nederlanders naar Oost-Indië onder Cornelis de Houtman 1595-1597, Journalen, Documenten en anderen Bescheiden, D’Eerste Boeck van Willem Lodewycksz, Deel I.396 Da edição de 1915 constam as gravuras e mapas da versão original, bem como uma gravura que Cornelis Claesz gostaria de ter juntado à primeira edição em 1598, mas que

393 Em tradução portuguesa: O Primeiro Livro- História da Índia: onde nele se contam as aventuras por

que passaram os Navios Holandeses: também em particular os relatos das Condições, Religiões, Maneiras e Vida Doméstica dos povos por onde navegaram, que Moeda, Especiarias, Drogas e Tratos por eles foram encontrados, com os seus preços, etc.

394 Em tradução portuguesa: Relato da Viagem dos Navios Holandeses às Índias Orientais, as suas

aventuras e sucesso, com a descrição das Terras onde estiveram, das cidades e habitantes, com Cartas e Figuras, de muito agradável leitura. Imprimido para Barent Langenes, Livreiro em Middelborgh, Anno 1597.

395 Em tradução portuguesa: A Primeira Viagem dos Neerlandeses às Índias-Orientais sob Cornelis de

Houtman 1595-1597, Diários e outra Documentação.

396 Em tradução portuguesa: O Primeiro Livro- História da Índia: onde nele se contam as aventuras por

que passaram os Navios Holandeses: também em particular os relatos das Condições, Religiões, Maneiras e Vida Doméstica dos povos por onde navegaram, que Moeda, Especiarias, Drogas e Tratos por eles foram encontrados, com os seus preços, etc., O Primeiro Livro de Willem Lodewycksz, Volume I. Doravante mencionado nesta dissertação como, Lodewycksz, De Eerste Schipvaart.

não chegou a fazer parte dela. São um total de dois retratos, oito cartas marítimas e terrestres e 46 gravuras.

Nesta dissertação optou-se por recorrer à publicação fac-similada da fonte quinhentista do diário de Lodewycksz, anotada por G. P. Rouffaer e J.W. Ijzerman, de modo a auscultar a natureza dos contactos mantidos com os portugueses durante o percurso da frota até Java em 1595 e no regresso à Holanda em 1597, assim como durante a sua estadia na Insulíndia. Convém notar que as anotações de Rouffaer e Ijzerman ao texto de Lodewycksz são de extrema importância, porque cruzam a informação contida no Primeiro Livro com outras fontes, na sua maioria diários, alguns manuscritos e outros fac-similados, publicados também pela Linschoten Vereeniging nos restantes dois volumes da coletânea.